CURRÍCULO E PERCURSO FORMATIVO NA EPT: COMPREENSÕES A PARTIR DO MÉTODO CURRERE Este estudo refere-se a uma investigação realizada no âmbito de uma tese de doutorado, em que discorre sobre currículo e formação docente no contexto do percurso formativo de alunos dos cursos de Licenciatura de um Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. Partindo do pressuposto de que o percurso formativo do aluno é construído e constituído a partir de suas experiências e que estas podem se configurar como elemento decisivo da sua escolha em acessar e concluir um curso de licenciatura, mesmo não sendo a sua opção inicial de estudo, a pesquisa foi norteada a partir da seguinte questão: quais experiências levaram o aluno licenciando, ao longo do seu percurso formativo, a formar-se professor, mesmo não sendo essa sua opção inicial? A questão de pesquisa originou-se da percepção de que os alunos ingressam nos cursos de licenciatura, mas não têm a pretensão de serem professores. Mas, no movimento de escolhas e experimentações ao longo do curso, estes permanecem e concluem o processo formativo na docência. Nessa perspectiva, tem-se como objetivo de investigação compreender quais experiências levaram o aluno licenciando, ao longo do seu percurso formativo, a formar-se professor. A realização da pesquisa, partindo do percurso formativo e das experiências dos alunos, encaminhou-se para estudos teóricos que visam a compreensão do currículo numa perspectiva fenomenológica, pois “a fenomenologia é um esforço disciplinado e rigoroso para compreender a experiência profunda e autêntica” (Pinar et al., 1995a, p. 405). Nesse contexto, o método autobiográfico currere desenvolvido por William Pinar ancora a base teórica e metodológica deste estudo por se caracterizar como uma “estratégia concebida para revelar a experiência, para que possamos vê-la mais e com mais clareza” (Pinar et al., 1995b, p. 518). O currere, forma latina do infinitivo de currículo significa percorrer o caminho (Pinar, 2007, p. 65). É um método autobiográfico que propõe o estudo das experiências educacionais dos sujeitos a partir da vivência de quatro momentos: regressivo, que é a volta ao passado; progressivo: imaginar o futuro; analítico: compreensão, a partir da volta ao passado e ida ao futuro; sintético: momento de olhar para dentro e entender o significado do presente. A concepção de currículo adotada neste estudo, ancorada em Pinar et al. (1995c), parte da perspectiva da compreensão curricular, deslocando o sentido de um currículo institucional, burocrático, desenvolvimentista, para um currículo centrado no sujeito, nas experiências. Para Pinar (2007), o conceito do currículo não pode ser limitado, pois é um conceito altamente simbólico. Sendo assim, “o currículo é histórico, político, racial, genderizado, fenomenológico, autobiográfico, estético, teológico e institucional” (Pinar et al., 1995c, p. 847). Nesse contexto, para pesquisar a relação entre currículo e formação docente, fundada em uma perspectiva conceitual que coaduna com as teorias curriculares trazidas, defendi neste estudo que a formação docente é um processo interno que nos constitui, tomando como referência as formulações de Sá (2018) que, a formação é o próprio movimento de ser no mundo que amplia a esfera do ser e permite uma atualização contínua das possibilidades que são postas. Em busca da compreensão das experiências ao longo do percurso formativo dos alunos licenciandos, que aqui é compreendida com base em Sá (2018, p. 53), como a experiência cotidiana, vivenciada nos diversos tempos-espaços, que possam ter tocado o aluno, ampliado suas referências e conduzido as suas escolhas, partindo de narrativas, foi desenvolvido um instrumento de pesquisa autobiográfico, denominado de Ateliê autobiográfico: revelando experiências, desvendando a formação docente. Centrado na fenomenologia e ancorado na bricolagem, pois esta, além de “buscar evitar formas monólogas de conhecimento, produzido na busca racionalista da certeza, de um conhecimento objetivo das coisas” (Kincheloe, 2007a, p. 23), permite utilizar um ou mais métodos e instrumentos de pesquisa, de forma ativa e criativa, a partir das necessidades do pesquisador, foi constituído tendo como referência o currere (Pinar, 1994a) e com inspiração no ateliê biográfico de projeto (Delory-Mombeger, 2006) e no grupo reflexivo e mediação biográfica (Passeggi, 2011). Esse instrumento se refere a encontros de escuta, em que os alunos narraram suas histórias de vida e trajetórias educacionais a partir de cinco momentos: acolhimento dos alunos; momentos regressivo, progressivo, analítico e sintético, que direcionaram os alunos a refletirem e narrarem sobre o lugar de formação e o eu no presente, passado e futuro, organizados e estruturados com base nas quatros fases do método autobiográfico currere. Em cada um dos quatro momentos, as atividades partiram dos seguintes questionamentos, sequencialmente: O que te fez vir para este lugar? Que lugar [IFSertãoPE] é este? Como você se vê no futuro? Quem é você neste lugar? O que te fez ficar neste lugar? Para participar das atividades, foram convidados os alunos dos cinco cursos de licenciatura do Instituto Federal campo de pesquisa, que já haviam concluído, no mínimo, 80% da carga horária dos cursos, totalizando dez alunos participantes. A escolha por realizar a pesquisa em uma instituição de Educação Profissional e Tecnológica (EPT), com identidade própria e bases políticas e pedagógicas bem definidas, se deu por, não apenas por ser o local de atuação docente de uma das autoras, mas porque se revela como um locus de formação de professores diferente de outras instituições que também ofertam cursos de licenciaturas, devido ao seu perfil técnico e tecnológico, como apontam Lima e Silva (2014). Finalizados os momentos do Ateliê Autobiográfico, que foram gravados em áudio e vídeo, com autorização dos participantes, mediante assinatura do termo de consentimento submetido ao comitê de ética, as narrativas foram transcritas e organizadas de forma que pudessem ser entretecidas às bases teóricas que sustentaram a pesquisa. As respostas dos alunos apontaram que o caminho percorrido ao logo do processo formativo é um mundo de possibilidades. Sendo um mundo de possibilidades, o aluno chega ao final do percurso sendo outro, diferente daquele que iniciou. À medida que as atualizações acontecem os alunos vão reconfigurando suas perspectivas formativas e percebendo esse “novo eu” que finda um percurso. O percurso formativo do aluno também se revela como um processo contínuo de reconfigurações, no qual as experiências, as relações humanas e o lugar desempenham papéis fundamentais, constituindo-se como elementos estruturantes. Essas reconfigurações, orientadas pelas experiências e pela constante atualização de referências, formam a base de uma formação docente que transcende a mera instrução técnica, promovendo uma compreensão mais profunda do mundo e de si mesmo. O percurso formativo não é constituído de forma solitária, individualizada, pois as relações tendem a se estabelecer entre os sujeitos que caminham juntos - alunos, professores, comunidade, família - acompanhados de suas configurações culturais e sociais. Como afirma Almeida (2024 p. 220) “a ação educativa não é individualista e solitária, ela só é possível nas relações entre as pessoas [...]”. Desse modo, a formação acadêmica também acontece através das relações humanas, que vão se estabelecendo ao longo do percurso formativo, influenciando o desenvolvimento cognitivo e emocional, promovendo um senso de pertencimento e acolhimento que é fundamental ao longo do percurso. Além disso, ao propor uma educação para as relações, Almeida (2024 p. 225) e Sá e Almeida (2020) afirmam que considerar as relações na prática pedagógica provoca um distanciamento de modelos educativos homogeneizantes e amplia posturas potencializadoras de aprendizagens relacionais e implicadas ética, social e politicamente com o mundo. Ao conhecer as experiências educacionais/formativas dos alunos e compreender que tais experiências também constituem e estruturam o percurso formativo, corroboro com a visão de Almeida (2012) que aponta a experiência como aspecto basilar da formação do ser e que não pode ser vista como algo cumulativo, mas como um processo em movimento. O lugar também se torna um elemento importante no percurso formativo porque é no lugar que as relações se estabelecem. As experiências cotidianas do indivíduo e seus contextos particulares se conectam ao lugar, que também possibilita o acontecimento das relações humanas. O currículo como lugar de Kincheloe e Pinar (1991) se torna presente aqui pela ênfase dada na importância de articular a história e a memória, o lugar, os sentimentos e as experiências cotidianas na constituição curricular. A partir das revelações da pesquisa, conclui-se que a formação docente deve partir de um olhar para o percurso formativo e o que ele nos revela. As histórias narradas pelos alunos mostraram que as experiências vividas ao longo deste percurso, assim como as relações estabelecidas neste lugar os encorajaram a seguir em frente e chegar ao final do curso. Compreender como os alunos experienciam este percurso é questão de currículo! É enxergar o currículo como movimento, como possibilidades de reconfigurações ao longo do percurso que permitem aos alunos formar-se professores; tornar-se professores. REFERÊNCIAS ALMEIDA, V. D. A experiência em experiência. Jundiaí: Paco editorial, 2012. ALMEIDA, Verônica Domingues. Da mundanidade do amor e a emergência de novas éticas amorosa na educação. In.: Caosgrafia do amor docente. São Paulo: Pimenta Cultural, 2024. DELORY-MOMBERGER, C. Formação e socialização: os ateliês biográficos de projeto. Educação e pesquisa, v. 32, p. 359-371, 2006. Disponível em:
http://educa.fcc.org.br/scielo.php?pid=S1517-97022006000200011&script=s…. Acesso em: 27 mar. 2023 KINCHELOE, J. L. O poder da bricolagem: ampliando os métodos de pesquisa. In: KINCHELOE, Joe L.; BERRY, Kathleen S. Pesquisa em Educação: conceituando a bricolagem. Trad. Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2007a. KINCHELOE, J. L.; PINAR, W. F. (ed.). Curriculum as Social Psychoanalysis: The Significance of Place. Estados Unidos: State University of New York Press, 1991. LIMA, F. B. G.; SILVA, K. A. A concepção de formação de professores nos Institutos Federais: um estudo dos discursos políticos. HOLOS, [S.l.], v. 2, p. 3-12, mar. 2014. ISSN 1807-1600. Disponível em:
https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=481547171002. Acesso em: 01 abr. 2021. PASSEGGI, M. da C. B. S. A experiência em formação. Educação, [S. l.], v. 34, n. 2, 2011. Disponível em:
https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/view/8…. Acesso em: 8 maio. 2023. PINAR, W. F. et al. Chapter 10: Understanding Curriculum as Autobiographical/Biographical Text. Counterpoints, v. 17, p. 515–566, 1995b. Disponível em:
http://www.jstor.org/stable/42974926. Acesso em: 06 maio 2023. PINAR, W. F. et al. Chapter 8: Understanding Curriculum as Phenomenological Text. Counterpoints, v. 17, p. 404–449, 1995a. PINAR, W. F. O que é a Teoria do Currículo? Tradução: BARROS, Ana Paula; PINTO, Sandra; Porto, Potugal: Ed. Porto 2007. PINAR, W. F. The Method of “currere” (1975). Counterpoints, v. 2, p. 19–27, 1994a. Disponível em:
http://www.jstor.org/stable/42975620. Acesso em: 07 abr. 2023. PINAR, W. F. et al. Understanding Curriculum: An Introduction to the Study of Historical and Contemporary Curriculum Discourses. New York. Peter Lang, 1995c. SÁ, M. R. G. B de. Formar-se ou tornar-se professor? considerações ontológicas sobre formação docente. In: CANDA, Cilene N.; MENDONÇA, Celida S. (Orgs.). Paisagens educativas do Ensino de Teatro na Bahia.1ed. Salvador-Bahia: EDUFBA, v. 1, 2018, p. 47-62. SÁ, M. R. G. B. de; ALMEIDA, V. D. Formação docente em exercício e a criação de uma epistemologia pedagógica esteada nas relações. In.: XXV Encontro de Pesquisa Educacional do Nordeste e Reunião Científica Regional Nordeste da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação, 2020, Salvador-Bahia. Disponível em:
https://anais.anped.org.br/regionais/sites/default/files/trabalhos/20/8…. Acesso em: 11 nov. 2023.