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Sabemos que a história da população negra no Brasil é marcada por muita luta, resistência, e conquistas. Lutar para se manterem vivos, por seus direitos, para terem suas humanidades validadas. Resistir aos silenciamentos, as tentativas de aniquilamento, a processos discriminatórios e racistas. Conquistas de espaços na sociedade, de possibilidades de (re)existência, de perspectivas melhores de futuro.
O Brasil é país que se constituiu por meio da escravidão, e nesse processo histórico, que produziu marginalizações e apagamentos, temos ainda nos dias atuais a invisibilização das contribuições de negros e negras para construção desse país, seja na esfera politica, educacional, social ou cultural. Como bem nos chama atenção, o professor doutor Silvio Almeida (2018), o racismo é sempre estrutural. E José da Silva Filho (2012) reforça:
[…] Além de não serem reconhecidos como agentes históricos na construção da Nação Brasileira, o corpo negro foi considerado biologicamente portador de degeneração física e mental por parte da intelectualidade brasileira do século XIX, o que implica numa suposta incapacidade intelectual, cultural e laboral da população negra, ainda presente entre nós. (SILVA FILHO, 2012, p.19).
Para chegarmos aonde estamos hoje, foi preciso uma trajetória de "coletividade em que se elaboram identidades e se organizam práticas pelas quais se defendem interesses, expressam-se vontades e constituem-se identidades” (GOMES, 2011, p.44), para gerar o fortalecimento das lutas por emancipação da população negra brasileira. Essa forma de fortalecimento, é o que entendemos como um modo de empoderamento, que acontece sempre em coletivo, "resultante da junção de indivíduos que se reconstroem e desconstroem em um processo contínuo que culmina em empoderamento prático da coletividade” (Berth, 2018, p.42-43).
É importante destacar que o empoderamento que nos apoiamos aqui, se pauta na ideia de orientar/capacitar grupos historicamente oprimidos, para lidar com o sistema de dominação que é perverso, desigual, injusto e desumanizador. Sendo um desenvolvimento de consciência do lugar que essa parcela de oprimidos(as) ocupam na sociedade, reconhecendo que para gerar transformação dessa conjuntura é necessário enfrentamento e resistência.
A palavra “resistência" no Dicionário Online de Português, dentre seus significados possíveis, tem dois que consideramos complementares e que evidencia a relação que aqui faremos com os grupos de dança de pagode baiano. A primeira definição é "Ação ou efeito de resistir, de não ceder nem sucumbir”; a segunda é a "Qualidade de um corpo que reage contra a ação de outro corpo”.
Dos anos 2000 até hoje surgiram vários grupos de dança de pagode baiano. Não se tem dados sobre a quantidade de grupos que já foram criados, principalmente porque vários deles já se findaram. Outro fator que impossibilita a composição de dados acerca desses grupos é o fato deles trabalharem de forma autônoma. Neste lugar, apresentaremos de forma sucinta os cinco grupos entrevistados.
Oz Katados foi um grupo que tinha em sua composição majoritariamente integrantes negros dos bairros de Pau da Lima e São Marcos. Criado no ano de 2007 e finalizado em 2012, o grupo surgiu do encontro de amigos, na praça do bairro, para dançar coreografias que conheciam, e depois de algum tempo resolveram formalizar a identidade do grupo com o nome de "Oz Katados”.
O BTL foi criado em 2011, apenas para uma apresentação do projeto do dia da consciência negra na escola, quando eles estavam na 8º série do ensino fundamental, mas após a apresentação o grupo teve o interesse de continuar junto e completarão 10 anos de atividades em 20 de novembro do ano corrente.
O Coletivo Bote Fé surge em 2017, quando duas das integrantes cursava o curso técnico em dança na Fundação Cultural do Estado da Bahia, como alternativa para ajudar na manutenção das mesmo no curso. A ideia era desenvolver algo que gerasse retorno financeiro ao mesmo tempo que dialogasse com suas vivências enquanto mulheres pretas e periféricas.
O BME, foi criado há 5 anos, e surgiu de uma brincadeira na escola, onde amigos, que estavam no primeiro ano do ensino médio, se juntaram para criar e dançar algumas coreografias.
O PST, foi um grupo de dança de pagode baiano que se constituiu em 2003 e finalizou em 2012, com integrantes majoritariamente moradores do bairro de Tancredo Neves e redondeza.
Em nossas buscas, que ocorreram principalmente em redes sociais, conseguimos ainda mapear alguns outros grupos que continuam atuando e os respectivos bairros que a maior parte dos(as) integrantes residem, são eles: Equipe tá quebrando (Boca do Rio), Cia de dança new show (Uruguai), O poder da quebradeira (Itapuã), Riw dance (Castelo Branco), Ballet detona (Valéria), Novovisual dance (Sussuarana), Swingueira do futuro (Avenida sete de setembro), A máfia dance (Largo do tanque), Cia de dança da Boca do rio (Boca do Rio), e o Ballet vip (Garcia). Grupos esses que trabalham exclusivamente com o pagode baiano ou que trabalham com o pagode baiano de forma esporádica para eventos e concursos.
Mesmo não usando o termo de empoderamento e resistência quando esses grupos trabalham com o pagode, eles(as) já o estão efetivando pelo simples fato de se unir para dar vida e manter uma arte preta, periférica e popular, em meio a uma sociedade que dificulta, invisibiliza e tenta impossibilitar a difusão e a potencialidade inerente nessa manifestação artística.
Por fim, é pertinente pontuar a influência dos grupos aqui apresentados para as danças periféricas e para a população negra, no sentido em que se tratam de corporações que afirmam, valorizam e representam os espaços de onde vêm. Enaltecendo um lugar de pertencimento por meio da celebração da identidade e da cultura soteropolitana e baiana, apresentando um jeito de corpo que ginga, quebra, rebola e groova para existir e resistir.
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