A INTERAÇÃO COMO BASE DO DESENVOLVIMENTO NOS GRUPOS DE COMPARTILHAMENTO: UMA PERSPECTIVA HISTÓRICO-CULTURAL A formação de professores, tanto inicial quanto continuada, é um pilar fundamental para o aprimoramento do sistema educacional. No Brasil, essa temática tem despertado crescente interesse e motivado pesquisas em diversas instituições de ensino superior. Essa preocupação impulsionou a parceria entre docentes vinculados a instituições de ensino, abrangendo quatro universidades federais, duas universidades estaduais e um instituto federal, de diferentes regiões do Brasil. A busca por aperfeiçoar a formação de professores motivou docentes destas instituições a unirem esforços, resultando na criação de um projeto interinstitucional, financiado pelo CNPq. Para viabilizar a execução do projeto, os docentes envolvidos criaram Grupos de Compartilhamento - espaços de interação e construção coletiva que se tornaram o foco central desta investigação, que se refere a uma pesquisa de doutorado em andamento. Observamos 18 sujeitos que integram tais grupos, que possuem formação acadêmica predominantemente em Licenciatura em Matemática e em Pedagogia, com destaque para a área da educação em seus diversos níveis (graduação, mestrado e doutorado). Cada Grupo de Compartilhamento é acompanhado por um gestor que é o coordenador dos Grupos de Estudos e Pesquisas envolvidos. Ele é responsável por direcionar discussões e ações para os propósitos do projeto. A organização inclui encontros online (via Google Meet), reuniões presenciais, momentos de reflexão, estudos e ações em escolas da educação básica. Tendo como base a premissa de que o desenvolvimento humano e a construção da individualidade ocorrem por meio da interação entre os sujeitos, em consonância com a visão de Vygotsky (1999) de que nos tornamos nós mesmos a partir do outro, este estudo tem como objetivo investigar o papel da interação no desenvolvimento de professores em Grupos de Compartilhamento, especificamente no contexto do projeto citado. A pesquisa se fundamenta na Teoria Histórico-Cultural que concebe o desenvolvimento humano como um processo social e culturalmente mediado. A interação, a linguagem e a cultura são elementos centrais nessa teoria, que destaca a importância da zona de desenvolvimento proximal (ZDP) como espaço de desenvolvimento. Conforme Vygotsky (1998) a ZDP refere-se à distância entre o que um indivíduo já é capaz de fazer sozinho e o que ele pode fazer com a ajuda de um outro mais experiente. Nos Grupos de Compartilhamento, essa zona pode se expandir consideravelmente devido à diversidade de vivências e conhecimentos dos participantes. Leontiev (1978b, p. 261) afirma que “[...] o homem é um ser de natureza social, que tudo o que tem de humano nele provém da sua vida em sociedade, no seio da cultura criada pela humanidade”. O pressuposto de que o ser humano é um ser social, que se desenvolve através das relações que vai estabelecendo, encontra ressonância nos Grupos de Compartilhamento do projeto. Adotamos uma metodologia que se inspira no materialismo histórico-dialético de Karl Marx (1818-1883) que considera o desenvolvimento histórico e as relações sociais entre participantes como elementos importantes na análise. Para a produção de dados, foram utilizados os seguintes instrumentos: i) Questionário - aplicado aos participantes - teve como intenção levantar informações sobre o perfil dos participantes, suas experiências nos grupos, suas percepções sobre as interações que são estabelecidas e seus impactos na prática pedagógica; ii) Sessões reflexivas - intenta acompanhar e aprofundar a compreensão das dinâmicas de interação nos grupos. As sessões foram conduzidas de forma a estimular a reflexão individual e coletiva sobre experiências vivenciadas nos grupos, práticas de compartilhamento e desafios enfrentados. Para complementar a produção de dados, foram analisados documentos como registros em áudio e vídeo de reuniões e seminários integradores desenvolvidos pelos grupos que integram o projeto. A análise foi realizada de forma a considerar a perspectiva da Teoria Histórico-Cultural, buscando compreender como interações sociais nos grupos influenciam o desenvolvimento dos participantes. Os dados foram analisados a partir de três isolados: i) Dimensão histórica; ii) Dinâmica de participação e organização compartilhada e, iii) Impacto e transformação. Cada isolado revela percepções e experiências dos participantes, contribuindo para a compreensão do fenômeno investigado - dinâmica que envolve a formação continuada dos participantes que estão vinculados ao projeto interinstitucional. A análise do isolado Dimensão histórica dos Grupos de Compartilhamento revelou a importância de compreender a trajetória e a evolução desses espaços de formação continuada. Os grupos, com diferentes características e tempos de existência, demonstraram uma capacidade de adaptação às mudanças no contexto educacional e às necessidades dos participantes. Também evidenciou a importância da memória coletiva dos grupos, que se manifesta nos modos de organização. Essa cultura contribui para a construção de uma identidade própria de cada grupo e para a transmissão de conhecimentos e valores entre os participantes. O isolado Dinâmica de participação e organização compartilhada revelou que a diversidade de experiências e conhecimentos dos participantes, expressa pelo tempo de experiência e pela formação acadêmica que abarca Licenciados em Matemática e em Pedagogia, mestres e doutores em Educação ou cursos afins, enriquece as discussões e promove a construção de uma coletividade de prática de compartilhamento. A interação entre membros com diferentes níveis de experiência e formação permite a expansão da ZDP e a construção de novos conhecimentos. O isolado Impacto e transformação apontou que os Grupos de Compartilhamento proporcionam um ambiente de colaboração, onde a troca de experiências e conhecimentos entre os participantes impulsiona a formação individual e coletiva. Essa prática, inspirada na perspectiva de Petrovsky (1986), cria um espaço de desenvolvimento dinâmico, que promove o diálogo entre diferentes realidades e a disseminação de estratégias ensino e aprendizagem. A parceria entre as instituições pode fortalecer a qualidade do ensino, aprimorando práticas educacionais e contribuindo para a produção de pesquisas na área da educação matemática. Os resultados parciais da pesquisa evidenciam a importância da interação para a aprendizagem e o desenvolvimento dos participantes dos Grupos de Compartilhamento. A troca de experiências, a reflexão conjunta e a construção de significados compartilhados se mostram como elementos fundamentais para a transformação de práticas pedagógicas. Ao se engajarem em tarefas compartilhadas, os participantes constroem uma cultura de aprendizagem que valoriza a troca de experiências e reflexão. Essa dinâmica, fundamentada na Teoria Histórico-Cultural, indica que o conhecimento não é algo individual, mas sim construído coletivamente e socialmente. A participação nos Grupos de Compartilhamento possibilita aos sujeitos a internalização de novas perspectivas, desenvolvimento e construção de uma identidade profissional, reafirmando o papel da interação para o desenvolvimento humano. Vygotsky (1998, p. 76) compreende que “[...] a internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui o aspecto característico da psicologia humana; é a base do salto qualitativo da psicologia animal para a psicologia humana”. Ao participarem desses grupos, os sujeitos vivenciam um processo contínuo de internalização de conhecimentos e práticas pedagógicas construídos coletivamente. As relações estabelecidas entre os sujeitos nesses espaços promovem partilha de vivências, pensamento e construção de significados compartilhados, o que, segundo Vygotsky (2000), é fundamental para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Como conclusão parcial, a pesquisa destaca a relevância dos Grupos de Compartilhamento para a formação continuada de professores de Matemática. Também evidencia como a interação e a construção coletiva de conhecimentos, sob a perspectiva da Teoria Histórico-Cultural, promovem o desenvolvimento humano e a transformação de práticas pedagógicas dos participantes. A colaboração entre os membros, inspirada na visão de Petrovsky (1986), cria um ambiente de aprendizagem dinâmico, que fomenta o diálogo entre diferentes realidades e a disseminação de estratégias de ensino de matemática. A análise dos três isolados revela fatores que contribuem para a consolidação dos grupos e melhoria da qualidade do ensino, na medida em que estes podem colaborar para a construção de identidades profissionais autônomas e para a promoção de uma sociedade mais justa. A pesquisa realizada contribui para o campo da formação de professores ao evidenciar a relevância da interação e da construção coletiva de conhecimentos para o desenvolvimento profissional docente. Ao analisar Grupos de Compartilhamento sob a lente da Teoria Histórico-Cultural, a pesquisa demonstra como esses espaços podem se tornar ambientes de aprendizagem compartilhada, onde os participantes se desenvolvem mutuamente e constroem conhecimentos que transcendem experiências individuais. REFERÊNCIAS LEONTIEV, Alexei Nicolaevich. O desenvolvimento do psiquismo. São Paulo: Moraes, 1978b. PETROVSKY, Arthur Vladimirovich. Psicologia general: manual didáctico para los institutos de pedagogía. 3. ed. Moscú: Editorial Progreso, 1986. VIGOTSKI, Lev Semionovitch. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998. VYGOTSKY, Lev Semionovitch. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1999. VYGOTSKY, Lev Semionovitch. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2000.