Pequena queda

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Comitê Temático - Apresentação Oral
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Resumo

1. Andar e cair
Um passo ou dois, 3, 4. Traçarei vagarosamente pela pele fina, a escrita do corpo ao texto, experiência de mediação que me conduz aqui. Para tentar evitar a dimensão mecânica da marcha, introduzo-a pela pele dos pés. Andar devagar, perceber a chegada do calcanhar no chão, o desenrolar da planta do pé, a transferência de peso quase inerente ao corpo em negociação com a resistência e a entrega à gravidade, tendo em vista a queda implícita ao andar. Trata-se de empurrar o chão e também sentir o quanto ele nos empurra, tocar e ser tocado por ele com os poros sempre abertos. Caminhar, ação de todos os dias, comum como tantos outros gestos, no entanto, em escassez por tantos motivos nesse momento de isolamento social. Caminho juntamente com as mãos, com os olhos e com o pensamento para poder seguir. Assim, caminhamos, sem esforço, mesmo que pouco conscientes de nossos passos. Trata-se da marcha em sua ordenação natural dada pela contra lateralidade de braços e pernas. Pode-se pensar também no passo como uma qualidade de queda e recuperação. Logo, quando o pé avança há sempre uma pequena queda que o antecede, como no verso de Laurie Anderson da música Walking and Falling.
A mestra do movimento Angel Vianna engendra o virtuosismo de “olhar” com os pés quando, em suas ações cotidianas, desce escadas de costas. Segundo a bailarina, dessa forma a força da gravidade vai ao encontro das costas, das unidades posteriores do corpo, e tanto possibilita a retração da soberania da frente quanto ameniza a sobrecarga nas articulações. Pergunto-me então se andar para frente não se relacionaria com a ideia de ir na direção do progresso, da evolução e, portanto, da atitude neoliberal de avanço e produtividade. A substituição dos olhos pelas costas dos pés não estaria evocando o dilaceramento das forças progressistas? Seria andar para trás um flerte com o retrocesso ou uma volta ao desconhecido?
Costumo com frequência iniciar uma aula de dança caminhando pelo espaço. Por qualidades e direções infinitas, a caminhada vem sensibilizar a tridimensionalidade e nos informar sobre as costas. As paredes da sala emolduram desenhos que se formam e se deformam pelo traçado dos pés em movimento, as passadas lentas e ligeiras, leves e fortuitas, de costas, de frente, de lado, efêmeras. Corpos se cruzam, esbarram, viram pela atenção ao outro, para evitar o outro, ralentam, tropeçam e giram sem previsão, até que haja uma espécie de harmonização afetiva das latitudes e longitudes imaginárias do espaço. E assim, essa dança nunca se repete, “o caminhar por caminhar”, sem finalidade de partida, alerta os olhos que veem e os que são vistos em tramas irreprodutíveis. Andar de costas reacende a opacidade da pele que reveste a nuca, espaço oculto aos olhos de si. Ela, a dança, caminha junto com o deslizar dos olhos e ombros no espaço até que se possa ver o que antes estava nos rumores da pele de dentro, rompendo com a estrutura segmentar e hierárquica do corpo e da forma por si só. Penso que ao caminhar experimentamos fisicamente a ambiguidade do avanço e do recuo pela possibilidade de liberação e expansão simultânea das unidades anterior e posterior do corpo.

2. O gesto da queda e o pensamento
Não somente à dança, o gesto de caminhar também é assunto caro à filosofia. Em um tratado sobre a caminhada, A Philosophy of Walking, Frédéric Gros relaciona filósofos e seus estilos de pensamento à forma como caminhavam e por ela organizavam suas ideias. Em entrevista, Gros comenta que:
Kant era sério e disciplinado, um filósofo que exige provas muito rigorosas com definições estritas. Ele tinha um jeito de andar que consistia em fazer todos os dias a mesma caminhada, na mesma hora. A escrita de Nietzsche, muito mais dispersa, com menos coesão, tem a ver com o fato de que ele procurava com o caminhar, sentimentos de energia e luz. Sua escrita é muito forte e rápida, não tão demonstrativa como a de Kant. (GROS, 2015)
Sob outra ótica, o filósofo canadense Brian Massumi traz à reflexão a noção de andar como forma de manejar a queda referindo-se ao verso de Laurie Anderson - “Você está andando. E você nem sempre percebe, mas você está sempre caindo”. Com base nisso, Massumi reflete sobre restrição e movimento, equilíbrio e desequilíbrio, andar e cair: do passo dado na caminhada à inevitabilidade da queda. Ele afirma que não temos como avançar sem restrição, o desafio se dá pela continência, no limite do equilíbrio. Para cada passo há, necessariamente, a perda do equilíbrio. Não se trata de escapar da restrição, mas de manobrá-la, e isso, ele diz, é semelhante à linguagem. A cada passo porvir, a queda iminente. No instante em que transferimos o peso para uma das pernas instaura-se a “pequena queda”, faço referência aqui à pequena dança de Steve Paxton. Assim, o aprendizado de se manter de pé e a destreza da caminhada são, ao mesmo tempo, um desaprendizado da queda. Crescemos conquistando habilidades de sustentação e esquecendo a inevitabilidade do movimento de cair. Segundo Massumi: “cada movimento é sentido no potencial de liberdade à medida que se move sob a constante atração gravitacional. Ao navegar pelo mundo, há diferentes atrações, restrições e liberdades que nos fazem avançar e nos impulsionam para a vida” (MASSUMI, 2015, pg.12). A caminhada suscita desequilíbrio, o corpo pende na direção da gravidade sendo atraído por forças que são por ele desconhecidas, que é a própria vida. Como diz Laurie Anderson “A cada passo você cai ligeiramente para a frente. E depois se impede de cair, de novo e de novo, você está caindo. E, em seguida, impedindo-se de cair. E é assim que você pode estar andando e caindo ao mesmo tempo.” (ANDERSON, 1982)

Instituições
  • 1 Universidade Federal do Rio de Janeiro
Eixo Temático
  • Dança em Múltiplos Contextos Educacionais: práticas sensíveis de movimento
Palavras-chave
Dança Contemporânea
filosofia
Queda
Corpo Sensível