CORPORALIDADE, UNIVERSIDADE, LEITURA INTRODUÇÃO No contexto da universidade, marcada por disputas simbólicas, políticas e ideológicas, o estudante emerge como sujeito de direito com inscrição de discursos e como suporte de gestos de resistência. Anunciado como corpo, corporeidade, corporalidade, dentre outros tal sujeito, participa jogo universitário em um movimento dialógico implicado em rotas rotinas e rupturas. Neste estudo, o ponto de partida é a escuta dos movimentos de sentidos que se produzem na articulação entre leitura, corporalidade e discurso na vida cotidiana universitária. Esses movimentos, inscritos nas palavras, silêncios, gestos e presenças que se reiteram nas salas de aula, corredores e demais espaços de convivência, atravessam a historicidade do sujeito. Seguindo a proposição de Pais (2002, p. 33), apreendemos a vida cotidiana como “uma rota de conhecimento”. Nesse sentido, “o quotidiano é o laço que nos permite levantar caça no real social”, em que o sujeito é afetado por discursos e por processos de significação. É nesse terreno do vivido, marcado por regularidades e rupturas, que os gestos de leitura se constituem, e o corpo do estudante se apresenta como lugar de inscrição de resistências e disputas simbólicas no espaço universitário. O sujeito universitário se constitui por processos de subjetivação nos quais as instituições e suas práticas são fundamentais, assim como o modo pelo qual, ideologicamente, somos interpelados em sujeitos (Orlandi, 2012). Nessa direção, compreendemos o corpo do estudante como um corpo-social, não transparente a si mesmo, investido de sentidos que ultrapassam o biológico e o individual: “não há corpo que não esteja investido de sentidos e que não seja o corpo de um sujeito que se constitui por processos de subjetivação nos quais as instituições e suas práticas são fundamentais” (Orlandi, 2012, p. 10). A partir da formulação de Pais (2010, p. 134), de que “a sociedade mostra-se como é através das atitudes corporais”, podemos apreender a corporalidade do sujeito-leitor universitário como espaço em que se inscrevem e se materializam os sentidos do social. Nessa perspectiva, o gesto de leitura não se dá fora da história nem das relações de poder, mas se constitui no entrecruzamento de discursos que atravessam o corpo, marcando modos de estar, de ler e de resistir no espaço universitário. O corpo, assim, torna-se lugar privilegiado de visibilidade dos conflitos simbólicos que estruturam o sujeito em sua relação com o saber e com o mundo. Assim, ao nos voltarmos para a leitura como prática simbólica e política, podemos vislumbrar como a corporalidade, atravessado por discursos e marcado por gestos da vida cotidiana, torna-se campo de disputas e invenções, revelando modos singulares de subjetivação no espaço universitário. METODOLOGIA Este estudo, ainda em andamento, ancorando-se na Análise do Discurso de orientação materialista, conforme formulada por Pêcheux. O percurso metodológico parte da escuta-leitura dos gestos discursivos que atravessam corporalidade do estudante na universidade. Tais gestos, expressos em palavras, silêncios, presenças, deslocamentos e práticas cotidianas, são compreendidos como materialidades significantes que condensam sentidos produzidos sob determinadas condições de produção. Assim, o corpo é tomado como espaço de inscrição discursiva e lugar de interpelação ideológica, conforme a perspectiva de Orlandi (2004), um corpo constituído na tensão entre sujeito e ideologia. Para dar conta dessas relações, o estudo articula três eixos fundamentais: discurso, leitura e corporalidade. A análise é realizada por meio da mobilização de textos teóricos e de experiências vividas no cotidiano institucional. A investigação dialoga, ainda, com a proposta de Leandro-Ferreira (2011, p. 98), que distingue três dimensões do corpo: “o imaginário”, vinculado à imagem e à identificação; “o simbólico”, relacionado à marca do significante; e “o real”, entendido como o que escapa à simbolização e introduz a falha, o não-sabido. Essa concepção amplia a leitura do corpo para além da representação, evidenciando-o como matéria atravessada por sentidos e exigente de interpretação. Nessa direção, a materialidade discursiva é compreendida como o modo concreto pelo qual os discursos se manifestam em práticas, enunciados, gestos e silêncios. Os sentidos, portanto, são produzidos, reiterados ou tensionados sob o efeito das formações discursivas, entendidas como redes de enunciados organizadas por posições ideológicas específicas. Ao reconhecer a corporalidade como efeito da linguagem, compreende-se sua inscrição na rede discursiva e sua centralidade na constituição do sujeito e na produção de resistências simbólicas às normatividades institucionais (Vinhas, 2021). ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS PARCIAIS Observamos que a corporalidade do estudante é atravessado por interdições, silenciamentos e normatizações. O mal-estar aparece como sintoma da inadequação a uma forma escolar rigidamente padronizada, que não reconhece a singularidade do estudante nem sua historicidade. A leitura, nesse cenário, opera como atravessamento simbólico do corpo, convocando-o a uma presença sensível e significante. “O corpo significa; não se pode falar do corpo senão como uma forma de significação” (Orlandi, 2012, p. 97). Essa significação se dá na relação com o outro e com o texto, numa tessitura em que o sujeito é afetado, deslocado, reinventado. Vinhas (2021) traz que o primeiro estudo referente à questão do corpo na Análise do Discurso a que se pode recorrer é o de Orlandi (2004), no qual a autora apresenta o corpo como texto. Para ela, “o corpo é o lugar material em que acontece a significação, lugar de inscrição, manifestação do grafismo. Pintura. Texto” (Orlandi, 2004, p. 121). Essa perspectiva possibilita pensar o sujeito-leitor universitário como alguém que também se constitui por inscrições, marcas simbólicas que atravessam sua formação e se presentificam tanto em seus modos de leitura quanto na forma como habita o saber. Assim como tatuagens e piercings funcionam como gestos de interpretação inscritos no corpo, a leitura universitária pode ser compreendida como um gesto de escrita simbólica no sujeito, que busca, ainda que de forma inconsciente, produzir sentidos e certa unidade diante do excesso de informações e das demandas institucionais. O corpo, nesse cenário, não está fora da cena da leitura: ele participa como superfície de inscrição do discurso, tensionado entre o desejo de compreender e a impossibilidade de totalizar o sentido, marcando a experiência de leitura como atravessada pelo inacabamento e pela incompletude que caracterizam tanto o texto quanto o sujeito que lê. Orlandi (2004, p. 124) observa que há, por um lado, “a tentativa (vã) de enquadrar o corpo e seus limites”, o que pode ser lido como o esforço de normatizar e fixar o sujeito em determinados lugares simbólicos, sociais e institucionais. No contexto da universidade, isso se manifesta, por exemplo, nas exigências de performance acadêmica e nos padrões discursivos esperados do aluno, que muitas vezes busca se adaptar a um modelo já pré-estabelecido. Por outro lado, diz a autora, há também “o da denúncia de um mal-estar simbólico em seu confronto com o político, uma forma de reivindicação”, isto é, um movimento de resistência que se dá no embate com essas mesmas estruturas. A leitura, nesse cenário, pode funcionar como esse gesto de deslocamento, o sujeito-leitor inscreve, em sua forma de ler e interpretar, marcas do mal-estar que o atravessa, contestando o já dito e reivindicando espaços outros de significação. O corpo, tomado aqui como corporalidade, se configura como uma instância simbólica e política: é atravessado por marcas, mas também capaz de inscrever novos sentidos; sofre determinações, mas também produz deslocamentos. CONCLUSÃO Ao analisar os gestos de leitura na vida cotidiana universitária, evidencia-se que o corpo do leitor está implicado nas disputas simbólicas que atravessam os espaços institucionais de produção do saber. A leitura, compreendida em sua dimensão política e simbólica, se revela como prática de inscrição subjetiva, de resistência ao automatismo e de produção de deslocamentos discursivos. Reconhecer os sentidos que o corpo inscreve nos gestos de leitura é também afirmar a legitimidade do silêncio, da hesitação e do não saber como parte do processo formativo. Este trabalho, ainda em desenvolvimento, reafirma a importância de práticas pedagógicas que acolham a complexidade do sujeito leitor, promovendo escutas aos atravessamentos ideológicos e aos sentidos que emergem nos gestos relativos a distintas culturas corporais. Na universidade, a corporeidade do estudante é lugar de discurso, campo de resistência e possibilidade de reinvenção de si. Sustentar que só há corpo se há linguagem (Orlandi, 2012) permite afirmar que escutar a corpo do estudante é escutar os discursos que o constituem e os silêncios que o atravessam. Nesse sentido, a leitura se configura como prática de resistência e criação: o corpo que lê é também o corpo que interpela, que se desloca e que afirma sua presença no espaço acadêmico. Reforça-se, assim, a potência da leitura como gesto de reexistência. Afinal, onde há corpo, há discurso, e há também a possibilidade de reexistir pela leitura. REFERÊNCIAS PAIS, José Machado. Vida cotidiana: enigmas e revelações. São Paulo: Cortez, 2002. PAIS, José Machado. O “corre-corre” cotidiano no modo de vida urbano. Revista TOMO, [S. l.], n. 16, p. 131–156, 2010. DOI: 10.21669/tomo.v0i16.521. Disponível em:
https://periodicos.ufs.br/tomo/article/view/521. Acesso em: 7 abr. 2025. LEANDRO-FERREIRA, Maria Cristina. O discurso do corpo. In: MITTMANN, Solange; SANSEVERINO, Antonio. (Orgs.) Trilhas de investigação: a pesquisa no I.L. em sua diversidade constitutiva. Porto Alegre: Instituto de Letras, UFRGS, 2011, p. 89-105. ORLANDI, Eni. Cidade dos sentidos. Campinas: Pontes, 2004. ORLANDI, Eni Puccinelli. Discurso em Análise: sujeito, sentido e ideologia. Campinas: Pontes Editores, 2012. PÊCHEUX, Michel. Discurso: estrutura ou acontecimento. 2. ed. Campinas: Pontes, 1990. VINHAS, Luciana Iost. O corpo na Análise de Discurso: materialidade, lugar de enunciação, subjetividade. Revista Língua & Literatura, v. 23, n. 42, p. 143-163, jan./jun. 2021. Disponível em:
https://seer.ufs.br/index.php/linguagens/article/view/15196. Acesso em: 23 mar. 2025.