CUIDAR-EDUCAR DE BEBÊS COMO GESTO DE COMPARTILHAR: VIDA E CONHECIMENTO NA PESQUISA COM FAMÍLIAS E EDUCAÇÃO INFANTIL Introdução Para restaurar o mundo à presença e permitir que a vida continue, nós devemos descer do nosso ponto de vista defensivo, deixar de lado as armas de combate e responder um ao outro com espírito de responsabilidade e cuidado. Tim Ingold (2020, p. 115). O presente trabalho apresenta reflexões em torno de uma pesquisa desenvolvida entre os anos de 2020 e 2024, que teve como um de seus objetivos investigar implicações, limitações e possibilidades acerca da educação compartilhada de bebês até os três anos a partir da perspectiva de famílias e de profissionais da Educação Infantil no contexto contemporâneo. Os dados da pesquisa foram construídos por meio estratégias metodológicas que envolveram: entrevistas individuais e coletivas, questionário semiestruturado com responsáveis de bebês de duas instituições públicas de educação infantil de uma rede educacional situada em um grande centro urbano, formulário e realização de grupo focal com professoras e gestoras de instituições de educação infantil de diferentes redes de ensino. A amplitude do material empírico mobilizou o mergulho em um referencial teórico que subsidiasse sua leitura crítica: compreender o processo histórico de constituição, disputas e apostas do conceito de famílias; os desafios colocados à formação da docência com bebês no campo da educação infantil; a complexidade que atravessa as relações quando se trata de educar-cuidar de modo conjunto, ou seja, compartilhando concepções, apostas, tensões no trânsito entre famílias e instituições de educação infantil. O recorte aqui proposto apresenta reflexões sobre o olhar das famílias participantes sobre o que compreendem sobre o papel da escola ao compartilharem a educação-cuidado das crianças com a educação infantil. O referencial teórico metodológico entretece os campos da Pedagogia da Infância, da Psicanálise e da Antropologia, apostando na diversidade teórica como estratégica ética de costurar vida, pesquisa e conhecimento. O texto foi organizado em três seções. A primeira apresenta reflexões sobre o entrelace político entre famílias e educação infantil. Na segunda discutimos a tarefa de compartilhar a educação como gesto de pequenas grandezas. Conclui com reflexões sobre a força política da educação infantil como formadora de comunidade em conjunto com as famílias. Famílias e educação infantil: entre política, luta e vida O cuidado não implica apenas ouvir o que os outros têm a nos dizer, mas também responder apropriadamente. Tim Ingold (2020, p. 49). Cuidar-educar[1] das crianças, desde bebês, constitui uma tarefa intergeracional marcada por condições de classe, raça, gênero, renda. No plano político-legal brasileiro o processo histórico de lutas, sobretudo das mulheres, instituiu como política pública o cuidar-educar das crianças, desde bebês[2], como dever da família e do Estado: Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (Brasil, 2024, p. 200. Grifos próprios). O Estatuto da Criança e do Adolescente (Brasil, 2017), define, dentre outros destaques que: “É direito dos pais[3] ou responsáveis ter ciência do processo pedagógico, bem como participar da definição das propostas educacionais (p. 34-35. Grifos próprios). As conquistas decorrentes das lutas de diferentes setores confirmaram as crianças nessa posição política, histórica e cultural no Brasil. Contudo, ter conquistado direito social e político, bem como a condição de cidadã perante a lei, não significa o seu usufruto, tampouco o reconhecimento legítimo dessa conquista para a vida das crianças, desde bebês, destes últimos, especialmente (Rosemberg, 1994, 2006). Para as crianças, desde bebês, ter seus direitos assegurados passa pela conscientização dos adultos e da sociedade como promotores e mantenedores dessa dimensão política da vida, tendo em vista que não cabe às crianças assumirem essa luta, mas dela participar a partir de sua situação, condição e lugar. O que nos leva ao tema do compartilhamento do cuidar-educar com e entre instituições responsáveis por esse gesto. No recorte famílias e educação infantil, o gesto de cuidar-educar é atravessado por tensões que envolvem expectativas, demandas e delineamento ético e objetivo do que significa compartilhar, que no centro de sua ação envolve diálogo e presença. Concordamos com Monção (2013) que o sucesso desse gesto consiste em reconhecer as crianças, desde bebês, como pessoas capazes, dignas de direito, de reconhecimento, que necessitam da cumplicidade dos adultos para o pleno exercício do seu processo de desenvolvimento e formação humana. Tarefa complexa para uma sociedade adultocentrada. Considerando essas questões, indagamos: como tem se dado o diálogo entre as famílias e as instituições de educação infantil sobre o compartilhamento do cuidar-educar das crianças, desde bebês? Que perguntas orientam essa tarefa? De que modo são explicitadas as expectativas, as tensões, as apostas, os medos implicados nesse gesto? O que os adultos conhecem em têm a dizer sobre as crianças, desde bebês? Como as envolve no processo de compartilhar seu cuidar-educar? Compartilhar: gesto de pequenas grandezas [...] devemos observar, ouvir e responder. Isto é o que significa cuidar. Tim Ingold (2020, p. 48). Somos inscritos e nos inscrevemos no mundo pelo gesto do compartilhamento: os manejos[4] dos inícios oportunizam a sobrevivência material do corpo, mas também subsidiam os processos de constituição da subjetividade. No cuidado com bebês compartilham-se experiências, tradição, escuta, silêncio, escolhas. E nesse tecido o mundo se torna real para o bebê, porque, os gestos do manejo, “ao longo de muitas repetições, ajudam a assentar os fundamentos da capacidade que o bebê tem de sentir-se real. Com essa capacidade, o bebê é capaz de enfrentar o mundo [...]” (Winnicott, 2012, p. 5). Compreendemos o gesto de compartilhar a partir de três princípios: intenção (de ir ao encontro), atencionalidade (atender ao outro) e ação (manejo, desempenhar ações em prol de). Compartilhar entretece tanto tarefas minúsculas, como a dimensão macro da política, seus reflexos e refrações. Quem não pode compartilhar tem a vida ordinária afetada pela ausência dessa prática humana e social. E, assim sendo, tem afetados, e/ou impedidos, o usufruto do seu direito social, político e de cidadania. Compartilhar, portanto, envolve reconhecer o sujeito da ação e a construção de estratégias que efetivem o gesto. Quando perguntadas sobre como percebem, ou, o que esperam da troca com as instituições de educação infantil, as mulheres-mães participantes da pesquisa destacam: Ela [a criança]se depara com coisas diferentes na vida. Quando ela está só dentro de casa, acaba que todo mundo pensa igual. [...]. Mas quando vai para o mundo, ela vê que existem outras pessoas e ninguém pensa igual [...]. É uma troca. Eles trocam com a gente, a gente troca com eles. Eles trazem da escola projetos que eles estão fazendo na escola e isso muda os hábitos também dentro de casa. (C[5]. Mulher-mãe participante da pesquisa. Entrevista coletiva. 02.06.2023). A criança desenvolve a individualidade quando ela vai para a escola. Ela entende que ela é ela, e que as outras pessoas são as outras pessoas. Quando ela está dentro de casa todo mundo é uma unidade, porque está todo mundo ali junto. (C. Mulher-mãe participante da pesquisa. Entrevista coletiva. 02.06.2023). Colocar na escola, nesse contexto de falta de rede, é colocar o outro. "Ah, minha mãe pensa assim, mas a professora não". (D. Mulher-mãe participante da pesquisa. Entrevista coletiva. 02.06.2023). O papel do outro relaciona-se à ausência de rede de apoio: não fosse essa assim, seria uma opção das famílias compartilhar o cuidar-educar das/os suas/seus filhas/os com a escola? Historicamente, essas duas instituições emergem como pilares principais do cuidar-educar das crianças, desde bebês (Rosemberg, 1994). D. tem razão ao denunciar a falta de rede de apoio e a escola como uma solução para o encontro com o outro, fazendo da educação infantil direito – conquistada pelas crianças, desde bebês – mas, também, necessidade, humanidade, possibilidade de relações que ampliem o olhar para o mundo, para as interações, da construção da subjetividade das crianças. Compartilhar, portanto, entretece necessidade, demanda, mas também o direito humano à alteridade, porque se trata de se relacionar, viver com e junto, construir a vida, porque “a continuidade do processo da vida, portanto, não é individual, mas social” (Ingold, 2020, p. 17). Eu acho que não existe coisa que é coisa da escola, e coisa que é coisa da mãe, ou da casa. Eu acho que é a coisa da criança, e que os dois tem que pensar juntos, e a gente tem que trabalhar juntos pensando na construção de ser humano, de cidadão (M. Mulher-mãe participante da pesquisa. Entrevista coletiva. 02.06.2023). M. reforça a perspectiva de que compartilhar a educação é tarefa conjunta, apontando para a indissociabilidade entre famílias, escola, sociedade e vida. Tal perspectiva reafirma o ato de educar como gesto humano, responsável e comprometido, entretecido com e entre gerações. [...] a gente [famílias] cria vidros em cima dessa criança. E eu quero que a escola vá quebrando devagarzinho esse vidro, porque a vida é um grande mar. Tem que aprender a nadar. Só que a gente não vai jogar a criança no mar. Então eu não quero que a escola pegue e traga essa água da vida de uma maneira brusca. [...]o que eu espero da escola é esse acolhimento, uma diferença, mas que essa diferença vá quebrando o vidro, então vai entrando um pouquinho de água, vai entrando mais um pouquinho... (D. Mulher-mãe participante da pesquisa. Entrevista coletiva. 02.06.2023). Para Ingold (2020) educação trata do prolongamento e continuidade da vida. Ao compartilharem a vida e a formação humana das crianças, desde bebês, famílias e escolas se alternam e se somam nas decisões, orientações, escolhas, diálogos em torno dessa tarefa: “para que compartilhar seja educativo, eu tenho que fazer um esforço imaginativo para lançar minha experiência de maneiras que ela possa se juntar à sua, para que possamos – em certo sentido – percorrer os mesmos caminhos e, ao fazê-lo, criar sentido juntos” (idem, p. 19). Considerações finais Neste trabalho tivemos por objetivo discutir o gesto de compartilhar a educação das crianças, desde bebês, entre famílias e educação infantil, por meio da participação de mulheres-mães numa pesquisa institucional. Com base nessas reflexões, compreendemos que delinear, compreender e apostar que cuidar-educar das crianças, desde bebês, diz respeito a um gesto de compartilhamento e não de complementação. De um lado, as análises apontam que o fenômeno atual da educação compartilhada reflete antigos e persistentes desafios históricos em torno de questões como classe, raça e gênero. São as mulheres, ainda, as principais responsáveis pela educação-cuidado e, em muitos casos, provisão material dos bebês. Soma-se a essas condições, a ausência de redes de apoio, espaços de encontros, partilha e escuta sobre as exigências do cuidar-educar. No caso da referida pesquisa, um dos modos de enfrentar tais desafios revelou-se ser o acesso à educação infantil. Tarefa de pequenas grandezas, compartilhar a educação implica escuta e diálogo de qualidade entre ambas as instituições. Diz respeito aos aspectos intergeracionais do processo de conduzir e continuar a vida, envolvendo confiança e responsabilidade das funções e papéis das instituições família e educação infantil REFERÊNCIAS ABRAM, Jan. A linguagem de Winnicott. Dicionário das Palavras e Expressões utilizadas por Donald W. Winnicott. Rio de Janeiro: Revinter, 2000. Brasil. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. [recurso eletrônico] —Brasília: Supremo Tribunal Federal, Secretaria de Altos Estudos, Pesquisas e Gestão da Informação, 2024. eBook (284 p.) BRASIL. Estatuto da criança e do adolescente. – Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2017. INGOLD, Tim. Antropologia: para que serve? Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. INGOLD, Tim. Antropologia/como Educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2020. MONÇÃO, Maria A. Guedes. Gestão democrática na educação infantil: o compartilhamento da educação da criança pequena. 2013. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. ROSEMBERG, Fúlvia. Crianças pobres e famílias em risco: as armadilhas de um discurso. Rev. Bras. Cresc. Des. Hum. S. Paulo, IV (1), 1994. ROSEMBERG, Fúlvia. Criança pequena e desigualdade social no Brasil. In: FREITAS, Marcos Cezar de (org.). Desigualdade social e diversidade cultural na infância e na juventude. São Paulo: Cortez, 2006. WINNICOTT, Donald. Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes, 2012. [1] Na pesquisa em questão, assumimos o uso da expressão cuidar-educar para nos referir ao gesto de compartilhamento dessa tarefa entre as instituições famílias e educação infantil. [2] O termo bebê não consta nos documentos citados. A sua inclusão no contexto deste artigo, por meio da expressão crianças, desde bebês, configura-se como resposta ética, que coaduna com os estudos e pesquisas da área da educação infantil que têm incluído os bebês como categoria epistemológica de investigação. [3] No texto assumimos o termo famílias para nos referirmos ao grupo de primeiras/os responsáveis pelo acolhimento dos bebês desde que nascem, assumindo o plural para contemplar a diversidade dessa instituição, bem como tensionar as questões de gênero, tendo em vista que, no Brasil, 49,1% dos lares são chefiados por mulheres. Fonte:
https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202410/censo-2022-em-12-anos-pro… Acesso: abril de 2025. [4] O manejo, segundo explica Abram (2000) é compreendido com um ambiente de holding: com bastante frequência, Winnicott faz referência ao holding como uma espécie de manejo – em especial ao dirigir-se aos profissionais que no cotidiano lidam com pessoas que não podem tomar conta de si mesmas. Manejo foi também o termo utilizado em relação ao cuidado dispensado a determinados pacientes no setting psiquiátrico (Abram, 2000, p. 139. Destaques da autora). [5] A escolha sobre o processo de identificação das participantes da pesquisa foi negociada em conjunto. Embora a inicial dos nomes não seja a melhor opção ética para nomear as pessoas, foi o modo consensual entre não escrever o nome completo das participantes, mas também não lhes atribuir nomes fictícios.