A GAIOLA DE SILÍCIO E A TECNIFICAÇÃO DO TRABALHO DOCENTE Introdução A sociedade contemporânea tem passado por uma série de transformações decorrentes do avanço das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC). Pode-se afirmar que “a informatização e o papel das infraestruturas computacionais têm impactado profundamente na vida social: na educação, no transporte, na vida familiar, na vida afetiva, no ativismo político” (Lima; Bridi, 2019, p. 326). Vivemos em meio à cultura digital, que Kenski (2018) define como valores, conhecimentos e práticas que se desenvolvem conjuntamente com as TDIC em suas múltiplas relações para com os seres humanos. Assim, diversos são os desafios que se impõem para a educação na contemporaneidade. Daí que diferentes estudos têm procurado evidenciar a relação entre processos educacionais e tecnologias digitais pensando as práticas pedagógicas (Kenski, 2012; Moran, 2007; Candau, 2022). Não menos importante é a discussão atinente à formação docente na sociedade hodierna, haja vista as potencialidades, mas também limitações, das TDIC (Mishra; Koehler, 2006; Ferreira, 2020; Silva, 2010). O objetivo do estudo é analisar a relação que docentes da educação básica, do ensino fundamental ao ensino médio, têm estabelecido para com as TDIC no contexto da cultura digital, considerando-se as dimensões: prática pedagógica, gestão do trabalho, relações de trabalho e relações com as famílias e a comunidade. Para tanto, pretende-se aprofundar e desenvolver o conceito defendido na tese de doutorado em Sociologia[1] do primeiro autor. Metodologia Trata-se de estudo em andamento com abordagem qualitativa e enfoque fenomenológico, quer dizer, procura-se apreender as percepções dos sujeitos em face da realidade objetiva. Parte-se da hipótese central de que a presença de tecnologias – sobretudo as móveis como os smartphones – no trabalho dos e das docentes contribui para gerar situações de sobrecarga, configurando o que, na pesquisa, se defende como gaiola de silício. O estudo tem abrangência nacional e busca analisar a condição da docência em diferentes regiões e estados brasileiros. Como procedimentos metodológicos, tem-se: revisão bibliográfica narrativa sobre os principais eixos da pesquisa; aplicação de questionário virtual para mapear o perfil e construir um painel sobre o uso de TDIC por professores/as de diferentes regiões e estados do Brasil; realização de entrevistas semiestruturadas com docentes que responderam ao questionário visando ao aprofundamento qualitativo. Devido à abrangência do estudo pretendida, a investigação será conduzida no âmbito do Grupo *** da ***, contando com pesquisadores/as de diferentes regiões e estados do país com atuação nas diversas etapas da educação básica no Brasil. A análise do questionário será conduzida por meio de técnicas simples de estatística, tais como cálculo de média, mediana e moda. As entrevistas, virtuais e gravadas, serão transcritas para análise do conteúdo a partir das dimensões: prática pedagógica, gestão do trabalho, relações de trabalho e relações com as famílias e a comunidade. Acredita-se que tais dimensões permitem observar as complexas relações que os profissionais estabelecem para com as tecnologias na docência. Breve discussão bibliográfica A pesquisa visa analisar a subjetividade como aquilo que caracteriza o ser humano e está por trás da aparência fenomenológica (Nardi, 2006). Assim, procura-se analisar a construção da identidade profissional docente. Aprofissionalidade é um processo que se constrói progressiva e continuamente, relacionando-se ao desenvolvimento de competências e da identidade profissional (Morgado, 2011). Identidade essa que pode ser entendida como subjetividade própria, resultante de um processo de formação contínuo e de aprendizagem que perpassa toda a trajetória profissional (André et al., 2017). Acredita-se que tal subjetividade se apresenta, hoje, em meio a um cenário de tecnificação contemporânea da vida. Retomamos a discussão de Weber (2013) sobre a racionalidade técnica na modernidade, para mostrar como a burocratização das práticas de trabalho e a inversão entre meios e fins na relação com a tecnologia se configuram como gaiola de aço que pesa sobre o ombro do/a trabalhador/a que nasce no contexto capitalista. Quer dizer que as “esferas econômica, política, estética, erótica e científica deixaram de ser instrumentos colocados a serviço das intenções humanas para inverterem o processo. Congeladas em seus processos internos, as ordens de vida moderna transformam os indivíduos em seus próprios fins” (Sell, 2011, p. 579). No bojo do capitalismo industrial, o/a trabalhador/a precisava se conformar e se adaptar à ordem vigente, lidando com a disciplina e os modos de organização e fiscalização dos corpos típicos da burocratização das relações sociais e da tecnificação dos processos de vida. Defendemos, porém, que na contemporaneidade, devido à relação com as TDIC, têm-se outros cenários, mais abertos, flexíveis e voláteis, sobretudo em razão do uso das tecnologias móveis. Mas diferentemente do que propala certo ideal presente no próprio surgimento da internet e do computador pessoal nas décadas finais do século XX (Sadin, 2023; Loveluck, 2019), a flexibilização no regime de acumulação flexível (Harvey, 1994) não conduziu à emancipação prometida. Tem-se, pois, formas outras de aprisionamento que, no contexto do trabalho docente, na relação com as TDIC, se desvelam em situações como atendimento no WhatsApp nos fins de semana e espaços de não-trabalho, construção de uma cultura imediatista de disponibilidade total laboral, diluição dos espaços e tempos de atuação que se misturam aos demais espaços da vida pelas tecnologias móveis, uso tecnicista de TDIC nas práticas pedagógicas, entrega a discursos ideológicos que veem o uso do recurso tecnológico digital como panaceia para os problemas educacionais etc. A gaiola de silício, nessa perspectiva, seria a forma de aprisionamento contemporânea do trabalho docente. Tem-se implicações para a subjetividade e para a identidade profissional que, nesse contexto, se alinham às condições objetivas, a elas se conformando. A gaiola é de silício, fazendo analogia e crítica ao Vale do Silício como lar das Big Techs – como Meta, Apple, Microsoft e outros – que disseminam visão ideológica de mundo. Além disso, o silício é componente fundamental para a produção de microprocessadores usados em dispositivos como computadores esmartphones. Esta gaiola seria, portanto, o contexto, os processos e a ideologia que perpassam o trabalho docente na contemporaneidade e plasmam a cultura no sentido de produção de subjetividades, ou identidades profissionais, alinhadas às condições materiais. Considerações finais e resultados esperados Com a pesquisa ainda em suas fases iniciais, espera-se, com o desenvolvimento das coletas e análises, observar como os e as docentes da educação básica têm se relacionado para com as TDIC. Buscar-se-á analisar tais relações a partir das dimensões prática pedagógica, gestão do trabalho, relações de trabalho e relações com as famílias e a comunidade. Com isso, conjectura-se que será possível melhor apreender como as TDIC influem na atuação docente hodierna e como isso traz implicações para a subjetividade, transformando a identidade profissional docente, tornando-a cada vez mais alinhada às condições materiais de uso, por vezes, irrestrito e acrítico das tecnologias. Sobretudo com a expansão e o célere desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) generativa, considera-se que pesquisas nessa temática são essenciais. Desvelar a condição do trabalho docente na cultura digital é condição indispensável para pensar em políticas de valorização da docência. Outrossim, apreender o cenário que se perfila é imprescindível para construir ações de formação e conscientização dos e das docentes, com o intuito de promover relações mais conscientes, críticas e, por conseguinte, mais salutares para com as TDIC. REFERÊNCIAS ANDRÉ, M.; CALIL, A. M. G. C.; MARTINS, F. de P.; PEREIRA, M. A. L. O papel do outro na constituição da profissionalidade de professoras iniciantes. Revista Eletrônica de Educação, v. 11, n. 2, p. 505–520, 2017. CANDAU, Vera Maria Ferrão. Didática hoje: entre o “normal”, o híbrido e a reinvenção. Perspectiva, v. 40, n. 3, p. 1–14, 2022. Disponível em:
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