BEBEVERSAÇÕES: NUANCES DE UM CONCEITO QUE DESLIZA Pensar com os bebês na educação infantil demanda deslocamentos dos modos tradicionais que intentam decalcá-los em segmentações hegemônicas e categorizantes. Neste texto apresentamos movimentos de uma pesquisa realizada em um Centro Municipal de Educação Infantil, na qual acompanhamos uma turma de bebês do Grupo 1 e uma do Grupo 2. Nesse percurso, elaboramos o conceito de bebeversações que se apresenta como um movimento contínuo, um deslizar que desafia fixações discursivas. Buscamos pensar o bebê para além de um sujeito delimitado por fases e desenvolvimentos lineares, mas como um feixe de potencialidades e atravessamentos sensíveis. Nossa problematização ressoa sobre o que pode o devir-bebê entre as múltiplas possibilidades que o expandem pelos acontecimentos cotidianos e o diferenciam em suas singularidades nos territórios da educação infantil? Sendo assim, nos entremeamos a cartografar um conceito em ato, que se movimenta e desliza. “Nesse deslizamento, é que o conceito se torna vivo. O conceito se mexe, respira, dança. Ele pertence a uma realidade, ao mesmo tempo em que, enquanto conceito, a excede” (Leclercq, 2002, p. 20). Para tanto, não há estanqueidades que comportem as fagulhas de um bebê em ato, que também desliza, engatinha e escapa. Segundo Deleuze e Guattari (1992), o conceito não apenas cumpre sua função, mas também faz ver coisas, estando conectado aos perceptos em que sensações e afecções se compõem com a experiência do encontro que se afasta de qualquer categorização. Apostamos na cartografia como metodologia para flutuar e pousar encontros com os bebês e expandi-los em meio a bebeversações que os movimentem em discursividades que escapem das homogeneizações. Segundo Kastrup (2009), a cartografia se constitui no acompanhamento de processos, singularidades e movimentos, em vez de se concentrar em objetos ou representações fixas. Sendo assim, acompanhamos os bebês em seu cotidiano escolar com o objetivo de problematizar a concepção acerca deles por vias de uma pedagogia bebeversada, na qual a linguagem extrapola discursos dominantes e se entrelaça a um corpo que os anuncia em sua força de vida. Nesse movimento, realizamos registros escritos em diário de bordo, assim como filmagens e fotografias que foram revisitadas de modo contínuo durante a pesquisa, a fim de entrarmos em relação com os acontecimentos de diferentes modos. Afetamo-nos a pensar os bebês em seus movimentos pré-individuais e processos de individuação. Ousamos fazê-los revoar por suas possibilidades de escapar de um conceito encarcerado e alçar as vias de uma linguagem bebeversada. Quem sabe por um corpo-bebê-potência, que se movimenta em errâncias para escapulir aos dogmatismos? Simondon (2003) nos faz problematizar acerca do ser, o qual perpassa por uma dimensão pré-individual que enreda o devir. [...] é possível supor que o devir é uma dimensão do ser, corresponde a uma capacidade que o ser tem de defasar-se em relação a si próprio, de resolver-se defasando-se; o ser pré-individual é o ser em que não existe fase; o devir é o ser em cujo seio se efetua uma individuação, o ser em que uma resolução aparece pela sua repartição em fases; o devir não é um quadro no qual o ser existe; ele é dimensão do ser [...] (Simondon, 2003, p. 101). Podemos pensar o bebê como o devir, em que o movimento pré-individual potencializa os processos de individuação ocorridos sem um início e um fim específicos. Diferentemente de um Ser em que as fases se encontram segmentadas, o devir-bebê não se define por um Ser em si, mas por uma dimensão do Ser repleta de potencialidades. Nesse encontro, ecoamos um bebê em seus movimentos corpóreos que percorrem trajetórias errantes nas quais o corpo desmonta automatismos e ousa rasgar o tecido do prescrito. Sugere rumos indômitos em que seu balançar, então o corpo-bebê se expande e nos convoca a bradar por sua voz cognoscível, por vezes não palavreada, que bebeversa uma pedagogia em encontros em linguagens singulares, por vezes permeada de palavras balbuciadas, para compor discursos em uma língua que os desfaçam de dogmatismos. Passamos a vaguear à procura despretensiosa do que está por vir junto aos tempos e espaços percorridos por entre “corpos sem órgãos” (Deleuze; Guattari, 2012) de bebês, que trasngridem seu funcionamento por meio de uma linguagem sinuosa, emaranhada e sem estratos. O corpo sem órgãos não se prende a uma organização padronizada, vinda de fora e que dita normas por onde a comunicação deve seguir. “Ele é não-desejo, mas também desejo. Não é uma noção, um conceito, mas antes uma prática, um conjunto de práticas. Nele a linguagem afirma uma vida em que a comunicação acontece em fluxos de corpos desterritorializados, atravessados por linhas que escapam aos normatismos que, por vezes, insistem em ditar seus efluentes por onde ecoam feixes comunicantes. Portanto, os bebês são atravessados por uma linguagem que perpassa discursividades em um “Corpo sem Órgãos” de maneira entrelaçada. Nele múltiplos encontros não palavreados ou balbuciados se efetuam em bebeversações que fazem os currículos se deslocarem. Assim, nos afetamos por essa mistura que nasce em tessituras emaranhadas no que não se alcança e espera de uma comunicação dita convencional ante os diversos modos de se relacionar dos/com os bebês. Segundo Foucault (2009), a linguagem nasce quase que em sua completude onde a transgressão atinge seu espaço, remetendo-nos a transitar pelas frestas comunicantes dos bebês, produzidas por algo que “falta” e transpõe limites. São esses supostos “vazios” que se constituem em singularidades em sua linguagem, sem que remetamos a eles modos padronizados de comunicar, apenas agindo por uma pedagogia que ocorre “[...] no próprio vazio da ausência de sua linguagem, lá onde precisamente as palavras lhe faltam” (Foucault, 2009, p. 36-37). Ressaltamos que a linguagem é permeada por “uma língua [que] é, antes de tudo, política” (Deleuze; Guattari, 2011, p. 49) e, portanto, a maneira como ela se organiza, como seus elementos são legitimados e como seus discursos circulam, está imersa em relações de poder e controle. Essa perspectiva nos permite pensar a língua como um campo de luta e resistência em relação aos bebês, no qual a subversão dos discursos dominantes é possível e fundamental para a transformação das relações de poder estabelecidas. Nesse contexto, as bebeversações surgem para além de simples maneiras de se comunicar, mas como modos discursivos de resistência e potência, desafiando as normas e estruturas pré-determinadas. Ao analisarmos as discursividades com Foucault (1987), todo discurso manifesto repousa sobre um "já-dito", um "jamais-dito", que é um vazio, uma ausência que perpassa o que é dito. Esse silêncio, que antecede e recobre o discurso, impede que o significado seja totalmente fixo, reverberando a mutabilidade do discurso. O “já-dito” não se refere simplesmente a um texto já escrito ou a palavras previamente enunciadas, mas a algo virtual, um "jamais-dito", um discurso que nunca se manifestou completamente, uma presença silenciosa que persiste como um sopro, como um vestígio sempre encoberto. Ao pensarmos com as bebeversações, movimentamos uma singularidade na relação com os bebês, que não pode ser totalmente contida ou determinada pelas normas estabelecidas, desafiando as estruturas preexistentes da linguagem para permear discursos que sempre se multiplicam nas relações coletivas. É preciso estar pronto para acolher cada momento do discurso em sua irrupção de acontecimentos, nessa pontualidade em que aparece e nessa dispersão temporal que lhe permite ser repetido, sabido, esquecido, transformado, apagado até nos menores traços, escondido bem longe de todos os olhares, na poeira dos livros (Foucault, 1987, p. 28). Há uma tendência de buscar incessantemente uma origem fixa para o discurso e a ideia de que toda manifestação discursiva repousa sobre a presunção de um sentido oculto pré-existente. Se seguíssemos ingenuamente uma cronologia, seríamos levados a buscar um ponto inicial que nunca se constitui de fato, um momento fundador que sempre escapa à determinação histórica. Ao tentar chegar à origem do discurso, ela se desloca para algo anterior, portanto, inalcançável e contínua. Dessa maneira, o discurso manifesto não seria mais do que a superfície de um campo discursivo mais profundo, cuja substância residiria naquilo que ele não diz, e não no que ele explicita. Com isso, as bebeversações se abrem para um universo com os bebês que não está dado e nem auferido categoricamente. No contexto com os bebês, podemos pensar a língua como um território, e nesse intento a linguagem se constitui em um processo de desterritorialização que coloca esse território em movimento no qual agenciamentos relacionam elementos linguísticos e não linguísticos (corpos, gestos, afetos) por meio de um movimento discursivo bebeversado que está sempre ligado às forças que o atravessam em meio a variações e processos de invenção, a depender dos agenciamentos com os quais se engendra. As bebeversações tratam, portanto, mais do que de uma linguagem em si; elas envolvem uma dimensão discursiva em um plano de imanência que não delimita o que é dentro ou fora, o que está por vir ou o que já ocorreu. Elas compõem as nuances de um devir-bebê que escapa às formas fixas da linguagem e se faz no entrelaçamento da reinvenção contínua. Sendo um modo de pensar a educação infantil a partir das bebeversações, podemos pensá-las como uma dobra que expande os encontros dos/com os bebês na escola, na qual se deixa afetar pelos modos singulares de entrar em relação com eles, criando espaços de experimentação. Para Deleuze (2012), é um movimento contínuo de interiorização e exteriorização, no qual o mundo se expressa em um jogo dinâmico. A dobra não separa, mas conecta, produzindo novos modos de existência e pensamento, perfazendo um processo incessante de diferenciação. Por meio das bebeversações não nos é possível mensurar uma linguagem dos bebês em apenas olhares, sorrisos ou palavras balbuciadas que as compõe, mas afetar-se com um plano de discursividades que exala sua potência em devir, pois as bebeversações versam por um discurso em que a linguagem se encontra nas frestas inauditas de uma pedagogia que reverbera o devir-bebê e dizem sobre sua força na educação infantil e na vida. Ao compor relações com uma pedagogia que bebeversa, embalançamos deslocamentos junto ao território que partilha o sensível, que se constitui de uma estética que não se estanca nem se decalca em moldes, ele vaza e se ocupa do encontro com as coisas sensíveis. Logo, Deleuze (2015) nos convoca a problematizar as questões que consideram o sensível inferior ao inteligível, uma divisão herdada de antigas concepções dogmáticas. Enquanto a estética foi frequentemente relegada a uma "filosofia inferior" das faculdades de sentir, a lógica, por sua vez, era considerada como o campo "superior" das faculdades de pensar. Podemos problematizar quando os bebês são colocados, em certas situações, em inferioridade com relação às crianças, por sua suposta inteligibilidade. Afirmamos com Deleuze (2015) a potência do devir-bebê, que por meio do sensível se abre a outros mundos possíveis. O autor desafia a dicotomia entre sensível e inteligível, ao propor uma integração intensiva entre pensamento e sensação, afirmando que um não pode existir sem o outro. Logo, pensar é mais do que apenas ter uma Ideia; é vivê-la, incorporá-la nos corpos. Deleuze (2013, p. 32) atenta que para encontrarmos com tudo o que não se vê na imagem “é preciso fazer buracos, introduzir vazios e espaços em branco” e por conseguinte suprimir dela o que foi acrescentado no intuito de nos fazer acreditar que víamos tudo. De outro modo, é preciso esvaziar ou repartir para fazer insurgir os bebês em devires bebeversados. Afastamo-nos do pensamento-representação para um pensamento como modo de criação, que conjuga entrelaces com o pensamento sem imagem e se afasta do que retilineamente a representação insiste em propor (Deleuze, 2021). Com isso, ousamos com um bebê sem imagem, que bebeversa discursividades e produz artistagens imagéticas para afetar e provocar sensações, sem a necessidade de ditar algo de modo prescrito. Afetamo-nos pelo imprevisível de um bebê, atravessado por uma pedagogia que bebeversa outros possíveis em currículos-movimento pelos territórios da educação infantil. Portanto, afirmarmos uma multiplicidade bebeversada em nome de um conceito que os expanda, que violente o pensamento daqueles que se afoitam em defini-los uniformemente e de todos os que se ajuntam nessa jornada. REFERÊNCIAS DELEUZE, Gilles. A dobra: Leibniz e o barroco. Tradução de Luiz B. L. Orlandi. 6. ed. 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