COMUNIDADES TRADICIONAIS AMAZÔNICAS E ESTÁGIO SUPERVISIONADO: REFLEXÕES SOB A PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO POPULAR

- 216030
Resumo Expandido - Trabalho
Favorite this paper
How to cite this paper?
Abstract
COMUNIDADES TRADICIONAIS AMAZÔNICAS E ESTÁGIO SUPERVISIONADO: REFLEXÕES SOB A PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO POPULAR Introdução Este trabalho buscou investigar como as experiências de estágio supervisionado da Graduação em Etnodesenvolvimento têm se constituído como dispositivo de aprendizagem intercultural na perspectiva da educação Popular. O estudo foi desenvolvido no decorrer de 12 meses, tendo como lócus a Faculdade de Etnodiversidade (FACETNO-UFPA) do Campus Universitário de Altamira da Universidade Federal do Pará. A pesquisa caracterizou-se metodologicamente como qualitativa com levantamento documental e bibliográfico (Minayo, 1994; Severino, 2017). A investigação tomou como fonte as produções teóricas e metodológicas da Educação Popular como Paulo Freire, Carlos Rodrigues Brandão, Orlando Fals Bordas, Alfonso Torres Carrillo, Ivanilde Oliveira, Danilo Streck, Conceição Paludo entre outros. A documentação tomada como fonte no presente estudo foram os relatórios de estágio, trabalhos que foram tecidos nos processos de ação e reflexão das atividades acadêmicas em relação direta com as escolas da educação básica e com as comunidades tradicionais. Estágio Supervisionado, Comunidades Tradicionais e Educação Popular A Licenciatura em Etnodesenvolvimento da Universidade Federal do Pará – Campus Altamira se constitui como um espaço socioeducativo de formação e produção de epistemologias e pedagogias decoloniais, uma vez que é uma Política de Ação Afirmativa destinada à inclusão na educação superior de estudantes oriundos de comunidades e povos tradicionais. De acordo com seu Projeto Pedagógico (UFPA 2019), a formação em Etnodesenvolvimento compreende: 1) a capacitação de etnoprofissionais oriundos dos próprios povos e comunidades tradicionais, tendo como base a cultura para a qual se destina; 2) os programas de etnodesenvolvimento devem ser assunto interno a cada povo e comunidade, sendo que o Estado tem o dever de apoiar e criar políticas públicas específicas e um aparato jurídico-administrativo que reconheça a autodeterminação destes povos, regularize e demarque suas terras e entregue aos grupos étnicos as rédeas de seu próprio destino histórico. (UFPA, Projeto Pedagógico do Curso de Etnodesenvolvimento, 2019, p.04). O papel de uma universidade pública, crítica, inclusiva e emancipatória é buscar o diálogo efetivo com pedagogias-outras, com as pedagogias dos diferentes povos e comunidades amazônicas, pedagogias que emergem de suas territorialidades, ancestralidades, religiosidades, relações de trabalho e cultura. O curso busca aprender com povos e comunidades tradicionais, seus rituais, símbolos e costumes, suas relações objetivas e subjetivas com seus territórios, trabalhos e histórias, a universidade verá que daí emanam pedagogias que problematizam os processos educativos e nos convidam a recriar educações-outras a partir dos conhecimentos desses coletivos. A educação popular e o seu aparato metodológico podem contribuir na construção dessa formação universitária dialógica. O curso de Etnodesenvolvimento busca a valorização de culturas, identidades e saberes tradicionais, reconfigurando o modelo tradicional de ensino, com a finalidade de compreender as populações tradicionais, suas culturas e saberes. Partindo dessa matriz, as atividades curriculares e os componentes multidisciplinares são engendrados nesses territórios etnoeducacionais e no movimento da pedagogia da alternância. Segundo Parente e Miléo (2021, p. 7), o Curso de Etnodesenvolvimento, ao incorporar experiências dos coletivos de origem de seus estudantes, reconhecendo-lhes o estatuto de produtores de conhecimento [...] configura-se como uma rede dialógica entre saberes e sujeitos de diferentes pertenças, e foi proposto no sentido de superar o modelo cartesiano de boa parte das políticas educacionais [...]” O estágio supervisionado dos cursos de licenciatura é um dispositivo pedagógico multidisciplinar de ensino-aprendizagem que congrega universidades, escolas, ambientes não escolares e os territórios amazônicos tradicionais. As práticas de estágio estabelecem significados entres os conteúdos científicos, os procedimentos acadêmicos, as metodologias de ensino e as condutas profissionais dos futuros docentes. Os processos elaborados durante o estágio desafiam os acadêmicos a relacionar a sua formação universitária com as dinâmicas das escolas da educação básica e com as demandas da sociedade civil. As práticas educativas das comunidades tradicionais, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas deslocam para o campo do estágio supervisionado a importância de reconhecer e valorizar os saberes tradicionais, os modos de vida e organização do trabalho na formação universitária das licenciaturas, em especial, na graduação em Etnodesenvolvimento. Conforme o Artigo 3 do Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, define os povos tradicionais como “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição (Brasil, Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007)”. O estágio supervisionado do Curso de Etnodesenvolvimento tem como objetivo estabelecer vínculo entre os acadêmicos do curso que são oriundos de territórios tradicionais e as organizações sociais desses grupos de pertencimento étnico e cultural. Assim, as atividades curriculares em questão apresentam algumas especificidades como: a) O público-alvo, visto que o curso é uma política de ação afirmativa para povos tradicionais. b) Formação de Professores (as) / Etnoeducadores (as), isto é, habilitar pessoas oriundas de comunidades tradicionais a exercer à docência nos territórios tradicionais. c) Criação de práticas pedagógicas diferenciadas para trabalhar conteúdos científicos, conhecimentos tradicionais e Etnodesenvolvimento. O(A) etnoeducador (a) e/ou etnoprofessor (a) busca promover práticas pedagógicas diferenciadas, por meio de processos pedagógicos vinculados à perspectiva da Etnoeducação e do Etnodesenvolvimento. A graduação adota esse paradigma epistemológico, político e ontológico em seu projeto pedagógico de curso, nesse sentido, os modos de fazer-saber se irradiam nos componentes curriculares e nas práticas acadêmicas. Para criar práticas pedagógicas diferenciadas os docentes e discentes mobilizam perspectivas epistemológicos, ontológicos e políticos centradas na Pedagogia da Alternância em diálogo com uma perspectiva da educação popular. Essa perspectiva promove uma organização do trabalho pedagógico a partir da dinâmica Tempo Universidade e Tempo Comunidade. Os estudantes possuem um tempo de aprendizagem e realização de atividades acadêmicas em seus territórios de pertença e, a partir das problemáticas e proposições produzidas com a sua comunidade, promovem discussões e ações na universidade. Nesse sentido buscamos compreender a partir da Perspectiva da Educação Popular como é constituído o diálogo intercultural dos conhecimentos científicos e os conhecimentos tradicionais a partir da análise dos relatórios de estágio supervisionado, caracterizar as especificidades do Estágio com comunidades tradicionais. A Educação Popular é um movimento/paradigma histórico forjado na América Latina e Caribe pelos movimentos sociais e coletivos populares, suas práticas pedagógicas são desenvolvidas por populações campesinas, grupos de assentados e sem terras, comunidades quilombolas, povos indígenas, movimento de atingidos por barragens, movimentos negros, movimentos feministas, sindicatos, dentre outros coletivos sociais. Para a pesquisadora argentina Puiggrós (1993) “La educación popular es siempre una posición política y política- pedagógica, un compromiso con el pueblo frente al conjunto de su educación y no se reduce a una acción centrada en una modalidad educativa, tal como la educación no formal; o a un recorte de los sectores populares, tal como los marginados; o a un grupo generacional, como los adultos; o a una estrategia determinada, como la alfabetización rural”. (Puiggrós, 1993, p. 33). A Educação Popular é uma postura pedagógica e política fomentada a partir dos sujeitos e de suas territorialidades, é desenhada e elaborada desde as demandas imediatas e desde projetos de transformação social, a EP não se reduz a uma modalidade da educação, nem a um recorte social, nem a um grupo geracional ou metodologia de ensino de ensino. Nas obras de Freire, Fals Borda e Puiggrós, pode-se enfatizar que as características basilares residem no aspecto político-pedagógico, no processo de denúncia e anúncio, na organização e ação coletiva e nas relações dialógicas e engajadas das vivências populares “com e nas” nos territórios populares. O pesquisador colombiano Torres Carrillo (2016), na última década, vem apresentando uma série de trabalhos que visam sistematizar a genealogia da Educação Popular (origens, contextos, dissidências, influências e impactos). Ele entende que há uma miríade de conceituações acerca do movimento de Educação Popular, por conta disso busca reunir os elementos constitutivos e elaborar um núcleo comum. Nas palavras do autor, os eixos comuns são: 1. Una lectura crítica del orden social vigente y un cuestionamiento al papel integrador que ha jugado allí la educación formal. 2. Una intencionalidad política emancipadora frente al orden social imperante. 3. El propósito de contribuir al fortalecimiento de los sectores dominados como sujeto histórico, capaz de protagonizar el cambio social. 4. Una convicción que desde la educación es posible contribuir al logro de esa intencionalidad, actuando sobre la subjetividad popular. 5. Un afán por generar y emplear metodologías educativas dialógicas, participativas y activas. (TORRES CARRILLO, 2016, p. 14). Esse paradigma/movimento congrega metodologias participativas, construção de pensamentos autênticos, potencializador das alteridades populares, sem esquecer a criação de estratégias contra-hegemônicas e fortalecimento de engajamento coletivo para a mudança social. O paradigma/movimento da educação popular libertadora contém diversas constelações teóricas e formações praxiológicas, elas podem se expressar de diferentes maneiras, em múltiplos territórios, e serem organizadas por diferentes sujeitos/as e com distintos símbolos. Para se efetivar um projeto coletivo, crítico e transformador para formação de etnoeducadores é necessário estabelecer um campo de atuação educacional diferenciado. Propor práticas pedagógicas que viabilize reflexões e ações comunitária concentrados com a construção de um outro mundo possível. Pensando nas contribuições possíveis, vamos elencar algumas diretrizes pedagógicas da Educação Popular para a formação docente de etnoeducadores. a) Diálogo: O diálogo é comumente entendido ou confundido como um processo harmônico que sempre busca a conciliação entre os (as) envolvidos (as). Entretanto, essa é uma visão reducionista e/ou ingênua. O diálogo é o encontro das diferenças, é a congregação de intersubjetividades e de contextos sociopolíticos e culturais diversos. O diálogo é aprender com o Outro/a Outra, é construir com o Outro/a Outra em meio ao mundo e suas historicidades, então, os sujeitos, as comunidades tradicionais, os coletivos populares, educadores populares e profissionais não só aprendem, também ensinam-aprendam. Estabelecer diálogo entre os diferentes atores sociais como sindicatos, organizações não governamentais, universidade, escolas, organizações políticas, associações e centro comunitários fortalece o projeto coletivo da formação de etnoeducadores. b) Sistematização de Experiências: Os movimentos de Educação Popular nos ensinam que é necessário realizar uma avaliação crítica e constante das práticas pedagógicas do movimento de educação popular, é necessário refletir, identificar os impactos e as fragilidades das ações. Esse processo nos ajuda a entender as contradições presentes nas ações coletivas dos educadores populares, perceber os processos de construção de saberes, confrontar os procedimentos colonizadores e alienantes. Essa diretriz pedagógica sublinha que é preciso aprender com as experiências históricas, ancestrais e coletivas. Os coletivos Amazônidas possuem uma experiência antiga com as mudanças climáticas, com as transformações violentas dos projetos colonizadores na região, possuem uma gama de saberes, estratégias e projetos de re-existência. Considerações Finais As práticas pedagógicas registradas e classificadas apontam para experiências interculturais e inovadoras de elaboração de metodologias de ensino e materiais didáticos, destacam os desafios e incoerências presentes nesse processo, como o uso de metodologias tradicionais com temáticas da realidade dos estudantes e ao mesmo tempo a criação de metodologias inventivas e articuladas com as dinâmicas socioculturais das comunidades tradicionais. Os resultados dessa sistematização com recorte nos Estágio Supervisionado possibilitaram construir uma cartografia desse componente curricular da Licenciatura em Etnodesenvolvimento, evidenciando a formação de Etnoeducadores como afirmação dos modos de vidas das Populações do Campo, dos Rios e da Floresta, num diálogo nem sempre fácil, porém, necessário, com os sistemas de ensino presentes nos territórios de pertencimento desses sujeitos, por meio do qual buscamos compreender “rastros” de uma educação popular que promova práticas educativas colaborativas, politizadas e transformadoras. Referências MINAYO, Maria Cecilia de Souza (Org.). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. PARENTE, Francilene de Aguiar; MILÉO, Irlanda do Socorro de Oliveira. O Curso de Etnodesenvolvimento e a Formação Diferenciada e Intercultural: contribuições no contexto educacional, sociopolítico e cultural da Amazônia. Educar em Revista, Curitiba, v. 37, p. 1- 22. Disponível em: https://www.scielo.br/j/er/a/GZy3Lvmgzkh6fdc7xt8BDkt/abstract/?lang=pt. Acesso em: 31 de agosto de 2024. SEVERINO, Antônio Joaquim, 1941. Metodologia do trabalho científico. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2017. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ. Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão. Resolução n. 5.124, de 23 de janeiro de 2019. Aprova o Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Etnodesenvolvimento, de interesse do Campus Universitário de Altamira. Belém: UFPA, 2019.

Share your ideas or questions with the authors!

Did you know that the greatest stimulus in scientific and cultural development is curiosity? Leave your questions or suggestions to the author!

Sign in to interact

Have a question or suggestion? Share your feedback with the authors!

Institutions
  • 1 UFPA - Universidade Federal do Pará
Track
  • GT06 - Educação Popular