APRENDIZAGEM DA DOCÊNCIA E FORMAÇÃO: TRABALHO, CASAMENTO E MATERNIDADE NOS RELATOS DE PROFESSORAS DE ESCOLAS LOCALIZADAS NO CAMPO

- 216147
Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
APRENDIZAGEM DA DOCÊNCIA E FORMAÇÃO: TRABALHO, CASAMENTO E MATERNIDADE NOS RELATOS DE PROFESSORAS DE ESCOLAS LOCALIZADAS NO CAMPO INTRODUÇÃO O texto apresenta parte dos resultados de uma pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Educação, no curso de Mestrado. O estudo teve como questionamento como se constitui a aprendizagem da docência na trajetória de professoras de crianças que atuam nas escolas no campo do município de Ipiranga/PR, tendo como objetivo compreender como a aprendizagem da docência se constitui no processo formativo de professoras que atuam na Educação Infantil, em escolas localizadas no campo[1] no município de Ipiranga/PR. Um dos objetivos específicos buscou caracterizar a trajetória formativa das professoras que atuam na Educação Infantil no contexto rural. Na investigação observou-se que trabalho, casamento e maternidade foram fatores presentes nos relatos das professoras, indicando a necessidade de analisar seus impactos na formação das docentes. O estudo de abordagem qualitativa teve como metodologia as narrativas autobiográficas (Flores; Mello, 2022), roda de conversas e entrevista semiestruturada com três professoras de crianças que atuavam em escolas rurais. Fundamentou-se nos conceitos de aprendizagem da docência e formação docente (Mizukami et al, 2010; Freire, 2023) e Educação do Campo e educação no território do campo (Souza, 2020). Considera-se que a docência se constitui por conhecimentos pedagógicos e aqueles que vão sendo apropriados ao longo da vida, da formação inicial e continuada, das aprendizagens e práticas cotidianas. No processo de aprendizagem da docência, a reflexão e a transformação são elementos fundantes, uma vez que “é pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática” (Freire, 2023, p. 40). O movimento reflexão-transformação na aprendizagem da docência (Mizukami et al., 2010), articula as diversas experiências pessoais e profissionais, vivências socioculturais e modos de apropriação do conhecimento, sendo a “[...] reflexão sobre a ação pedagógica considerada uma estratégia poderosa e formativa para professores [...]” (Mizukami et al., 2010, p. 47). O texto se organiza a partir dessa introdução, seguida da metodologia utilizada na pesquisa, a discussão dos dados produzidos no estudo e as considerações finais. METODOLOGIA A pesquisa qualitativa (Bicklen; Bogdan, 1994), baseou-se nas trajetórias de aprendizagem da docência de 3 professoras de escolas localizadas no campo do município de Ipiranga/PR, que no ano de 2023 atuavam na pré-escola. Naquele ano, o município possuía 10 escolas municipais, sendo 6 delas localizadas em território rural, fator relevante para a delimitação da investigação. Haviam 12 professoras atuando na Educação Infantil das escolas rurais; 3 participaram das etapas consideradas neste trabalho, por demonstrarem interesse e disponibilidade. Os instrumentos utilizados na geração de dados foram as narrativas autobiográficas elaboradas pelas participantes, a roda de conversa e a entrevista narrativa. O material gerado foi tratado por meio da análise das narrativas autobiográficas, tendo como referencial Souza (2006) apud Souza (2014) “[...] na ideia metafórica de uma leitura em três tempos, por considerar o tempo de lembrar, narrar e refletir sobre o vivido.” (p. 43). Esta abordagem permitiu analisar as vivências das docentes que constituíram suas aprendizagens da docência. No Tempo I: Pré-análise/leitura cruzada, acontece a leitura das narrativas autobiográficas, levando-se em consideração o grupo pesquisado. No Tempo II - Leitura temática – unidades de análise descritivas, que está vinculada à leitura cruzada e consiste em organizar, por meio de um criterioso processo de reflexão, as unidades de análise, através da análise compreensiva-interpretativa. E o Tempo III - Leitura interpretativa-compreensiva, tempo que se constitui a partir de retomada das leituras, para que se analise todas as informações estabelecidas nas narrativas. Esta leitura aprofundada promove possibilidades de melhorias para o processo de pesquisa. Na apresentação dos dados, foram utilizados nomes fictícios indicados pelas participantes para preservar a identidade. Também, são indicados os meios pelos quais os dados foram gerados: NA (narrativa autobiográfica), RC (roda de conversas) e EN (Entrevista Narrativa). RESULTADOS E DISCUSSÃO Narrar sobre si para alguém é um processo importante em pesquisas que se propõem a compreender os processos de aprendizagem da docência. Nesta pesquisa, as professoras participaram narrando e descrevendo momentos do processo individual de aprender a ser professora. Nas interações com as participantes por meio de suas narrativas, pode-se identificar que, por caminhos diversos, o processo de aprendizagem da docência é permeado - trabalho no campo, casamento e maternidade. No Quadro 1, é apresentado o caminho que cada uma percorreu para chegar à docência. QUADRO 1 – Caminhos para a docência – a aprendizagem da docência Professoras O início de tudo Instrumento de geração de dados Lívia […] Irmã mais velha de três filhos, sempre tive cuidado com eles, auxiliava minha mãe para cuidá-los. Nas nossas brincadeiras, recordo-me que eu era a professora e eles, meus alunos. A partir desse cuidado, decidi seguir a profissão que é professora, mas também eu tinha um sonho em ser médica veterinária, pois também auxiliava meus pais na leiteria e sempre gostei do campo [...] [...] minha família é dos dois lados, do lado na minha mãe, do meu pai são professores [...] NA e EN Maria [...] aos 6 anos. Na mente 2 sonhos fervilhavam a cabeça: Ser Professora? Ou ser cantora? Eis a questão... NA Laís Quando comecei meus trabalhos com o Fundamental 1, já tinha 13 anos de caminhada na disciplina de História. NA Fonte: Sistematização das autoras, 2025. Nos relatos de Lívia e Maria, constatou-se que desde crianças, tinham o desejo pela docência, mas também, por outras áreas de trabalho, ambas optaram pela docência, profissão que indicam gostar. As práticas vivenciadas na infância ou no início da carreira e convívio com familiares que atuavam na área tornam-se referências para a definição da profissão. Os limites impostos pelo contexto foram determinantes na opção pelo Magistério. Ser cantora, ser veterinária, foram intenções deixadas em decorrência dos obstáculos impostos ao trabalhador do campo. Um dos fatores decisivos para esse abandono, diz respeito as instituições de ensino superior estarem distantes, exigindo das famílias um suporte financeiro que não possuem. Laís não narrou como foi o processo de escolha ou desejo pela docência. O trabalho em outra disciplina e etapa de ensino, momentos que geraram transformações internas e externas, foram trazidos como elementos que fundamentaram sua trajetória docente. Aspecto que se evidencia nas narrativas, é o fato das participantes se reconhecem como mulheres do campo, cujo trabalho na lavoura perpassa a vida durante a formação inicial. Vale ressaltar que o fator gênero não se apresentava em primeiro plano na pesquisa, mas foi revelado na interrelação dos dados, por serem mulheres, casadas, mães, nascidas no campo, advindas de famílias campesinas, cujas vidas se constituem do trabalho. As mulheres do campo trazem as marcas dos condicionantes que induzem à docência como um caminho possível para que continuem exercendo um papel social no contexto em que vivem – esposa, mãe. “A vida na escola é traçada pela identificação pessoal com a formação das crianças e pelo trabalho como extensão da casa e da lavoura” (Souza, 2020, p. 1361). Obtivemos nas narrativas oral e escrita de Laís, essa justificativa, A gente em casa foi assim, o pai, toda vida trabalhou no fumo, e a gente saía um pouquinho antes das 4 do serviço, pra tomar banho e comer, porque o ônibus passava quatro e meia, o VINSA (Empresa de ônibus). A gente ia até no Cunha, ficava esperando até cinco e vinte mais ou menos, quando passava o ônibus, ia pra Irati, voltava meia-noite, posava nos parentes, ia no outro dia cedo de VINSA, trabalhava de novo até aquele período e assim foi. Daí quando o pai comprou carro a gente já ia mais tarde, e voltava mais cedo, porque o ônibus passava perto, pra voltar. Mas também né, bem depois só que a gente passou ao transporte, era tudo pago. (Professora Laís, 2023, RC) Revelam-se os obstáculos vivenciados para a efetivação da formação docente e que marcaram a aprendizagem da docência da Professora Laís. Os desafios para buscar o processo formativo, fazem parte das narrativas das docentes do município. Além de longos trajetos percorridos e devido às realidades de trabalho no campo, as participantes estudavam no período noturno, tal como relata a Professora Maria. Em 2006 iniciei no Curso de Formação de Docentes – Subsequente. [...] Os dois anos estudando foram à noite, todos os dias de segunda a sexta. Não foi nada fácil, mas o marido apoiava. (Professora Maria, 2023, NA). A luta da mulher do campo na busca por reconhecimento, valorização e pelas condições de vida digna, foram identificados na narrativa de Lívia também, [...] sempre gostei do campo, da tranquilidade e simplicidade. Mas naquela época não existia medicina semipresencial e se eu quisesse ser veterinária teria que ir morar na cidade. Como eu estava namorando e sempre tive apoio do meu marido em meus estudos, ingressei no modo online (EAD) o curso de Pedagogia, no final de 2013. [....] Em 2016 nasceu meu filho, faltava um ano para concluir a faculdade. Confesso que foi muito difícil, noites mal dormidas, casa, trabalhos da faculdade, estava muito esgotada, mas não tranquei a faculdade, pois sempre almejei ser independente financeiramente e ter minha profissão. [...] várias vezes de eu resisti por ter um bebezinho. Quantas vezes de eu saí chorando de deixar ele chorando pra ir trabalhar né, eu ficava pensando muito nele [...]. (Professora Lívia, 2023, NA) Desde criança morando no território rural, a Professora Lívia tinha o sonho de seguir uma profissão que se identificava com o seu trabalho no contexto familiar, mas a distância da instituição de ensino que ofertava curso de medicina veterinária e a falta de recursos financeiros; teve que seguir o caminho da docência, único possível em sua condição de mulher do campo, casada e com filhos. Na narrativa, expressa que desistir de ser veterinária está relacionado à falta de oportunidades. Um fator ligado a estes, diz respeito ao fato de, na época, estar namorando. Além do casamento, a maternidade se constituiu em um desafio a mais no processo de finalização da formação inicial. Compreender como os caminhos para a docência são percorridos, permite entender o que caracteriza as docentes do campo e os processos de aprendizagem, uma vez que, [...] a formação do professor deverá partir da auto-análise de sua ação e de seus pensamentos – considerando, para tanto, o domínio de suas competências profissionais, com base no estudo de teorias e metodologias de investigação e na análise dos dilemas da prática. (Mizukami et al, 2010, p. 103). A ação reflexiva se constitui na tomada de consciência de si como docente. A professora Maria apresenta acontecimentos que influenciaram sua aprendizagem da docência: [...] (Em) 2001 os planos seriam cursar magistério por influência de minha mãe, mas nesse tempo o “desgoverno” sessou o curso de formação de docentes. […] Na época a hipótese de cursar uma faculdade não fazia minha cabeça. [...] Em outubro de 2004 encontrei meu namorado que se tornou meu marido […] em 30/07/2005 casamos. Contudo as ocupações da vida de casada me vi na vontade de trabalhar, mas então trabalhar em quê? Era preciso estudar. (Professora Maria, 2023, NA). O “desgoverno” citado pela Professora Maria, diz respeito aos “jogos de interesse”, que são definidos e afetam o processo de formação, especialmente em municípios menores, em que as políticas de formação de professores incidem nos processos formativos de pessoas do campo. Em sua trajetória, o trabalho aparece como uma necessidade que mobiliza o retorno aos estudos, agora, como mulher casada. As análises realizadas apontam que aprendizagem da docência envolve um processo contínuo de conhecimento e de trabalho pautado na relação entre a teoria e a prática, permeados pela vida dessas mulheres do campo, cuja trajetória é marcada pelos lugares sociais que ocupam, enquanto trabalhadoras, mães, esposas. CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa expôs que a aprendizagem da docência das professoras que atuam com crianças pequenas em escolas localizadas no campo em Ipiranga/PR se constitui a partir de suas vivências e são marcadas pelo trabalho, pelo casamento e maternidade, e por experiências de vida no enfrentamento de muitos desafios como estudar à noite, após um dia de trabalho, com trajetos distantes. A docência surgiu mais como uma possibilidade do que como um desejo, ainda que as docentes expressem que gostam da docência. O trabalho da mulher no campo, o casamento e a maternidade foram citados como fatores desafiadores no processo formativo e na atuação no trabalho docente, que caracterizam a aprendizagem da docência das profissionais que atuam na educação infantil, em escolas localizadas no campo no município, permitindo a elas vivenciarem a formação sem se eximir da luta por serem reconhecidas profissionalmente como mulheres e professoras do campo. As análises apontam para a necessidade de valorizar o diálogo e o aprofundamento das temáticas levantadas, indicando a necessidade de pesquisas que se preocupem em discutir e dar visibilidade aos espaços de reflexão sobre o trabalho docente e os intervenientes que os constituem. REFERÊNCIAS BICKLEN, S. K.; BOGDAN, R. C. Investigação qualitativa em Educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Editora, 1994. FLORES, J. I. R. et al. Ética, responsabilidade e trabalho coletivo na pesquisa narrativa. In: MELO, A. de; FLORES, J. I. R. (Orgs.). Pesquisa narrativa: teoria, práticas e transformação educativa. 1. ed. Curitiba: Appris, 2022. p. 85-102. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 76. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023. MIZUKAMI, M. da G. N. et al. Escola e aprendizagem da docência: processos de investigação e formação. São Carlos: EdUFSCar, 2010. SOUZA, M. A. de. Pesquisa educacional sobre MST e Educação do Campo no Brasil. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 36, e208881. 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0102-4698208881. Acesso em: 18 jul. 2022. SOUZA, E. C. de. Diálogos cruzados sobre pesquisa (auto)biográfica: análise compreensiva-interpretativa e política de sentido. Revista Educação, Santa Maria, v. 39, n. 1, p. 39-50, jan./abr. 2014. [1] No município de Ipiranga as escolas da rede municipal localizadas no campo são nomeadas como escolas rurais, não tendo desenvolvida uma identidade a partir do movimento de Educação do Campo.

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