INTRODUÇÃO Esta pesquisa discute as escolhas educativas de classe média, com o objetivo de compreender como a educação compõe, como elemento central, as estratégias de reprodução social deste estrato (Ball, 2003). As classes médias, em virtude de sua situação intermediária, são constrangidas pela possibilidade constante tanto de ascensão como de declínio social. Esta situação de risco leva esses grupos justamente a “tirar proveito dos recursos (culturais e econômicos) que possuem em prol da escolaridade de seus filhos” (Nogueira, 2013, p. 283). Assim, possuem uma relação única com a educação, justificando-se o enfoque sobre estas famílias. Neste sentido, dialoga-se com estudos que têm procurado desafiar o silêncio sobre a educação de classe média, em particular o campo de estudos da “relação família-escola”, em que se consolida, entre outros temas, a mais consistente iniciativa dos estudos educacionais brasileiros em relação às camadas médias. Tal cenário indica a importância de se reconhecer as contribuições de autores/as brasileiros/as ao estudo da escola de classe média. Contudo, esta realidade indica também a premência de se pesquisar a escolarização dos grupos médios a partir de novas abordagens conceituais e metodológicas, que dialoguem e complementem a mais estabilizada área da relação família-escola e seus referenciais teórico-metodológicos específicos. É por isso que se ressalta a relevância metodológica desta pesquisa em focalizar jovens, a partir de um estudo de seu protagonismo nas decisões a respeito de seu próprio trilho educacional. Uma forma, portanto, com que esta pesquisa busca contribuir com o debate das estratégias educativas das classes médias, é quanto ao ponto de referência: aqui, consideram-se os ascendentes, mas também os/as jovens, oriundos/as de uma escola de classe média. Esta decisão posiciona uma centralidade na agência de jovens de classe média na elaboração das estratégias familiares para sua educação, sensibilizando-se diante de suas vozes, reflexões, resistências e ações, como indica a pergunta de pesquisa: Como os recursos culturais e econômicos de famílias de classe média são mobilizados por jovens em suas estratégias educativas? METODOLOGIA O presente estudo parte de uma investigação em andamento desde 2016. Na ocasião, foi estruturada uma etnografia que acompanhou, por 3 meses, todos os dias letivos, uma turma de segundo ano do ensino médio de uma escola que atende a uma comunidade de classe média de importante área urbana brasileira. No período de 2018 e 2019, foram realizadas, por exemplo, observação participante, entrevistas individuais, grupos focais com os alunos, entrevistas com professores da escola e direção, análise de diários pessoais escritos pelos/as alunos/as a pedido do pesquisador, análise de documentos escolares. Em relação à escola de origem dos/as jovens pesquisados, que foram colegas de ensino médio, trata-se de um colégio tradicional, com mais de 100 anos de idade e com cerca de 1000 alunos. A escola opera da educação infantil ao ensino médio, sendo privada e religiosa, com uma mensalidade considerada das mais altas na cidade, estando a escola localizada em bairro de classe média, próximo ao centro. Quanto à configuração de classe da turma da qual os/as jovens são egressos/as, foram consideradas, em adição às características geográficas e econômicas acima, as ocupações das famílias (Salata, 2016). Tomando-se, assim, ocupações consideradas liberais ou de médio escalão, que compõem a maioria dos casos - médicos, arquitetos, professores universitários, engenheiros, etc -, tratou-se a turma como de classes médias, considerando-se, no plural, as diferentes frações de classe média (Nogueira, 2013). Ademais, nos anos de 2021 e 2022, houve uma nova coleta de dados específica, por meio de entrevistas individuais com os jovens, em virtude de estarem vivendo, naquele momento, a transição da escola para a universidade. Agora, em nova fase, que se iniciou em 2024, os sujeitos da pesquisa já estão estabelecidos como universitários/as e trabalhadores/as. Assim, o presente projeto de pesquisa focaliza as conexões entre o passado no ensino médio, a finalização dos estudos no ensino superior e a entrada no mundo do trabalho. Mais do que isso, metodologicamente, se agrega à visão dos/as jovens sobre sua trajetória educacional as perspectivas de seus ascendentes, a serem escutados neste ponto, o que viabiliza novas camadas de análise a respeito das suas estratégias. O que se propõe, portanto, é uma “etnografia longitudinal”, ou seja, uma etnografia que vai se constituindo de longa duração, analisando em detalhe os sentidos produzidos em cada estratégia educativa de cada sujeito social, ao longo dos anos, mapeando suas particularidades e o que têm em comum em termos de estratégias familiares. Neste ponto, é mantido contato constante com 10 destes/as ex-alunos/as, já em momento estabelecido como alunos de graduação em universidades de prestígio acadêmico. Como estratégias de ação, são previstas: a) entrevistas individuais com cada jovem, a respeito de seu momento educacional, suas escolhas pregressas e seu projeto de futuro (já em andamento); b) entrevistas com seus pais e mães, a partir dos dados coletados com os/as jovens, confrontando as escolhas juvenis com as expectativas parentais; c) grupos de discussão com os familiares, em que serão observados oposições e padrões das famílias em relação aos investimentos educacionais em sua prole. ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS PARCIAIS No momento da submissão desta proposta, estão sendo realizadas as entrevistas. Compartilham-se os instrumentos que estão sendo utilizados na coleta de dados, das entrevistas com jovens e ascendentes. Na sequência, discute-se esta opção metodológica e suas implicações. Roteiro para entrevista com jovens Descreva um dia de semana “normal” de sua vida. Como seria a faculdade perfeita? Você se considera um bom filho/filha? O que é ser um bom filho/a? Seus pais estão orgulhosos ou desapontados com suas escolhas educacionais? Por quê? Como é sua composição familiar? Você gostou da escola no seu ensino médio? Quais foram as melhores e as piores partes? Quais foram os melhores e piores professores e disciplinas? Quais atividades você faz para se diferenciar na sua educação após o ensino médio? Para que serviu a escola na sua vida? Para que serve a universidade? Qual a sua classe social, raça e gênero? Como é ter este perfil socioeconômico na faculdade? Como você se vê em 10 anos em termos de trabalho e família? Se você pudesse dar uma sugestão de futuro para uma pessoa que está no ensino médio hoje, qual seria? Roteiro para entrevista com ascendentes Qual sua profissão? Descreva um dia de semana “normal” de sua vida. Se você pudesse voltar no tempo, o que faria diferente na sua vida profissional? E o que não mudaria por nada? Justifique. Que valores guiam sua vida? Por quê? E quais valores você tenta passar para seu filho/a? Por quê? Em que aspectos Você se considera um bom pai/mãe? Por quê? E em quais não? Por quê? Qual seria a faculdade perfeita para seu/sua filho/a? Como você vê as escolhas dele/a? Que atividades educacionais, ainda na época da escola, você escolheu para diferenciar seu/sua filho/a no futuro? Valeu a pena? Por quê? Se você pudesse dar uma sugestão para os pais de ensino médio hoje, qual seria? Como você vê seu filho em 10 anos, em termos de trabalho e família? Qual você considera a sua classe social? Por quê? As questões presentes nos instrumentos de pesquisa não são apenas pro forma. Pelo contrário, se relacionam, cada uma em um sentido, ao problema de pesquisa, através da metodologia etnográfica. Por exemplo, a questão aos estudantes “Seus pais estão orgulhosos ou desapontados com suas escolhas educacionais? Por quê?” tem a intenção de produzir informações preciosas, colocando em fricção as escolhas do/a jovem, as expectativas parentais e as negociações que ocorrem entre uma geração e a outra. Já nas questões aos familiares, podemos por exemplo destacar a questão “Qual seria a faculdade perfeita para seu/sua filho/a? Como você vê as escolhas dele/a?”, que conversa com o questionário para os/as estudantes, porém desde uma outra perspectiva, portanto podendo ser colocada em análise de maneira conjunta, enfatizando a complexidade da forma como as estratégias educativas são traçadas e vividas. Finalmente, reforça-se a etapa futura de grupo de discussão de pais, que serão convocados a dialogarem sobre as estratégias educativas de cada família, sendo possível traçar particularidades e generalidades das mesmas. Após a conclusão dessa etapa, os dados passarão por tratamento através da análise temática (Braun; Clarke, 2006). CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante do problema de pesquisa, bem como do desenho metodológico acima proposto, defende-se que a pesquisa tem potencial de contribuir para o desenvolvimento do entendimento sociológico das relações entre educação e reprodução social, tomando como “janela” o caso dos estudantes de classe média e suas estratégias familiares. Isto significa um passo importante para abrir a “caixa fechada” da educação dos grupos privilegiados, colaborando para a compreensão e a interrupção das desigualdades educacionais. Palavras-chave: Classe média. Relação família-escola. Juventudes REFERÊNCIAS BALL, Stephen J. Class strategies and the education market: the middle classes and social advantage. London: Routledge Falmer, 2003. BRAUN, V.; CLARKE, V. Using thematic analysis in psychology. Qualitative Research in Psychology, v. 3, n. 2, p. 77-101. 2006. NOGUEIRA, Maria Alice. Um tema revisitado: as classes médias e a escola. In: APPLE, Michael W.; BALL, Stephen J.; GANDIN, Luís Armando (org.). Sociologia da Educação: análise internacional. Porto Alegre: Penso, 2013. p. 280-290. SALATA, André Ricardo. A classe média brasileira: posição social e identidade de classe. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2016.