Ainda estamos aqui.Artes, Cotidianos e Resistência.

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Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
AINDA ESTAMOS AQUI – ARTES, COTIDIANOS E RESISTÊNCIA A mobilização nacional em torno da indicação do filme “Ainda estou aqui” (2024), de Walter Salles, ao Oscar de 2025 e as decorrentes discussões acerca da obra nos encontros familiares, nas mesas dos bares, cafezinhos e reuniões de trabalho; na mídia e nas redes sociais nos fez confirmar as dimensões éticas, estéticas, políticas e poéticas das artes em nossas vidas, ultrapassando a concepção eurocêntrica das Belas Artes, como bem cultural elaborado e usufruído por privilegiados. Com várias indicações ao Oscar, o romance de Marcelo Rubens Paiva, um dos filhos do deputado com a protagonista, Eunice Paiva, recebeu o Oscar de melhor filme internacional, concedendo pela primeira vez a estatueta ao Brasil. Tais indicações tiveram ampla divulgação no país, ressaltando a importância do audiovisual e de seu potencial de mobilizar milhares de pessoas, durante semanas, a irem ao cinema, mesmo diante das controvérsias de uma campanha contra a sua circulação por parte de “perfis de direita” ou neoconservadores que alegavam que a história é inverídica e que Fernanda Torres teria “preconceito contra os crentes[1]”. A partir desse panorama e movidas pela arte para além do filme, buscamos observar como as inúmeras manifestações artísticas fazem parte do que somos, como elas podem nos direcionar para outras paisagens ou delinear o que poderemos nos tornar social e culturalmente. Para Certeau (2000) fazemos “usos” e experimentamos de formas diversas tudo aquilo que nos é apresentado nas mais diversas ocasiões. E a “cultura”, essa palavra tão “grande”, mas com tantos significados e sentidos, acaba tendo “hoje a conotação de um trabalho que deve ser realizado em toda a extensão da vida social” (Certeau, 2001, p. 192). Por esse motivo, impõe-se uma operação preliminar que vise a determinar, no fluxo fecundo da cultura: um funcionamento social, uma topografia de questões ou tópica, um campo de possibilidades estratégicas e das implicações políticas (Certeau, 2001, p. 192). Assim, as ações e narrativas referentes à cultura são passíveis de “[...] um funcionamento social […] um campo de possibilidades estratégicas [...]”, muitas interpretações, em que seus significados estão ligados a valores, a campos de forças e a relações de poder, nos “traços dos homens cultos, [...] como patrimônio das obras que devem ser preservadas, difundidas [...], na imagem, percepção ou na compreensão do mundo próprio a um meio (rural, urbano, nativo etc.) ou a uma época [...]” (Certeau, 2001, p. 194). Mesmo quando significa se diferenciar do inato, como aquilo que foi adquirido, ou ainda quando indica comportamentos, dentro de uma perspectiva antropológica, a palavra se transforma em função de seus usos e suas conotações políticas. No grupo do qual fazemos parte, utilizamos as conversas como metodologia de pesquisa e como movimentadoras de pensamentos acerca de como as artes, em suas diversas manifestações, estão presentes em nossas redes educativas (Alves, 2019) independente dos acessos que nos são negados. Elas estão aqui ... nas nossas casas, nas ruas, nas conversas entre amigos, nas salas de aulas, nas escolas de samba e em tantos outros ‘espaçostempos’ que escapam das salas de cinema ou teatros, dos museus ou centros culturais. Pudemos observar esse movimento mais fortemente quando o rosto de Fernanda Torres, vencedora do Globo de Ouro (2025) por protagonizar Eunice Paiva, se transformou em máscaras de papel e acompanhou milhares de blocos carnavalescos pelas ruas de todo o país. As fantasias douradas simulando a estatueta do Oscar, as placas coloridas com frases do filme e até os memes com “A vida presta!”, frase dita por Fernanda em uma de suas entrevistas e que faz menção à celebração da vida independente dos altos e baixos, viralizaram pelo ciberespaço nos provocaram a pensar nas redes de ‘práticasteorias’ de criação e uso das artes (Alves, 2019a) e em sua potência de criação e resistência nos cotidianos frente à onda neoconservadora e de violências sócio-político-ambientais que se espalham incredulamente pelo mundo a fora. Além disso, quando também nos propomos a mergulhar nas pesquisas ‘nosdoscom’ os cotidianos e direcionar os nossos sentidos – e não somente os olhares – para o “chão das escolas”, percebemos novamente o quanto a educação é fundamental para a consolidação de políticas, éticas e poéticas que nos acompanharão ao longo da vida. Os modos com que tecemos diferentes ‘conhecimentossignificações’ ou como ‘ensinamosaprendemos’ através das redes de 'práticasteorias' pedagógicas cotidianas, serão sempre únicos, variados, imprevisíveis e, por vezes, surpreendentes. Analogamente, podemos entender o chão das salas de cinemas, dos palcos, das bibliotecas, das galerias também como lugar de tessitura de ‘conhecimentossignificações’ múltiplos. Temos aí uma rede potente que nos afeta direta e coletivamente que são as redes das 'práticasteorias' de criação e "usos" das artes. Através e por meio dessas ‘práticasteorias’ das artes ficamos imersos a todos os sentidos, onde sons, textos, imagens, cores, formas, movimentos e sabores nos alimentam e alimentam nossos cotidianos. As artes como condição de humanidade, rompem o padrão da modernidade ocidental capitalista que as colocam no lugar do supérfluo, do desnecessário ou da mercadoria, só tendo valor se for comerciável. Artes não como “a cereja do bolo” nem como “a pérola que vamos dar aos porcos”, expressões que já ouvimos algumas vezes e que expressam uma classificação preconceituosa que dicotomiza as culturas entre erudita e popular. Trazemos neste resumo um pouco dos trabalhos que estamos desenvolvendo e nos envolvendo, com a ideia de “pensarsentirviver” as pesquisas com os cotidianos através das manifestações artísticas como expressões singulares, que agem diretamente no coletivo, nos movimentos dos corpos envolvidos, nos processos experimentados, no emaranhado de sensações, emoções, textos, imagens e falas. Nas dimensões estéticas e poéticas que se apresentam como resistências e “fluxos desejantes libertários” (Gallo, 2009, p. 34) de novas ações cotidianas, que desejam que pesquisas como essa não se esgotem em possibilidades de reverberações e movimentações políticas e éticas, seja nas escolas ou nas miudezas das ruas, esquinas, lares, cinemas... A história de Eunice Paiva nos inspira a continuar acreditando nos nossos sonhos e nas possibilidades de um mundo melhor e mais justo. E o filme, as artes, reafirmam como tecemos nossas vidas em redes de potência, criação e resistência à imposições, ordens descabidas e violências sócio-político-ambientais. As artes transbordam afetos, coragem e ousadia que deslizam da ilusão de controle e se esparramam pelo desejo de explorar e admirar novas paisagens. -“Não precisam sorrir. - Por que não? - O editor pediu. -Pediu o quê? -Uma foto menos feliz. - Nós vamos sorrir. Sorriam![2]” REFERÊNCIAS: ALVES, Nilda. Sobre as redes educativas que formamos e que nos formam. In Alves, Nilda. Práticas pedagógicas em imagens e narrativas - memórias de processos didáticos e curriculares para pensar as escolas hoje. São Paulo: Cortez, 2019a, p. 115-133. ALVES, Nilda. Sobre os tantos recursos pedagógicos nas escolas. In: Alves, Nilda. Práticas pedagógicas em imagens e narrativas - memórias de processos didáticos e curriculares para pensar as escolas hoje. São Paulo: Cortez, 2019b, p. 44-50. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 2000. CERTEAU, Michel de. A Cultura no plural. 2ª ed. São Paulo: Ed Papirus, 2001. GALLO, Silvio. A Vila: microfascismos, fundamentalismo e educação. In: GALLO, Silvio; VEIGA-NETO, Alfredo (Orgs.). Fundamentalismo e Educação – A Vila. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. p. 17-35. [1] Informações retiradas do site: https://www.terra.com.br, acesso em 9 de março de 2025. [2] Diálogo do filme mencionado entre o fotógrafo e Eunice Paiva, que organiza uma foto da família de Rubens Paiva para sair na revista Manchete, depois que ele desapareceu.

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Institutions
  • 1 UERJ - PROPED - Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Track
  • GE Cotidianos - éticas, estéticas e políticas