CURRÍCULO E O ENSINO DE MATEMÁTICA NA EJA NO NORDESTE: DISCURSOS E SILENCIAMENTOS A PARTIR DE DOCUMENTOS ORIENTADORES INTRODUÇÃO Este trabalho apresenta uma síntese de uma pesquisa de mestrado em andamento no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), vinculada à Linha de Pesquisa “Currículo, Práticas Educativas e Diferença”. A investigação tem como objetivo compreender os discursos produzidos por educadores matemáticos à luz de documentos curriculares e/ou materiais orientadores situados na região Nordeste do Brasil, no contexto da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Trata-se de uma pesquisa que se insere no campo das discussões curriculares, dialogando com referenciais pós-estruturalistas, especialmente a partir dos aportes teóricos de Michel Foucault. Nesse sentido, busca-se compreender como os discursos sobre o ensino de matemática na EJA são construídos, disseminados e legitimados por meio de documentos oficiais, práticas pedagógicas e políticas públicas específicas para essa modalidade de ensino. A escolha por essa temática parte do reconhecimento da diversidade sociocultural que marca a região Nordeste, formada por nove estados com diferentes trajetórias históricas, políticas e educacionais. Essa pluralidade interfere diretamente na constituição dos sujeitos da EJA, nos sentidos atribuídos ao conhecimento matemático e nas formas como o currículo é elaborado, interpretado e praticado nas redes públicas de ensino. Apesar da EJA ser garantida como direito pela legislação educacional brasileira, ainda são escassas as pesquisas que abordam especificamente o currículo de matemática nesta modalidade, especialmente em contextos regionais diversos. Nesse cenário, conhecer os discursos que atravessam o ensino de matemática na EJA no Nordeste contribui para evidenciar tanto as ausências quanto as presenças no campo curricular — destacando vozes, silenciamentos e práticas que desafiam os modelos normativos de educação. Assim, a pesquisa busca não apenas mapear o currículo, conteúdos e diretrizes, mas também compreender os modos de subjetivação e as relações de poder que produzem e sustentam determinadas verdades sobre o que é, ou deve ser, ensinar matemática na EJA. Inicialmente, a pesquisa se apoia na leitura e análise dos estudos realizados por Vargas (2013), que realizou um estado da arte sobre a Educação Matemática na EJA entre os anos de 2000 e 2010. O referido estudo apresenta, entre outros aspectos, produções e publicações referentes ao currículo de matemática na EJA. Também é fundamental a leitura da obra de Lopes e Macedo (2011), Teorias do Currículo, que nos insere em uma reflexão sobre o conceito de currículo e suas múltiplas dimensões, contextualizando-o aos múltiplos desafios para o currículo no contexto da EJA. Destacam-se ainda as reflexões propostas por Campesato (2021), no artigo “Experiências curriculares na educação de jovens e adultos: inéditos viáveis encontros”, que propiciam um encontro entre a EJA e o pensamento de Foucault, colaborando para a compreensão das agências que atravessam o sujeito e esta modalidade de ensino. A partir do referencial foucaultiano, os achados parciais desta pesquisa indicam que os discursos sobre o ensino de matemática na EJA no Nordeste não são neutros nem naturais, mas atravessados por relações de poder, regimes de verdade e práticas de normalização. A análise preliminar dos documentos e produções acadêmicas revela que a matemática, frequentemente concebida como um saber técnico e universal, é mobilizada de modo a silenciar experiências e conhecimentos oriundos das trajetórias de vida dos sujeitos da EJA Assim, busca-se compreender como a EJA é vivenciada por educadores e educandos, considerando as influências regionais e documentais. Trata-se de ir além das competências e habilidades prescritas, colocando o sujeito como protagonista de sua própria existência. METODOLOGIA Esta pesquisa, de abordagem qualitativa e orientada por pressupostos pós-críticos, encontra-se em andamento e propõe uma análise discursiva de documentos com base no referencial teórico-metodológico de Michel Foucault. A investigação compreende o currículo como uma prática social atravessada por relações de poder e regimes de verdade, e considera os discursos como práticas que produzem sentidos, sujeitos e saberes. O estudo contempla as seguintes etapas: a) Obtenção de aprovação em Comitê de Ética e garantia do anonimato dos participantes; b) Seleção do corpus documental e definição dos educadores participantes, com foco nos nove estados da região Nordeste; c) Levantamento e leitura de artigos, dissertações e teses que comporão a fundamentação teórica e o estado da arte; d) Coleta de dados por meio de levantamento e análise de documentos curriculares e materiais orientadores, complementada por entrevistas (via Google Forms) com educadores que atuam na EJA; e) Análise dos dados inspirada na arqueogenealogia foucaultiana, com atenção às regularidades, descontinuidades, exclusões e oposições que atravessam os discursos sobre o ensino de matemática na EJA. Ao adotar uma perspectiva pós-crítica, a pesquisa não busca verdades universais, mas interpretações situadas que permitam compreender os modos como o currículo de matemática na EJA é produzido, regulado e tensionado nos diferentes contextos nordestinos. RESULTADOS PARCIAIS E DISCUSSÃO Apesar de a pesquisa estar em fase inicial, realizamos um levantamento bibliográfico com os descritores “EJA”, “Matemática” e “Currículo”, nas bases de dados Periódicos CAPES, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações e Cantagalo de Teses e Dissertações (CAPES). Esse levantamento permitiu uma visão preliminar das produções realizadas entre os anos de 2011 e 2023. Observou-se, nas leituras dos resumos, uma recorrente valorização do sujeito da EJA como educando que carrega histórias de vida frequentemente silenciadas, evidenciando o risco de um currículo técnico que desconsidera os contextos socioculturais dos estudantes. As pesquisas analisadas enfatizam temas como interdisciplinaridade, formação docente, livros didáticos, tendências e conteúdos matemáticos. Contudo, notou-se uma lacuna na problematização do sujeito envolvido nas discussões curriculares. Conforme argumentam Lopes e Macedo (2011), o currículo é uma prática social atravessada pelo poder e pela produção de discursos — os quais refletem e constituem os sujeitos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao concluir esta síntese parcial, destacamos que as etapas já realizadas e as futuras ações pretendem contribuir para a concretização do objetivo de compreender os discursos produzidos por educadores matemáticos a partir dos documentos curriculares e/ou materiais orientadores da EJA no Nordeste brasileiro. Embora em fase inicial, o estudo já aponta caminhos teórico-metodológicos para problematizar as relações entre cultura, poder, saber e currículo na EJA. Apoiamo-nos especialmente em autores como Freitas (2013), Lopes e Macedo (2011), Campesato (2021), e, principalmente, nos pressupostos de Michel Foucault, para aprofundar a análise dos discursos que produzem verdades no ensino de matemática, bem como as influências governamentais e os desafios decorrentes da ausência de propostas curriculares estruturadas. Nos próximos passos, serão realizadas as aprovações éticas necessárias, a coleta de dados de campo e a continuação das análises. Esta pesquisa busca responder a inquietações já existentes — e que se reformulam a cada leitura e escrita — a partir de uma pergunta fundamental: se, como afirma Foucault, todo discurso é uma violência imposta sobre outras possibilidades de dizer, que alternativas para o ensino de matemática estão sendo silenciadas na EJA nordestina? Estaríamos diante de uma colonização curricular, na qual os educadores não podem produzir seus próprios discursos? Por isso, faz-se necessário escutar aqueles que vivenciam cotidianamente as alegrias e angústias dessa modalidade de ensino. REFERÊNCIAS CAMPESATO, Maria Alice Gouvêa. Experiências curriculares na educação de jovens e adultos: inéditos viáveis encontros. Curitiba: CRV, 2021. FREITAS, Adriano. Vargas. Educação matemática e Educação de Jovens e Adultos: estado da arte de publicações em periódicos (2000 a 2010). 2013. 360 f. Tese (Doutorado em Educação) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2013. MACEDO, Elizabeth; LOPES, Alice Casimiro. Teorias de currículo. São Paulo: Cortez, 2011.