AS PERCEPÇÕES DE EDUCANDOS E EDUCANDAS E O DESCOMPASSO NA SEQUÊNCIA CURRICULAR Introdução O presente texto tem por finalidade refletir sobre a pesquisa desenvolvida para uma Dissertação de Mestrado, apresentada ao Programa de Pós-Graduação do Mestrado Profissional em Educação, que interrogou sobre as percepções dos educandos e educandas, e dos educadores e educadoras de uma escola pública de Portão/RS, sobre o descompasso na sequência curricular (idade/ano/série). Desenhou-se como objetivo compreender os processos pedagógicos que interferem nas aprendizagens de educandos/as de uma escola pública e que podem gerar o descompasso na sequência curricular. Com isso, o produto educacional foi criado para ouvir educadores/as e educandos/as de uma escola pública que possui uma organização curricular baseada no “Programa Acelera[1]”. O trabalho foi desenvolvido metodologicamente por meio de um círculo de cultura, resultando em um vídeo em formato de documentário, que contempla as vozes de educandos e educandas, que estavam na classe de aceleração e que se encontravam em situação de descompasso na sequência curricular nesta escola municipal, abordando suas relações e percepções, enquanto educandos/as, com relação ao ato de estudar, aprender, aprovar ou reprovar. Inicialmente, cabe um esclarecimento para a opção pela palavra “descompasso” ao invés da palavra “distorção”, escolhida para ser utilizada aqui por entendermos que não é o educando ou educanda que está em distorção, mas que há um descompasso entre sua aprendizagem e a organização curricular da escola. A fundamentação teórica do estudo contemplou principalmente as contribuições de Paulo Freire (2001), Bernard Charlot (2000), Maria Helena Souza Patto (1988) e Miguel Arroyo (2014), entre outros que contextualizam a questão do ‘fracasso’ e do ‘sucesso’ escolar. Entre os estudos sobre o fracasso escolar e as teorias que apontam seus possíveis motivos, destacamos a pesquisa de Patto (1988), por meio da qual é possível entender as diferentes visões, conforme o período e o entendimento de cada teórico, com destaque para a tendência à “culpabilização”. Patto (1988) traz as raízes históricas da concepção do ‘fracasso’ escolar, onde esses estereótipos recaem sobre as classes populares. Quando nos remetemos aos processos de exclusão social, vem à mente o ‘fracasso’ escolar que acompanha crianças e jovens que estão em descompasso na sequência curricular e, nesse sentido, Charlot (2000, p. 32) esclarece que o educando em situação de ‘fracasso’ é um estudante que nos faz pensar na sua posição escolar, nos conhecimentos, nas atividades e nas regras específicas da escola. O autor também destaca que esse educando é primeiramente uma criança ou um adolescente, ou seja, um sujeito confrontado com a necessidade de aprender com sua presença no mundo. Metodologia O lócus do desenvolvimento da pesquisa deu-se numa turma vinculada ao Programa Acelera, composta por 18 estudantes, sendo 06 meninas e 12 meninos, com idades entre 15 e 17 anos, que apresentam históricos de reprovações e abandono escolar, e com educadores de uma escola pública do município de Portão - RS, que se situa entre o Vale do Rio Caí e o Vale do Rio dos Sinos, nas proximidades da RS-240, na região metropolitana de Porto Alegre, com 34.072 habitantes pela estimativa populacional do IBGE de 2022. A escolha metodológica seguiu os princípios da dimensão qualitativa com a realização de Círculos de Cultura com os/as educandos/as e educadores/as da turma investigada, promovendo diálogos e registros conduzidos pelas pesquisadoras. Conforme Fiori (2014, p. 24), “o círculo de cultura — no método Paulo Freire — revive a vida em profundidade crítica”, constituindo um espaço de troca mútua de conhecimento. Assim, o Círculo de Cultura se estabeleceu como um ambiente participativo, estimulando a interação e colaboração entre os sujeitos envolvidos. Para a construção deste documentário, essa abordagem foi utilizada como metodologia, com o intuito de criar um espaço de diálogo onde a aprendizagem ocorre de forma coletiva, permitindo que todos expressem seus os seus sentimentos, ideias e opiniões. Análise e Discussão No documentário estão presentes as falas dos/as educandos/as, bem como de duas educadoras, da supervisora escolar e da diretora da escola. Ressaltamos que entendemos que “só podemos olhar o outro e sua história se tivermos conosco uma abertura de aprendiz que se observa (estuda) em sua própria história” (Freire, 2021, p.48). As questões norteadoras iniciais que guiaram os diálogos objetivando também a gravação do vídeo foram: O que a escola representa para ti?; O que você gosta mais na escola? O que você acha que poderia ser diferente?; Como você acha que deveria ser as questões do conhecimento?;Qual a tua relação com os colegas e educadores/as?; Como é estar na tua turma?; Que mensagem você deixaria de como deveria ser a escola ideal? É importante ressaltar que foram feitas gravações no entorno da escola, pois durante o Círculo de Cultura, com momentos de diálogos mediados por questões norteadoras, os/as educandos/as dialogavam sobre seus espaços de convivência e de lazer, fazendo - assim - uma correlação com a escola e a sua comunidade, bem como com suas aprendizagens formais e informais. O Círculo de Cultura consistiu em momentos de diálogos sobre a experiência escolar e sobre as perspectivas futuras dos estudantes, que compartilharam suas opiniões acerca da importância da educação, suas preferências entre as disciplinas e suas aspirações profissionais. Neste sentido, os estudantes tiveram a liberdade para escolher o espaço onde iriam gravar como também puderam escolher em estarem sozinhos, em duplas ou em grupos, nestes momentos. Os jovens destacaram a importância da escola como um espaço de aprendizado e desenvolvimento pessoal, apesar das dificuldades enfrentadas, tanto no âmbito escolar, como em suas vidas pessoais e familiares. Discutiram sobre a relevância das disciplinas como matemática e história, bem como a necessidade de um currículo mais prático e voltado para o mundo do trabalho. Também mencionaram projetos escolares, como o de prevenção ao uso de drogas, que teve sucesso em contribuir para a recuperação de um de seus colegas. A conversa revelou a importância da educação na formação de um futuro melhor e nas oportunidades de trabalho. Tem mais oportunidade, acho, pra frente. Um futuro bom, pra tu estudar, pra saber que tu vai ter um trabalho bom, entendeu? A escola é como se fosse a nossa segunda casa, sei lá, tipo, mas às vezes é melhor, sabia? Porque em casa a gente tem muitas brigas, mas na escola a gente se sente melhor, na escola do que em casa. O que a gente mais gosta da escola é, eu gosto, de matemática, o lanche que é muito bom, e a educação física também é muito boa. (Educanda B). Acima, extraímos um trecho de fala, onde a educanda reflete sobre a sua vida e o tempo na escola. Chama atenção a distinção entre a escola e a casa: “Porque em casa a gente tem muitas brigas, mas na escola a gente se sente melhor, na escola do que em casa”. A estudante nos ajuda pensar e demarca as possibilidades que a escola tem para ser um espaço de construção de identidades, de pertencimento. As educandas iniciaram a discussão refletindo sobre a passagem do tempo e a importância de aproveitar cada dia. Falaram sobre como a vida é feita de oportunidades e como é importante não apressar as coisas sem saber aonde se quer chegar. O processo de escuta precisa permear as ações pedagógicas que se constroem dentro da escola, nos processos de avaliação, de organização curricular e dos espaços. Arroyo (2014, p.37) destaca que: “vincular outros sujeitos com outras pedagogias supõe indagar quem são esses Outros na especificidade de nossa história e reconhecer com que pedagogias foram inferiorizados [...]”. Assim, poderíamos refletir sobre os jovens envolvidos nessa pesquisa, indagando sobre quem são eles. Afinal, a escola tem a compreensão sobre quem de fato são eles e elas? Afinal, quais as relações entre o saber que a escola produz e os saberes que os estudantes trazem consigo? Será que a escola como um todo busca uma Pedagogia que supere as reprovações enfrentadas por esses/as educandos/as? Destacamos outra fala de um jovem, que traz como ponto de reflexão as relações dos saberes, sejam eles científicos produzidos pela escola, como os saberes populares, que estão na comunidade. O professor tem que aceitar a ideia que a gente traz. De fora, como é dito. Talvez, mas então... Que pô, a gente... Saber uma coisa lá de fora, o conhecimento de fora e trazer pra dentro da escola. (Educando A). Nesta fala, podemos perceber a necessidade que os jovens sentem com relação às seus saberes onde este conhecimento produzido dentro da escola precisa fazer sentido para os conhecimentos que acontecem fora dos muros da escola, ou seja, que se relacionam com a vida da comunidade na qual a instituição está inserida, por meio de uma educação contextualizada e participativa. Para Charlot (2000), o entrelaçamento do aprender com o saber perpassa as relações que são estabelecidas ao longo dessa caminhada dentro e fora da escola. Pensar o processo é pensar nas inúmeras formas com que a educação pode atingir de fato o educando e a educanda que ocupa o espaço da escola, percebendo-o como um espaço legítimo para a sua aprendizagem e para a sua subjetividade. Arroyo (2014, p. 81) fala sobre a importância de humanizar os espaços do viver, onde a escola adquire outras funções quando o direito ao tempo/espaço se articula com o direito a tempos/espaços de um justo e digno viver. Tonozi-Reis (2006) nos ajuda a entender que a materialização da educação crítica e transformadora exige vivacidade e dinamismo dos conhecimentos, pois os conhecimentos se dão por meio de uma construção “[...] dinâmica, coletiva, cooperativa, contínua, interdisciplinar, democrática e participativa”, pois este seria o caminho para “[...] uma prática social emancipatória, condição para a construção de sociedades sustentáveis” (Tonozi-Reis, 2006, p. 97). A educação é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento social, cultural e econômico de uma sociedade. No entanto, ela enfrenta desafios significativos, sobretudo diante das crescentes ondas de neoconservadorismo e das violências de ordem socioeconômica, política e ambiental. Diante desse cenário, é essencial fortalecer políticas públicas inclusivas, ampliar o acesso a uma educação crítica e emancipatória e garantir a formação permanente dos profissionais da área. Somente por meio de um ensino que promova a reflexão, o respeito à diversidade e o compromisso com a justiça social será possível construir uma sociedade mais equitativa e preparada para os desafios do futuro. O descompasso na sequência curricular, ou seja, uma inadequação entre o que é ensinado nas escolas e as reais demandas da sociedade contemporânea se agrava nesse contexto, tornando a formação educacional cada vez mais distante das necessidades. Dentro desta perspectiva, destacamos a importância deste olhar para o entendimento deste processo de aprendizagem e sequencial que acompanha a educandos/as, respeitando-se seus tempos, espaços e saberes, opondo-se ao neoconservadorismo que dentro de suas premissas visa a meritocracia, competição escolar e a culpalização dos sujeitos pela sua reprovação e por consequência seu ‘fracasso escolar’. Considerações Finais A presente pesquisa buscou compreender as percepções dos/as educandos/as, bem como de suas educadoras, sobre o descompasso na sequência curricular e seus impactos no processo de ensino-aprendizagem. O documentário produzido permitiu dar voz a esses sujeitos, revelando suas vivências, desafios e expectativas em relação à escola e ao próprio aprendizado. Os relatos dos estudantes evidenciaram a importância de uma escola que dialogue com suas realidades, valorizando seus saberes e proporcionando um ensino que seja significativo e emancipatório. A escuta ativa desses sujeitos demonstra a necessidade de repensar as práticas pedagógicas e os modelos curriculares, para que atendam às especificidades dos educandos e garantam seu direito à aprendizagem. A partir das contribuições de Freire, Charlot, Arroyo e outros teóricos, compreendemos que a superação do ‘fracasso escolar’ passa pelo reconhecimento da escola como um espaço de construção coletiva do conhecimento, no qual a educação seja um meio de transformação social e de valorização dos sujeitos. O descompasso curricular não deve ser tratado como uma falha do estudante, mas como um reflexo das estruturas educacionais que precisam ser revistas e adaptadas para promover uma educação mais justa e inclusiva. Percebemos então que muitos/as desses/as educandos/as acabaram se perdendo nesse descompasso na sequência curricular. Pela pesquisa, também sinalizamos que a educação precisa se “transformar” para que de fato possa atingir a todos e todas que por ela perpassam, problematizando a naturalização dos processos de exclusão que ocorrem dentro da escola e por consequência geram a reprovação. Por isso, o desafio também está na permanência dos jovens nos espaços escolares, com propostas pedagógicas que se articulem com a Educação de Jovens e Adultos – EJA. O descompasso curricular e o avanço do neoconservadorismo representam ameaças à construção de uma educação emancipadora. Diante das violências socioambientais e políticas, a escola deve se posicionar como um espaço de resistência e transformação, promovendo o conhecimento crítico e incentivando a participação ativa dos estudantes na construção de uma sociedade mais equitativa e sustentável. Para isso, é necessário um esforço coletivo de educadores, pesquisadores, gestores e da sociedade civil para garantir que a educação continue sendo um direito fundamental e uma ferramenta essencial para a justiça social. REFERÊNCIAS ARROYO, Miguel G. Outros Sujeitos, Outras Pedagogias. 2.ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artmed, 2000. FIORI, Ernani Maria. Prefácio: Aprender a dizer a sua palavra. In: FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 56. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014. FREIRE, Madalena. Educador: educa a dor. 10ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021. FREIRE, Paulo. A Educação na Cidade. Cortez, São Paulo, 2001. PATTO, Maria Helena Souza. O fracasso escolar como objeto de estudo: anotações sobre as características de um discurso. Cadernos de Pesquisa. São Paulo. p. 72-77, maio. 1988. TOZONI-REIS; Marília Freitas de Campos. Temas ambientais como “temas geradores”: contribuições para uma metodologia educativa ambiental crítica, transformadora e emancipatória. Educar, Curitiba, n.27, p. 93-110, Editora UFPR, 2006. [1] O Programa ‘Acelera’ visa corrigir a “distorção idade/ano/série”, para educandos/as que estão dois ou mais anos fora da sua sequência curricular correta. Desta maneira, os/as educandos/as cursam dois anos em apenas um ano. Exemplo: (6º/7º ano).