A AFROCENTRICIDADE E A MEMÓRIA EM “A TERRA DÁ, A TERRA QUER”, DE ANTÔNIO BISPO DOS SANTOS: UM LEGADO DE PODER Resumo Este trabalho é um exercício de analisar como os princípios afrocêntricos surgem como possíveis reflexos nas memórias e na lingua(gem) contidas na obra de Antônio Bispo. Ainda objetivamos evidenciar conceitos apresentados que corroborem com a própria trajetória de vida do escritor enquanto ator político, além de analisar como e se as temáticas educação e racismo são evocadas na obra. O caminho metodológico é bibliográfico e busca ser coerente para condução do referido trabalho, de cunho qualitativo.A proposta desta obra é um convite para uma educação contracolonizadora pois somos apresentados a conceitos como confluência de saberes, cosmofobia, colonialismo de submissão, entre outros. E mais, se aproxima de maneira muito particular do pensamento central e dos princípios do afrocentrismo proposto por Asante (2019). A referida obra se apresentou como sofisticado arcabouço para as questões de memória, racismo e educação, visto que propõe estratégias para uma educação que se proponha como contracolonizadora, afrocentrada. Palavras-chave: Afrocentricidade; Comunidade Quilombola; Memória; Racismo, Educação. AFROCENTRICIDADE E EDUCAÇÃO O referido texto parte do exercício de analisar como os princípios do afrocentrismo surgem como possíveis reflexos nas memórias e na narrativa de Antônio Bispo dos Santos. Para tal intento, buscamos a presença dessa temática na obra “A terra dá, a terra quer”, do escritor Antônio Bispo dos Santos, pretendemos também evidenciar conceitos apresentados que corroborem com a própria trajetória de vida do escritor enquanto ator político, integrante de uma comunidade quilombola e que busca o fortalecimento da oralidade de seu povo. Este texto é concebido a partir da leitura de vários críticos africanos e afro-brasileiros que compreendem que o eurocentrismo não é parâmetro cultural para toda humanidade. Partimos dos pressupostos formulados por Asante, Diop e outros para que a “relevância epistemológica da Afrocentricidade se concretizasse no ideal de transformação no/para o pensamento filosófico-educacional brasileiro” (Benedicto,20216). Ainda segundo este mesmo autor, os afrocentristas estão definitivamente comprometidos com uma nova narrativa da História da África, visto que o estudo da história do continente africano nos últimos séculos foi marcado pelo eurocentrismo dos estudiosos que transformaram seus preconceitos em verdades absolutas(Benedicto,2026). Entendemos que esta obra de Bispo apresenta conceitos que de uma perspectiva afrocentrada pois nos desperta a perceber o quão caros são para o povo afro-brasileiro e para a sociedade como um todo. Assim como Bispo (2023), a tese de Cheikh Anta Diop apresenta princípios que argumentam a importância de valores e crenças que contribuem para o “processo de uma identidade cultural”, (Benedicto, 2016). E o princípio que aqui nos ateremos é o princípio linguístico, uma vez que, “ fator linguístico que permite aos povos comunicar seus valores, crenças, conhecimentos e experiências. Desse modo, o autor sustenta que os africanos devem buscar uma unidade linguística africana apesar da aparente variedade linguística falada no continente ( pg.22) Diante do exposto, partimos da pergunta central deste texto: Os conceitos elencados e discutidos na obra podem contribuir para o fortalecimento da realidade educacional brasileira? O CAMINHO METODOLÓGICO A escolha para esse caminhar metodológico é bibliográfica e busca ser coerente para condução do referido trabalho, de cunho qualitativo. Aqui, partimos do pensamento que a pesquisa bibliográfica é um tipo de estudo que analisa documentos de competência científica como livros, periódicos, ensaios e artigos científicos. Para além disso, com este tipo de estudo, temos o privilégio de desenvolver o estudo diretamente na fonte científica escolhida (Oliveira,2018). AS DISCUSSÕES SOBRE AS MEMÓRIAS O exercício no qual procuramos desenvolver, nos levou a conhecer a natureza de um lugar com toda sorte de detalhes através das lembranças memorísticas do escritor. Aqui, somos aproximamos do conceito da memória como a ideia africana de reconstrução de um acontecimento ou narrativa. Não apenas a recordação, mas o pensamento de deslocar o passado para o presente (Hampâté Bâ, 2010). Mesma concepção de Halbwachs (1990) pois o mesmo entende que a memória “é, ao mesmo tempo, um saber e uma lembrança”. Entendemos tal exercício de Bispo quando o mesmo lembrava de seus primeiros dias, Nos primeiros passos de minha vida, os mais velhos me orientaram a ouvir os cantos dos pássaros e os chiados da mata. Compreendo o ambiente onde dei os primeiros passos como uma das bases de lançamento da minha trajetória. Uma memória maravilhosa que ainda pulsa, é acordar ouvindo o canto da passarada informando quais condições meteorológicas do dia (Santos,2023, P.10). Quando, aos dezoito anos, saí para conhecer uma cidade, percebi que existia outro mundo para além daquele onde nasci me criei. A cidade era outro mundo. Nas cidades, as pessoas não sabiam fazer suas próprias casas, como sabíamos fazer no lugar de onde viemos. Não sabiam e ficavam dependendo de outros que as fizessem por elas. Onde nasci e fui criado, todo mundo tinha casa. Só não tinha casa quem não queria e morava com os pais, com os parentes ou com os amigos. Ou quem andava perambulando, quem achava por bem não ter casa porque era muito trabalhoso cuidar. Mas na cidade não era assim. As pessoas dependiam de casas que não sabiam fazer. Onde nasci e fui criado, desde criança, íamos observando, achávamos um lugar bonito, criávamos uma relação, uma comunicação com o lugar. E marcávamos: “Vou fazer a minha casa aqui”. Eu não precisava pagar para fazer a minha casa. Pelo contrário, havia um grande mutirão, vinha todo mundo! Era uma festa, e fazíamos uma casa muito rapidamente (Santos,2023, P.20). Tal momento memorativo, nos ensina que “a lembrança pura traz à tona da consciência um momento único, singular, irreversível, da vida... A memória, é sim um trabalho sobre o tempo, mas sobre o tempo vivido, conotado pela cultura e pelo indivíduo” (Bosi,1994). Assim, o viés crítico contido na obra nos permite uma conjectura de/para uma ecologia de saberes ancestrais com os conceitos de cosmologia , cosmopercepção e afroconfluência através de uma apresentação minuciosa de sua relação com o meio ambiente, e mais, o texto manifesta-se com uma lingua(gem) crítica e consciente que denuncia o racismo e os efeitos desse ranço colonial imputado ao povo negro brasileiro. Para Antônio Bispo dos Santos, também conhecido como Nego Bispo, a palavra confluência ou compartilhamento dita mundo a fora, era motivo de festa, pois entre os seus, haviam pessoas compartilhantes e afroconfluentes. Confluência e compartilhamento para Bispo se equiparam no pensamento de uma relação recíproca, de compartilhamento e não de troca ou divisão e este conceito é evidenciado em mais uma de suas memórias, como a apresentada a seguir: Nasci e fui criado em uma encruzilhada de biomas, onde se encontram o semiárido, os cocais, a pré- Amazônia e, vez por outra, também alguns sinais do que se chama de Mata Atlântica. Quando nasci, havia ali uma grande ocupação territorial de pessoas afroconfluentes. Boa parte dessas pessoas compunham minha família. As outras famílias também eram afroconfluentes. Havia mais de dezoito engenhos de madeira de tração animal para fabricação de rapadura que pertenciam ao povo afroconfluente. Não há indícios de que o povo desse território tenha sido escravizado. Não temos essa memória das nossas gerações avó, bisavó ou tataravó. O meu tio-avô nasceu no século XIX. Isso significa dizer que o meu bisavô nasceu antes da Lei Áurea e que meu tataravô nasceu muito antes da Lei Áurea. Nós nunca ouvimos falar em trabalho escravo na nossa família. E também não tivemos patrões. As nossas relações com as pessoas com as pessoas não afroconfluentes e não indígenas naquele território eram relações de respeito, correlações de forças equilibradas. Quando havia algum desequilíbrio, elas eram favoráveis a nós, porque detínhamos grande confluência de saberes. Sabíamos tudo o que era necessário para viver naquele ambiente. Nossa família plantava o que precisava, era mestra na agricultura e dominava o beneficiamento. Sabia fazer equipamentos para beneficiamento da mandioca, da cana e do álcool. Um povo que sabia disso tudo provavelmente não foi escravizado nem teve sua memória apagada como intencionavam e intencionam até hoje os eurocristãos colonialistas (Santos,2023, P.39). Nessa perspectiva, a proposta desta obra é um convite para uma educação contracolonizadora pois somos apresentados a conceitos como confluência de saberes, cosmofobia, colonialismo de submissão, entre outros. E mais, se aproxima de maneira muito particular do pensamento central, dos princípios e da importância da ideia afrocêntrica educacional proposta por Asante (2019). Segundo Noguera (2010), o pensamento afrocentrado é “o que se traduz no campo da educação através da ênfase no ponto de vista que situa os povos africanos e a população afrodescendente como agentes e não coadjuvantes”. A MEMÓRIA, A LINGUA(GEM) E A EDUCAÇÃO Para além das questões conceituais, o autor parece confabular com bell hooks em “A língua: ensinando novos mundos/novas palavras” ao propor a inserção de língua(gem) “dos seus” para proposição da quebra dos paradigmas do que está posto pela imposição globalizada, eurocêntrica e hegemônica que faça com que o colonizador não entenda o que está sendo dito. Tal alusão está no poema de Adrienne Rich chamado “The Burning of paper Instead of Children”( Queimar papel em vez de crianças).O referido poema fala sobre “ a dominação ,o racismo e a opressão de classe”, O verso “ Esta é a língua do opressor, mas preciso dela para falar com você” era o mais tocante na memória de hooks, pois para ela essas palavras lhe transmitia “o caminho” para entender que as mesmas seriam instrumentos que a despertava conscientemente para o vínculo entre a linguagem e a dominação(hooks,2013). Com sua maestria nas palavras, Santos nos ensina: Eu, por dominar a técnica de adestramento, logo percebi que, para enfrentar a sociedade colonialista, em alguns momentos “precisamos transformar as armas dos inimigos em defesa”, como dizia um dos meus grandes de defesa. Então, para transformar a arte de denominar em uma arte de defesa, resolvemos denominar também. Entre outros escritos em que traduzi os saberes ancestrais de nossa geração avó da oralidade para a escrita, trouxemos algumas denominações que as pessoas da academia chamam de conceitos. A partir daí, seguimos na prática das denominações dos modos e das falas, para contrariar o colonialismo. É o que chamamos de guerra das denominações: o jogo de contrariar as palavras coloniais como modo de enfraquecê-las. Certa vez, fui questionado por um pesquisador de Cabo Verde: “Como podemos contracolonizar falando a língua do inimigo? E respondi: “Vamos pegar as palavras do inimigo que estão potentes e vamos enfraquecê-las. E vamos pegar as nossas palavras que estão enfraquecidas e vamos potencializá-las. Tais questões, muito caras ao povo brasileiro também são discutidas e alicerçadas nas palavras de Melo (2024) que estão intrinsicamente relacionadas em alguma perspectiva com as proposições de/para o pensamento afrocêntrico que se propõe como caminho possível e necessário para uma educação afrocentrada e para nós, antirracista. A QUE CONCLUSÃO CHEGAMOS... Diante dos anúncios, algumas considerações se apresentam, pois entendemos que o exercício inicial proposto pela atividade foi alcançado na perspectiva de aproximação do objetivo de analisar como os princípios do afrocentrismo surgem como possíveis reflexos nas memórias e na narrativa contidas na obra. Evidenciamos ainda que a obra “A terra dar, a terra quer” se apresentou como sofisticado arcabouço crítico para as questões de língua(gem), racismo e educação, visto vez que propõe estratégias compatíveis para uma educação que se proponha como contracolonizadora, afrocentrada, e que atende ao questionamento levantado. E por fim, os conceitos elencados na obra ora aqui apresentada, se mostram condizentes com a trajetória de vida e as memórias do escritor Antônio Bispo, uma vez que os mesmos permeiam ao longo do texto de forma que sejam apresentados, explicados e exemplificados de como acontecem na comunidade. REFERÊNCIAS: ASANTE, Molefi Kete. A IDEIA AFROCÊNTRICA EM EDUCAÇÃO. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação – RESAFE, Número 31: mai.-out./2019 BENEDICTO, R. M. Afrocentricidade, educação e poder: uma crítica afrocêntrica ao eurocentrismo no pensamento educacional brasileiro. 2016. 298 p. tese (doutorado em educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016. disponível em:
https://teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-29032017-61243/publ…. acesso em: 13 dez. 2024. HAMPATÉ BÂ, Amadou. A Tradição Viva. In J. Ki-Zerbo (Org.) História Geral da África I: Metodologia e Pré-História da África (pp. 167-212). Brasília: UNESCO, 2010. HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução: Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Editora Martins Fontes.2013 MELO, Duília de Jesus Lopes. Corpos negros, educação e territórios de identidade no tempo presente [recurso eletrônico]: reflexões a partir de estudantes de uma escola pública de ensino médio em Muritiba/BA (dissertação de mestrado) Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia, Salvador Bahia, 2024.disponível em:
https://repositorio.ufba.br/handle/ri/39138 OLIVEIRA ,Maria Marly de. Como Fazer Pesquisa Qualitativa / 7ª Edição .Ed. Vozes. 2018 NASCIMENTO, Gabriel. Racismo Linguístico: Os subterrâneos da linguagem e do racismo. Belo Horizonte: Letramento, 2019. 124 p. ISBN 978-85-9530 SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023. 112 p.