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Ao tematizar a relevância da Arte do Movimento de Rudolf Laban (1879-1958) em múltiplos contextos educacionais atualmente, a pesquisa tem como hipótese nuclear que a presença de Laban está expandida em um hiperespaço biocultural, um espaço de viventes/coisas/ideias/sentimentos/danças. Como uma flecha solta no tempo (PRIGOGINE, 2008), a Arte do Movimento de Rudolf Laban dança, conectando-se com um fluxo do universo e com o que nele manifesta. Traçados com variados campos do conhecimento têm o intuito de apresentar a abertura do legado de Laban e sua possibilidade de expansão.
Faço com meus estudos, desde 1977, da Arte do Movimento de Rudolf Laban vínculos com as descobertas e pesquisas de estudiosos das Ciências Cognitivas, da Biologia Evolutiva, da Cultura – inclusos estudos da Educação, Pedagogia, Didática e Metodologia do Ensino – da Semiótica (de Charles Sanders Peirce), da Neurociência e da Filosofia. Referencio-me, em especificidades de dados biográficos e a afirmações do próprio Rudolf Laban, em Valerie Preston-Dunlop (1998). Esta abordagem também faz conexões com trechos do primeiro livro de Laban, Die Welt des Tänzers (1920). Esses excertos estão traduzidos do alemão para o inglês (The world of the Dancer) – realizada por Stefanie Sachsenmaier e Dick McCaw – no livro The Laban sourcebook (2011).
Com Slavoj Zizek (2011) busco aprender a não ser “juiz(a) do passado” e dizer o que de Laban é bom ou não no presente. Todavia, enquanto escrevo, reflito o que Laban acharia da minha/nossa situação contemporânea. O que pensaria do que faço/fazemos com seu legado? O visionário, controverso Laban tem sua flecha do tempo desenhando curvas, torções, retesamentos, neste imenso hiperespaço do tempo com uma dança que não trata de uma “...série de características universais e abstratas que podem ser aplicadas em toda parte, mas no sentido de que deve ser reinventada a cada nova situação histórica” (ZIZEK, 2011, p. 19).
Faz também parte do referencial deste trabalho uma vivência ininterrupta de estudos e pesquisas, que se estendeu entre os anos 1977 a 2000, nas fabulosas, variadas e complexas aulas que tive a honra de ter com Dona Maria Duschenes (introdutora de “Laban” no Brasil, em São Paulo/SP). Em sonhos acordados tenho essas aulas em mim. À minha mestra Maria Duschenes peço licença e espero que possa homenageá-la e honrá-la, pois, se algo de bom posso ter para o dançar, para o ensinar e para a vida, infinitamente a ela devo.
Este conjunto referencial, simultaneamente, envolve-me, comove-me e distancia-me criticamente no processo desta escrita e nela as transformações sígnicas me fazem criar neologismos. Junto palavras, com intento de manifestar a tênue fronteira entre elas. Uso, adicionalmente, o sinal / (significando estar para). A ênfase que Laban deu à compreensão de corpo como uma totalidade ‘física/emocional/espiritual/intelectual’ (termos utilizados por ele desde os anos 1910), me leva a perguntar-lhe o que pensaria das pesquisas atuais das Ciências cognitivas? Vinculo-me a Varella, Thompson e Rosch (1993) para abordar embodiment, ou como traduzo: corponectividade. Referencio-me ainda em Noë (2012), Lakoff e Johnson (1999) e Damásio (2018).
Nos procedimentos metodológicos proponho a dança de Laban em vários níveis de descrição – seja o corpo que dança, o espaço, movimentos, passos codificados, som, desenho de luz, sequência coreográfica, improvisação. O corpo que dança Laban é todo e qualquer corpo, respeitadas as singularidades. Essas múltiplas possibilidades de ‘dançaranalisar’ são entendidas como constituídas de signos. A Semiótica e as Ciências Cognitivas são referências para o entendimento dos processos de significação, representação e interpretação. São estudos que tratam de toda e qualquer linguagem como um odor, um susto. Acaso que ocorre no ato de improvisação com crianças, a um cartaz com palavras de ordem políticas, por exemplo, são considerados atos de significância. Faço/fazemos jogos de palavras e de movimento com associações por contiguidade e por similaridade; livre associação de movimentos e palavras; a partir de um verbo/ação criamos movimentos-palavras; jogos, experiências de deslocamentos de pessoas e objetos para experimentos de outros modos de localização; discussões, leituras e produções de textos escritos.
Palavras-chave: DANÇA. ARTE DO MOVIMENTO DE RUDOLF LABAN. HIPERESPAÇO.
Lenira Peral Rengel
UFBA
Professora dos Cursos de Mestrado e Doutorado Acadêmico e Mestrado Profissional em Dança. Líder do Grupo de Pesquisa Corponectivos em Danças. Coordenadora do PPGDança. Pesquisa modos de cognição situada no contexto do ensino/aprendizagem de Dança com diversas faixas etárias e contextos educacionais. [email protected]
REFERÊNCIAS
DAMÁSIO, António. A estranha ordem das coisas. As origens biológicas dos sentimentos e da cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Philosophy in the flesh - The embodied mind and its challenge to western thought. New York: Basic Books, 1999.
McCAW, Dick. The Laban sourcebook. London and New York: Routledge, 2011
NÖE, Alva. Varieties of presence. Cambridge, London: Harvard University Press, 2012.
PRESTON-DUNLOP, Valerie. Rudolf Laban - An extraordinary life. London: Dance Books, 1998.
PRIGOGINE, Ilya. O nascimento do tempo. Lisboa: Edições 70, 2008.
VARELA, Francisco, THOMPSON, Evan e ROSCH, Eleanor (1993). The embodied mind – Cognitive Science and human experience. Cambridge, London: The MIT Press, 1993.
ZIZEK, Slavoj. Primeiro como tragédia, depois como farsa. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.
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