Subjetividade e Periferia: o que dizer sobre arte e margens?

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Comitê Temático - Apresentação Oral
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Resumo

“O subúrbio é o refúgio dos infelizes. Os que perderam o emprego, as fortunas; os que faliram nos negócios, enfim, todos os que perderam a sua situação normal vão se aninhar lá [...].” (Lima Barreto em Clara dos Anjos)

O que acontece nesse espaço dos infelizes? Como as experiências de perda, de privação e de marginalização constroem subjetividades? Como os corpos marcados por diversas interseccionalidades de opressão agem no mundo? Como os espaços periféricos se modificaram ao longo último século? Como as palavras de Lima Barreto são reiteradas e contrapostas? Há felicidade na periferia? Estas questões acompanham minha pesquisa e endereçam tensionamentos para as composições estéticas.
Busco neste texto pontuar percepções sobre subjetividades e periferia a partir da performatividade de corpos em ação e relação no espaço. Dessa forma, a escrita busca operar a fim de evidenciar uma multiplicidade de narrativas. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (2019) faz colocações nesse sentido em seu livro O Perigo de uma História Única. O título já anuncia o conteúdo que conta sobre processos pelos quais são criados estereótipos que engessam as potências das histórias e das pessoas.
A partir da formação da subjetividade periférica contemporânea como um processo de construção coletiva calcada nas experiências estéticas é possível vislumbrar um caminho de desvio. O sociólogo Tiarajú Pablo D’Andrea (2013) aponta a constituição dessa subjetividade a partir de um deslocamento do estigma da pobreza e violência para o orgulho desta condição. Este processo, que o autor localiza o início nos anos de 1990, contou com a forte presença de coletivos artísticos que atualizaram as formas de representação e do “sentir-se periférico” (D’ANDREA, 2013, p.138). Assim, os moradores de bairros populares, transformam os estigmas que lhes foram impostos em possibilidades de “construir novas formulações sobre si mesmo e sobre sua posição no mundo.

Mulher negra e periférica: um destino unívoco?

Clara dos Anjos, a filha do carteiro Joaquim no romance de Lima Barreto é uma jovem negra que acessou a educação e foi criada com recato no subúrbio do Rio de Janeiro no início do século XX. Em diversos momentos do texto o autor insiste que sua mãe, a dona de casa Engrácia falhava ao não demonstrar a vulnerabilidade à qual a filha era exposta. Faltava à Clara uma consciência de sua “condição”, segundo o autor.
Lima Barreto deixa implícito que mulheres negras pobres estavam muito mais suscetíveis a ser alvo de homens que se aproximavam afetivamente/ sexualmente sem a intenção de se comprometer com o casamento. Tais palavras parecem completamente fora do contexto do século XXI, no entanto, o que mais interessa é a construção simbólica desta condição de mulher negra periférica.
Desse lugar de não ser nada, de ser “lata de lixo da sociedade brasileira” (GONZALEZ, 1984, p. 225) é de onde partimos para pensar artes do corpo. E que corpo é esse? Quais corpos são esses? E quais atravessamentos marcam esses corpos?
Judith Butler aponta a questão das fronteiras do corpo em Julia Kristeva e a ideia de abjeção como o que foi expelido do corpo, o que foi tornado “Outro” como excremento. A leitura de Íris Young sobre o trabalho de Kristeva assume que o “repúdio de corpos em função de seu sexo, sexualidade e/ou cor é uma ‘expulsão’ seguida por uma ‘repulsa’ que fundamenta e consolida identidades culturalmente hegemônicas em eixos de diferenciação de sexo/raça/sexualidade.” (BUTLER, 2020, p. 231) Nesse sentido, entendemos os processos de exclusão e dominação a partir de identidades consolidadas nessa instituição do “Outro”.

Periferia de onde?
Interessa-nos aqui pensar a permeabilidade da arte e da vida cotidiana, como pensar essa margem, essa delimitação que opera no nível do conceito ao mesmo tempo que o faz na experiência? Como a arte de performance pode provocar a realidade cotidiana, na medida em que faz parte dela?
A distância dos espaços centrais da cidade que opera na geografia e nas barreiras simbólicas. Grada Kilomba conta sobre experiências de bell hooks nesse sentido:
Através daqueles trilhos se chegava no centro: lojas em que ela não podia entrar, restaurantes onde ela não podia comer e pessoas que ela não podia olhar nos olhos. Esse era um mundo onde ela poderia trabalhar como doméstica, criada ou prostituta, mas onde ela não podia viver; ela sempre tinha de retornar à margem. (KILOMBA, 2020, p. 67)

A margem se constitui, então, como um lugar de repulsa e negação. No entanto, é deste espaço que pode surgir resistência, “(...) a margem é um local que nutre nossa capacidade de resistir à opressão, de transformar e de imaginar mundos alternativos e novos discursos” (KILOMBA, 2020, p. 68)
Nesta pista imagino perguntas que me movem: Como se mover em dança a partir da relação com o espaço? Como criar estados de dança e performance que sejam atravessados por estas imagens? Como performar as diferenças sem investir em hierarquizações?

Referências:
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.
D’ANDREA, Tiarajú Pablo. A formação dos sujeitos periféricos: Cultura e Política na Periferia de São Paulo. 2013. 295f. Tese de Doutorado em Sociologia- Departamento de Sociologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, São Paulo, 1984, p. 223-244. Disponível em: <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4584956/mod_resource/content/... Acesso em: 02 abr. 2021.
KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação: Episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2020.

Instituições
  • 1 Universidade Federal do Rio de Janeiro
Eixo Temático
  • Dança e diáspora negra: poéticas políticas, modos de saber e epistemes outras
Palavras-chave
Periferia
performance
MARGEM
Gênero
Negritude