Currículo-corpo, formação inicial, Pedagogia(s)

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Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
CURRÍCULO-CORPO, FORMAÇÃO INICIAL, PEDAGOGIA(S) Introdução Na atualidade percebemos uma educação habitada entre violências sociopolítico-ambientais, na qual o corpo segue moldado em padronizações e subordinado a seu aspecto cognitivo. Essa produção toma a escola, a Universidade e o currículo, cujos resultados indicam a fabricação de uma quantidade expressiva de corpos docilizados, disciplinados, violentados, tristes. Na posição de professores/as-pesquisadores/as em Educação na espreita com o Pensamento da Diferença, nos indagamos: A quem interessa um corpo docilizado? A quem interessa um currículo que gera corpos tristes, despotencializados? O que pode essa Pedagogia? A discussão temática de um currículo-corpo, nesse viés, na formação de professores desalinha a fábrica, o plano, o método, a disciplina para o ensino e abre brecha a um lugar curricular outro na Pedagogia. Assim, a pesquisa transita no pensar-sentir-viver o currículo nessa formação e parte do objetivo de narrar acontecimentos de um currículo-corpo que permitem a produção de modos de transmutação de práticas formativas institucionalizadas, na Pedagogia da Escola Normal Superior/ENS da Universidade do Estado do Amazonas/UEA. Em fundamentos teórico-epistêmicos, o conceito de corpo com a Filosofia da Diferença, assume em outras posições, uma delas, é a percepção em suas conexões, singularidades, multiplicidades e o corpo sem órgãos (Deleuze; Guattari, 2011). Noutra, corpo em equidade com o espírito (ideia) espinosista e corpo afirmado por afecção e o poder de ser afetado (Deleuze, 2002). Emerge um corpo em potências alegres, portanto, alinhados a Epicuro, Nietzsche e Espinosa, servimos à denúncia de paixões tristes (Deleuze, 2002). E sob impactos desse corpo também repensamos o currículo, o assumimos como um movimento dinâmico e uma trajetória de vida, um currículo menor (Corazza, 2012), um currículo vivo, pulsante, como invenção de nós mesmos (Lopes, 2013), em produção. Nesse fluxo com o currículo-corpo, as narrativas dos sentires na pesquisa registram efeitos na relação dos corpos quando vivemos um professorar inventado. Invenção invadida pela alegria (Deleuze, 2002). Desse modo, o caminho metodológico margeou-se pela Filosofia de Diferença, em sua instabilidade, quebra de concretude, completude e prescrições do que se entende como professor. A Diferença considera a individuação, singularidades e provisoriedade do professorar, em devir (Corazza, 2012), mobilizando o pesquisar em experimentações ficcionais com os personagens conceituais (Deleuze; Guattari, 1992) que se produziram narrativas dos encontros com currículo, borboleta, aceroleira e rio. Fluindo em autobiografias em invenção de si com palavras não aceitáveis, em deslocamentos, desvios (------------, 2023), frente a experimentações na formação inicial desse curso de Pedagogia na Universidade do Estado do Amazonas. Composições inventadas de um currículo-corpo na Pedagogia Desviando-nos de pretensões mais pedagógicas de intencionalidades, ensinos, métodos, talvez nos aproximemos de realidades, cotidianos com as incertezas, com o não saber o que podemos. Partimos de uma (des)ideia sobre o professorar, na qual o/a docente “carrega sempre, em si, alguma forma de indeterminação originária e possui uma pura potencialidade de atualização” (Corazza, 2012, p. 98). Dessas indeterminações e incertezas professorais, uma borboleta, um pé-de-acerola e um rio narram seus encontros com professores-pesquisadores em formação (ou em invenções) na Pedagogia. Corpo borboleta Numa tarde nublada, pousei no quintal de uma escola básica, esse clima preenche-me de calmaria e porto-me ao galho de uma árvore. Por aqui escuto que sou símbolo de transformação, liberdade e sinto que quando me veem, isso emerge entre riso e animação das crianças, principalmente. Em meus voos e instantes de arte-vida nesse quintal, singularizo-me em afetos, afectos e me encontro com a trajetória de uma professora em formação inicial no Estágio Supervisionado na Pedagogia, em seus envolvimentos com as crianças tal como um voo de fuga do cotidiano, encantamentos e descobertas. Ao nos cruzarmos, vejo-me nela e sinto que ela de alguma forma, se vê em mim, nossos modos de ver encontram-se. Em sobrevoos, escuto uma poesia: “Borboletas me convidaram a elas. O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu. Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas. Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza, um mundo livre aos poemas. (Barros, 2010, p. 393). Um convite a ser como eu? A ver como vejo? A viver a poética borboletal? Sinto-me importante, ao mesmo tempo, imagino como “ser livre aos poemas” ... Volto olhos e antenas ao quintal: crianças ouvindo poema, sentadas na grama, próximas às plantas; depois as vejo modelando argila, palavras e sensibilidades com o ambiente e, ainda, uma professora-estagiária colorida como eu. Experimentações com a natureza, arte e vidas são sentidas com a produção de esculturas, poemas, linguagem literária, tendo a arte como operadora de potência do ser e fomentando a criação de espaços-tempos para a arte-vida ali naquele cotidiano escolar. Crianças brincando, outras borboletas voando, professoras interagindo, quintal vivendo-se como “sala de aula”, aprender habitando-se de natureza... Sinto-me nesses encontros, em criações de territórios sensíveis com meus olhos insetais de borboletas... Sinto o espaço, o ar, o calor do sol amazônico, as cores, os sons, os cheiros, folhas de árvores, invenções e emoções. Voando embaixo da árvore dessa escola, envolvo-me com linguagens artísticas e as existências materializadas em poemas, modelagens em argila e um Guia Infame de Rimas – escrito produzido com formas de palavras, metamorfoses, encantamentos e voos imaginários de corpos infantes-insetais e professora-estagiária. Afectos e afecções, movimentos e pausas, afetados e afetantes: “Afecção remete a um estado do corpo afetado e implica a presença de um corpo afetante, ao passo que o afeto remete à transição de um estado ao outro, tendo em conta a variação correlativa de corpos afetantes” (Deleuze, 2002, p. 56). Produz-se um currículo-corpo borboleta! Corpo aceroleiro Dias ensolarados de verão de Manaus me florescem e geram frutos mais doces, vermelhos e suculentos emaranhados a galhos folhosos que oferecem frondosa sombra. Assim vivo em um jardim de escola repleto de plantas, pessoas, brinquedos onde exalo meu cheiro alegre e refrescante. Em certas manhãs, sinto olhos brilhantes e narizes desejando minhas acerolas, de mesmo modo, sinto agitação, pressa, atarefamento que não permite sentir sabor, cheiro e textura de meus frutos. Vontades, intensidades dão lugar a um corpo disciplinado, com desejos refreados, abstenções de vida, em função de uma exterioridade. Corpo dominado, pensamento colonizado, sabor repelido, natureza contida. Até que vejo crianças correndo, subindo em meus galhos, esticando-se na ponta dos pés para pegar acerolas, saboreando-as, movendo-se pelo desejo de coexistência com este pé-de-acerola: “A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som. Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira” (Barros, 2010, p. 301). Em seus delírios infantes, crianças não sabem que são proibidas de subir em galhos para não se machucar ou comer frutas para não se sujar e deleitam-se em experimentações comigo, aceroleiam-se e crianceio-me. E os/as adultos/as? Seguem espantados/as, em busca de conter a correria, quedas, sujeira dados que seus corpos estavam tomados por contenção, impedidos de ver a potência do encontro, de afetos, da ética de ser afetado para a alegria, visto que aprenderam que o verbo “estudar” não funciona para acerolar, nem criançar, nem sentir. Entreteci-me por esses humanos e alegrei-me com afetos e afecções dessa aceroleira com as infâncias em um contexto amazônida, cada um de nós em suas diferentes formas de (re)existir. Até que os/as adultos/as, chamados de professores/as, aceitaram o convite e se mobilizaram. Dei-me conta, que meus poucos metros de altura se constituíram em um dos maiores pés-de-acerola, pois meus galhos e frutos se florestearam com infâncias e docências! Uma conexão infância e pé-de-acerola se fez, fluiu-se uma vida em contorno humano-biovegetal, capturas de cores, sabores afetaram a escola e constituíram-se em outramentos: nem docências são as mesmas, nem crianças, nem acerolas, nem a árvore. Renderam-se aos desejos, mobilizaram outros olhares em práticas educativas sensíveis ao ser, sentir e viver. Linhas outras se compuseram, afectos e afetos instituíram o pensar de um corpo singular, revelaram-se em intensidades, singularidades nômades, loucas (Deleuze; Guattari, 2011), deu-se um encontro biovegetal de um pé-de-acerola, infâncias e docências. Fabricou-se um currículo-corpo aceroleiro! Corpo rio Certo dia pós chuva, esse rio que fala, se amansava em banzeiros quando um professor-pesquisador se encosta e começa a contar de sua pesquisa, que protocolarmente se começa dizendo de um projeto. Sentia-se preocupado se daria conta disso durante seu curso de licenciatura em Pedagogia. Não entendia bem pois conheço mais os balanços e alternâncias com a lua e os ventos, segui em escuta. Falou que provas, leituras, trabalhos, portfólios, materiais didáticos faziam parte dessa Pedagogia, precisava aprender a ministrar aulas e entender a dinâmica da escola. Contou que sentia as mãos parafusadas, cérebro congelado, olhos estacionados, corpo enrijecido com modelos, métodos, avaliações e foi submerso por um Projeto de Iniciação Científica. Nele afogou-se no viés da autobiografia em invenção de si (------------, 2023), cuidado de si (Foucault, 2010) e na Filosofia da Diferença. Sua entrada na Pedagogia vinha enlutada pela perda de sua mãe na pandemia de 2020, seu rosto ainda expressava dor, mas tentava se manter atarefado com emprego pela manhã, pesquisa à tarde e aulas à noite. Levou a graduação na correria, sem sentir o fluxo, quando foi atravessado pelo luto por seu pai. Desamparo, desmotivação tomaram conta. E gotas de pesquisa na iniciação científica abriam uma fresta nessa deriva do si em tristezas. Sorrisos curtos, estudos superficiais, colegas de sala passageiros, convivia com a correria do ônibus, aperto dos horários de aula-trabalho-casa, despotencializava-se. E ao voltar o olhar para si, sentiu que a vida não se habitou apenas de tristezas, havia acolhimento, amizades, amorosidades, poesias no seu professorar na pesquisa. Julgou até engraçado que uma pesquisa em educação produzisse efeitos diferentes do seu objetivo geral de busca de informações de contexto escolar e escrita de relatórios. .. já que o aguilhão foucaultiano (2010) também lhe mobilizou ao cuidado de si numa pesquisa que criava outras perguntas, dialogava com desconhecidos, investigava e escrevia o si (------------, 2023). Emocionado e como um rio amigo, juntei-me ao poeta: “Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras: - liberdade caça jeito” (Barros, 2010, p. 156). Uma fuga de trilho, corrida em ribanceiras, choque em pedras, terras, filósofos em livros e pessoas que vivificam nossa existência. Ao atentar-se a si, sentiu-os nesse ato caça jeito, entendeu-se mais enquanto professor, pesquisador, gente ou como água de um rio a correr, sempre em fluidez. Como um devir rio, esse professor percebeu que o aumento da capacidade de afecção produziu seu aumento de potência (Deleuze, 2002). O rio encontrou-se com o professor e este com o rio. Uma arte do sensível habitou a Pedagogia que pesquisa, estuda, escreve, luta e enluta. Um “riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio” (Deleuze; Guattari, 2011, p. 49): Constitui-se um currículo-corpo rio! Um corpo professora-estagiária se encontra com a borboleta, um corpo professora em formação se encontra com um pé-de-acerola, um corpo pesquisador se encontra com o rio, afetam e são afetados, compõem relações de si e entre si, criam um currículo-corpo desviante, que aumenta o grau de suas potências de agir e recriam-se a si em alegrias: “quando encontramos um corpo que convém com o nosso, e tem por efeito nos afetar de alegria, essa alegria (aumento de nossa potência de agir) nos inclina a formar a noção comum dos dois corpos, isto é, a compor suas relações e a conceber sua unidade de composição” (Deleuze, 2002, p. 123). Versaram-se em cores, texturas, frutos, desejos, alegrias e encantamentos. Nesses movimentos sentidos na formação inicial de professores/as na Pedagogia na ENS/UEA compõem-se de velocidades e lentidões, poderes de afetos e capacidades de ser afetado, há fuga dos direcionamentos e ordenamentos, há fluxos. Há uma espécie de “sinfonia da Natureza, da constituição de um mundo cada vez mais amplo e intenso” (Deleuze, 2002, p. 131), onde o currículo-corpo dessa formação inicial varia em intensidades, em Pedagogias alegres que potencializam o professorar e o pesquisar. Com tal outro currículo-corpo? Os intercâmbios viventes no entre dos acontecimentos desse currículo-corpo na Pedagogia produziram narrativas que não possuem uma forma correta ou uma função determinada. Por ora, apresentaram-se cambiantemente, em modos de transmutação das institucionalizações, vazam as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica – BNC-Formação, fluem em mobilidades do Projeto Pedagógico do Curso, Planos de Ensino e se compuseram em uma narrativa inventiva de si com professores pesquisadores, com a formação inicial docente, com uma borboleta, um pé-de-acerola e um rio. Sensibilidades antiviolências em educações... Quem sabe, o currículo-corpo nessa Pedagogia queira fazer de si mesmo um currículo livre, aos modos espinosistas? Um currículo cuja principal finalidade consista em inventar uma vida em estado de afirmação, vista que afirmá-la é necessário. Agradecimentos Ao Programa de Pós-Graduação em Educação na Amazônia – PGEDA, Associação Plena em Rede – EDUCANORTE e à Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Amazonas – FAPEAM. REFERÊNCIAS BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. CORAZZA, Sandra Mara. O docente da diferença. Periferia, [S. l.], v. 1, n. 1, 2012. DELEUZE, Gilles. Espinosa: Filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 2011. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010. LOPES, Alice Casimiro. Teorias pós-críticas, política e currículo. Educação, Sociedade & Culturas, Dossier temático “Configurações da investigação educacional no brasil”, n. 39, p. 7-23. 2013. ------------. Título do artigo em que autores do texto estão presentes. Revista ClimaCom. Ano 10, n. 24, 2023.

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