Sobre plantar sementes no cimento

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Comitê Temático - Apresentação Oral
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Resumo

1. Que dança se dança na universidade – contradições
O que de fato podemos apreciar nos espetáculos de dança contemporânea atualmente? Quais corpos estão em cena? Que questões estão em pauta? Qual a configuração étnica dos grupos/companhias? Qual o papel das universidades na reprodução de cânones estéticos e na legitimação de novos saberes?
O ano de 2020 foi marcado pela pandemia, gerada pelo novo coronavírus, fato que provocou, em todo o mundo, longos períodos de isolamento social. No Brasil, as universidades, incluindo a UFRJ, suspenderam suas atividades presenciais, passando a orientar que as atividades possíveis se adaptassem ao trabalho remoto. Muitos esforços foram (e continuam a ser realizados) para manter as atividades de forma que a qualidade pedagógica se mantenha. Um desafio bastante complexo, já que os cursos de dança são majoritariamente presenciais e o ensino remoto não substitui as experiências geradas presencialmente.
Neste contexto, foi possível perceber que o ensino remoto potencializou as desigualdades sociais e raciais. Fato que tornou mais urgente rever as referências primeiras que forjam nosso pensar, fazer e apreciar danças.
Os projetos pedagógicos dos cursos de dança da UFRJ não apontam um único modelo conceitual sobre a dança voltados apenas para a prática da dança teatral erudita, mas considera a complexidade e a diversidade cultural que envolve essa linguagem e, ao mesmo tempo, entende que há uma especificidade no saber de cada curso. Contraditoriamente, essa diversidade cultural não é apresentada nas disciplinas obrigatórias ofertadas nas grades curriculares dos cursos, o que denuncia ainda a manutenção de referenciais hegemônicos que norteiam as relações de ensino aprendizagem da dança no ambiente universitário.
2. Quais danças se quer dançar na universidade - perspectivas
Pelo exposto, indagamos: Não será urgente a apreciação e uma crítica implicada sobre as produções de danças que notoriamente são excluídas e colocadas à margem do fluxo central dos acontecimentos artísticos, objetivando pluricentralizar múltiplos saberes, valores e histórias contextuais?
A partir dessas inquietações, no período letivo de 2020 do 1º. semestre, as professoras Aline Teixeira e Tatiana Damasceno ofertaram aos cursos de dança do Departamento de Arte Corporal da Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ a disciplina obrigatória Tópicos Especiais em Apreciação Coreográfica a partir de um filtro perceptivo afrodiaspórico. Esta disciplina propõe um mapeamento da dança contemporânea trazendo à tona suas principais correntes e tendências o que acontece, de forma frequente, a partir das danças de caráter hegemônico.
Visando abordar procedimentos que vislumbrem possíveis mudanças curriculares, propôs-se um debruçar sobre produções coreográficas e textuais de artistas pretas/os, colocando-os em lugar de destaque nos fazeres contemporâneos, abrindo a perspectiva sobre essas danças e corpos construtores de narrativas simbólicas e diversas visões sobre um fenômeno de onde parte o conhecimento.
A maioria dos/as artistas apreciados/as eram desconhecidos/as dos alunes. Neste aspecto, apontamos algumas possibilidades: os artistas apreciados não são citados nos livros estudados; eles não transitam nos circuitos das danças cênicas contemporâneas; eles não estão nos grandes teatros nem nos festivais internacionais; eles também não estão na universidade. Se não são vistos nem conhecidos, onde eles se encontram?
Nesse sentido, o conceito de afrocentricidade propõe uma abordagem epistemológica não eurocêntrica e contra hegemônica.
A Afrocentricidade emergiu como processo de conscientização política de um povo que existia à margem da educação, da arte, da ciência, da economia, da comunicação, da tecnologia tal como definidas pelo eurocentrismo. (ASANTE, 2009, p. 94)

Percebemos ações pontuais sendo realizadas dentro da universidade principalmente através de projetos de pesquisa, produção artística e extensão . que creditam componentes curriculares na forma de disciplinas optativas Contudo, apesar dos projetos desenvolverem, discutirem e proporem práticas decoloniais valorizando saberes e experiências diversas, a oferta de disciplinas obrigatórias que valorizem esses saberes específicos é escassa. Temos atualmente duas disciplinas obrigatórias e dezoito disciplinas optativas. Concluímos, assim, a urgência de uma revisão crítica e estrutural do panorama da dança no ambiente universitário, que contemple as culturas afrodiaspóricas, vislumbrando espaços de equidade e representatividade nos processos de produção de conhecimento no campo da dança.

Referências
ASANTE, Molefi Kete. Afrocentricidade: Notas sobre uma Posição Disciplinar. In.: NASCIMENTO, Elisa Larkin (Org.). Afrocentricidade: uma Abordagem Epistemológica Inovadora. São Paulo. Selo Negro, 2009.

Instituições
  • 1 Universidade Federal do Rio de Janeiro (Brasil)
  • 2 Universidade Federal do Rio de Janeiro
Eixo Temático
  • Dança e diáspora negra: poéticas políticas, modos de saber e epistemes outras
Palavras-chave
Dança
Universidade
Afrocentricidade
Diversidade