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O corpo vivo com seus contextos históricos, sociais e culturais, produz, transmite, recebe e carrega as memórias de suas experiências. A cada deslocamento elabora movimentos provocadores de efeitos diversos que só encontram materialização na relação do corpo com o espaço e com o(s) outro(s). Dessa interação das existências e seus efeitos se reconhece a produção de processos identitários e culturais, interesse de diversas áreas de estudos, inclusive da dança.
A pesquisa apresentada aqui dedica-se à concepção e realização da videoperformance de dança intitulada Falanges constituída em 2019 e que foi apresentada em uma exposição on-line no ano de 2020. O evento foi promovido por um laboratório de pesquisa vinculado à Programa de Pós Graduação de uma Instituição Federal de Ensino Superior (IFES) no sul do Brasil. Nesta performance antecipam-se estudos aprofundados no período pandêmico, no que se refere ao processo do corpo em ação como questionador do espaço cotidiano. O corpo presente, física ou virtualmente, a cada lugar instituído culturalmente, assume formas e estados peculiares ao absorver e transmitir efeitos em trocas no tempo de convivência.
Assim, com o desejo de pesquisar e gerar performances artísticas é que se faz possível tomar o objeto de estudo focado na experiência pessoal de deslocamentos almejando entender os processos de identificação culturais em atravessamento. O objetivo central da pesquisa é estudar esses processos identitários fluídos, fruto de deslocamentos do corpo no espaço, para a elaboração de performances como resistência a favor das diferenças. Para tal, a pesquisa está assentada sobre hipótese de que a abordagem artística das relações entre corpo e espaços culturais podem ser vislumbradas enquanto fomentadoras de ações políticas de resistência.
Desse modo, por meio dos autores Hall (2006) e Bhabha (1998) experimenta-se um olhar e escuta em suspenso, como um entre-lugar. No mesmo sentido, Hall (2006) convida ao deslocamento produzido pela globalização nas identidades culturais na pós-modernidade, Bhabha (1998) traz como debate pós-colonial as identidades e processos de significação cultural. Para ele a fronteira seria um terceiro lugar, pois, aqui, ela descreve a emergência de um sujeito colonizado originando a hibridização e as diferenças culturais.
O trabalho parte de uma pesquisa em andamento e visa a criação de outras performances adotando a metodologia autoetnográfica. Para tal, a artista-pesquisadora ancora-se nas autoras Fortin (2009) e Versiani (2002). Ou seja, aqui, as experiências de deslocamento vividas pela proponente vêm potencializar a pesquisa. Com criação em laboratório pautada pelo improviso a partir de perguntas e frases elaboradas, a performance se deu por ações instantâneas resultantes da observância interior dos efeitos do espaço cultural. O processo, concebido por interesse inicialmente espontâneo, tornou-se o marco inicial das aproximações teóricas e germinações de pesquisa futuras. Sendo assim, olhar e escutar a obra tem sido como uma anunciação, estudo de descobertas. Além disso, em atual período pandêmico, os indivíduos estão mais implicados a reconhecer em si suas demandas narrativas que, em período não isolado do corpo, são recorrentemente abastecidas pelo olhar do outro.
Até o momento, como resultado parcial da série de Performances a serem concebidas foi elaborada Falanges. Na sua observância, em busca dessa agência social e cultural, elucida-se que o corpo em improviso advém do autodesvelamento do sujeito, somando-se as memórias dos deslocamentos ao momento de distanciamento social.
Produzido em co-autoria com o diretor, editor e também autor de uma poesia que acompanha a obra, o improviso moveu-se a partir das perguntas/frases mencionadas acima e que potencializaram a criação em vídeo de onze minutos e vinte e oito segundos de performance. As falas gatilhos iam desvelando os gestos, a começar pelas falanges, até eclodirem em frenesi.
A prática artística experimental trouxe uma narrativa negada, problematizando as ligações e os sentidos do dedilhar em fluxo, na qual o corpo isolado reage ao vazio atravessando o tempo e as fronteiras diante das sensações e fissuras circunstanciais. Há, nos fluxos dos espaços, a perda de sentido de si mesma reverberando o sujeito descentrado e evocando, ainda, suas memórias de deslocamentos. Buscou-se nas expressões do corpo e no improviso um meio de tensionar e friccionar questões que se percebe atravessarem as inquietações culturais, potencializadoras de perspectivas decoloniais.
O corpo como diferença explora o espaço cultural permeando a criação e a escrita. A Arte da Performance, como um modo de fazer-pensar na arte contemporânea, ressoa politicamente a proponente repleta de deslocamentos. Acredita-se que evidenciar poeticamente esse corpo espaço decolonial, tomado por sua hibridização, tem produzido potência artística material e contribuições de outras ordens, especialmente neste momento pandêmico. A performer percebe que o seu corpo levanta as exigências do passado pela memória e enfrenta as negociações simultaneamente do presente. Como agente, a performer busca ecoar sua narrativa pois seu desvelamento ao criar-escrever, escrever-criar, intenta expandir o espaço reduzido pelo isolamento por meio da produção artística. Enfim, considera-se que a videoperformance intitulada Falanges, ancorada nas relações entre corpo e espaços culturais, pode contribuir como ação de resistência das diferenças. Sua ação compartilhada na web buscou trazer à tona memórias dos efeitos de deslocamentos tanto pelas perspectivas decoloniais, mas foi atravessada pela perspectiva do momento atual da pandemia COVID19.
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