CIBERAQUILOMBAMENTO : escrevivências negras em rede Introdução O conceito de ciberaquilombamento emerge da interseção entre ciberespaço e aquilombamento, articulando tecnologia e resistência negra. Inspirado nas experiências históricas dos quilombos como territórios de liberdade e produção coletiva de saberes, o ciberaquilombamento transpõe essa lógica para as redes online, criando espaços de encontro, partilha e fortalecimento de epistemologias afrocentradas. Nesse contexto, os espaços online se tornam quilombos contemporâneos, ambientes onde pessoas negras se conectam para compartilhar experiências, construir narrativas e consolidar estratégias de resistência. Mais do que um meio de comunicação, o espaço virtual se torna um território onde vozes negras se reafirmam em meio às dinâmicas da cibercultura (Santos, 2019). O avanço do neoconservadorismo no mundo tem imposto desafios à educação e às lutas por direitos sociais, promovendo ataques sistemáticos às políticas de inclusão e diversidade. Frente a essas violências, o ciberaquilombamento emerge como um mecanismo de resistência que possibilita não apenas a denúncia de opressões, mas também a criação de alternativas educativas e formativas ancoradas na memória e na ancestralidade negra. Como destaca Edméa Santos (2019), a cibercultura não é apenas um fenômeno tecnológico, mas um campo de produção de sentidos, aprendizagens e subjetividades. Assim, a presença das tecnologias não se reduz a uma ferramenta, mas se torna um dispositivo que reconfigura processos de ensino, desafia hierarquias tradicionais e amplia os territórios do conhecimento. Nesse sentido, o ciberaquilombamento se insere no debate sobre o papel da educação frente ao avanço de perspectivas neoconservadoras que buscam deslegitimar pautas antirracistas e decoloniais. O ambiente online se configura, portanto, como um espaço tanto de disputa quanto de potencialização. através de redes sociais online e plataformas de compartilhamento, ativistas negros têm utilizado estratégias para fortalecer a luta antirracista e consolidar novas possibilidades de performar a vida. Campanhas como #BlackLivesMatter e #VidasNegrasImportam demonstram a força do ciberaquilombamento como ferramenta de mobilização global, tornando visíveis violências raciais antes silenciadas pelos grandes meios de comunicação. Para compreender o ciberaquilombamento, é essencial partir da perspectiva do aquilombamento, conceito que remete tanto à formação histórica dos quilombos quanto às formas contemporâneas de organização coletiva da população negra em resposta à opressão racial. Os quilombos foram símbolos fundamentais da resistência negra no Brasil, desenvolvendo estruturas sociais autônomas baseadas na coletividade, solidariedade e preservação dos saberes afro-diaspóricos. Como afirma Nego Bispo, "o quilombo pode ser considerado o símbolo maior da luta pela terra comunitária e pela liberdade em toda a Diáspora Africana nas Américas" (Bispo, 2023, p. 10), evidenciando que a experiência quilombola transcende sua existência histórica e se manifesta em processos contemporâneos de resistência e organização coletiva. Nesse contexto, aquilombar-se no espaço online significa ocupar territórios virtuais que promovam a troca de saberes, fortalecimento das subjetividades e a resistência contra o racismo. Como ressalta Conceição Evaristo em seu poema: "é tempo de formar novos quilombos, em qualquer lugar que estejamos", indicando que a luta pela liberdade e pela dignidade da população negra segue ativa e em constante reinvenção. O ciberaquilombamento, reafirma o ciberespaço como um território de resistência e transformação social, onde a coletividade negra se fortalece e constrói novas formas de existência em meio aos desafios do mundo contemporâneo. Metodologia A pesquisa adota a cibercartografia como caminho metodológico para investigar a constituição do ciberaquilombamento nos ambientes online. Esse conceito, desenvolvido por Carvalho e Pocahy (2023), representa uma atualização crítica da cartografia online, ampliando seu escopo para compreender não apenas a geografia dos fluxos online, mas também as dinâmicas políticas e subjetivas que emergem desses territórios. A escolha dessa abordagem se justifica pela necessidade de acessar as produções negras em suas múltiplas expressões, reconhecendo os meios online como espaços de visibilidade, resistência e criação. O ciberaquilombamento, nesse sentido, se manifesta como uma trama de conexões que atravessa plataformas, redes e discursos, revelando a potência política das interações no ciberespaço. Assim, a cibercartografia possibilita não apenas um mapeamento dos espaços ocupados por essas produções, mas também uma compreensão das estratégias que sustentam a existência e permanência desses territórios online. O percurso metodológico envolve o mapeamento de conteúdos publicados em redes sociais, como Instagram e X, canais do YouTube e outras plataformas que acolhem narrativas de autoria negra. O objetivo não se limita à coleta de dados, mas busca compreender as articulações dessas produções, os diálogos que se estabelecem e as formas como essas organizações tensionam discursos hegemônicos. A cibercartografia , ao se vincular à escrevivência de Evaristo (2020), reconhece a escrita e a criação online como espaços de elaboração política e existencial. Nesse sentido, a pesquisa não se restringe a mapear conteúdos, mas busca compreender como essas narrativas se estruturam a partir de experiências concretas de vida e como se transformam em dispositivos de resistência e afirmação. Dessa forma, a cibercartografia se torna uma ferramenta potente para capturar a complexidade do ciberaquilombamento, permitindo reconhecer os modos como sujeitos negros articulam seus discursos e circulam suas narrativas no ambiente online. Ao respeitar a fluidez dos espaços virtuais, essa metodologia propõe um olhar atento às redes de afeto, colaboração e insurgência que se formam nesses territórios, compreendendo-os como espaços fundamentais para a construção de presença e pertencimento. Resultados Parciais e Discussão Os primeiros achados da pesquisa apontam para as redes sociais online como territórios de fortalecimento do ciberaquilombamento, onde as produções negras se constituem não apenas como narrativas de resistência, mas como processos ativos de criação de subjetividades e pedagogias decoloniais. A presença de ativistas, coletivos e intelectuais negros evidencia que o ciberespaço não é um ambiente neutro, mas um campo de disputas simbólicas e políticas, no qual a presença negra se afirma em meio às tentativas de apagamento e controle dos discursos hegemônicos. Contudo, é crucial reconhecer que essas redes não são espaços exclusivamente de solidariedade. Elas também estão marcadas pelo racismo, que se manifesta tanto de forma direta quanto nas sutis tentativas de silenciamento e controle das vozes negras. A cartografia dos conteúdos mapeados até esse momento demonstra que nos ambientes online são difundidas reflexões sobre racismo, ancestralidade e educação, configurando-se como reinvenção da memória coletiva negra a partir de uma perspectiva afrocentrada. A produção de vídeos, textos, artes visuais, transmissões ao vivo e podcasts, evidencia que essas plataformas não apenas possibilitam a comunicação, mas também se tornam instrumentos fundamentais para a reconfiguração de epistemologias negras que desafiam a colonialidade do saber (Torres; Vieira; Cassiano, 2024). Diante desses elementos, a pesquisa reafirma o ciberaquilombamento como um movimento que vai além do uso das redes sociais online, configurando-se como um fenômeno político, epistemológico e existencial. O ciberespaço, mais do que um simples ambiente virtual, torna-se um território de luta e invenção, onde as narrativas negras constroem novos caminhos. Considerações Finais A pesquisa reafirma o ciberaquilombamento como um território de resistência, invenção e produção de saberes negros no ambiente online. Mais do que um espaço de denúncia, as redes se configuram como quilombos contemporâneos, onde a presença negra afirma suas narrativas e tensiona discursos hegemônicos. Os achados da pesquisa demonstram que o ciberespaço não é neutro, mas um campo de disputas em que estratégias como a ressignificação de discursos, a criação de redes de afeto e a mobilização coletiva fortalecem a luta antirracista. Contudo, as redes também reproduzem dinâmicas racistas, o que exige leituras críticas sobre sua funcionalidade. Ao articular tecnologia e resistência negra, o ciberaquilombamento reafirma a centralidade das epistemologias afrocentradas e a urgência de pesquisas que aprofundem seus desdobramentos na educação, nas políticas de comunicação e nas formas de organização coletiva da população negra. Referências Bibliográficas CARVALHO, Felipe; POCAHY, Fernando. Cibercartografia: uma abordagem ético-epistêmico-metodológica na cibercultura. In: OSWALD, Maria Luiza; FERNANDES, Adriana Hoffmann; SILVA, Dagmar Mello; COUTO JUNIOR, Dilton Ribeiro; FERREIRA, Helenice Mirabelli Cassino (Orgs.). Metodologias de pesquisa online: investigando em/na rede com o outro. Rio de Janeiro: Ayvu, 2023, p. 175-203. EVARISTO, Conceição. et al. Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo/ organização Constância Lima Duarte, Isabella Rosado Nunes; ilustrações Goya Lopes. - 1. ed - Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020. Poema de Conceição Evaristo:
https://xapuri.info/tempo-de-nos-aquilombar/. SANTOS, Antônio Bispo. Colonização, Quilombos: Modos e significações. 2. ed. Brasília: Ayô, 2023. SANTOS, Edméa. Pesquisa-formação na cibercultura. Teresina: EDUFPI, 2019. E-book. Disponível em:
http://www.edmeasantos.pro.br/assets/livros/Livro%20PESQUISA-FORMA%C3%8…. TORRES, N. M; VIEIRA, F. A; CASSIANO, T. C. S. A. O que é a crítica decolonial. Fronteiras - Revista Catarinense de História | ISSN 2238-9717 | n. 44, ago./2024. p. 10-39.