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O presente trabalho é um recorte da pesquisa desenvolvida em nível de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRGS, em nível de mestrado na Linha de Processos de Criação Cênica. A pesquisa tem como objetivo promover a articulação entre as práticas de dança e os procedimentos coreográficos com um texto literário para público infanto-juvenil de autoria da pesquisadora. O referido texto aborda, de forma ficcional, métodos de composição coreográfica de artistas tais como Pina Bausch, Trisha Brown e Merce Cunningham. O destaque neste texto é para a elaboração de um jogo inspirado no formato do RPG (Role Playing Game) como recurso educacional e metodológico para condução de jogos cênicos e criações em dança.
Dentre as diversas expressões em inglês que estão na moda, existe o termo 'gamificação', que se refere a incorporar características de jogos para promover engajamento das pessoas em alguma situação, que pode ou não ser educativa. O uso do vocábulo ganhou força na última década e tem sido utilizado, principalmente, na área empresarial. Convenhamos, porém, que as áreas de artes cênicas e de educação já vem falando da importância do jogo e da ludicização há muito tempo. O jogo nas artes cênicas aparece como um método no qual a improvisação e o processo de trabalho ou de experimentação são destaque. Em geral, o jogo cênico tem como regra, ou melhor, como proposta estar disponível para transformar as situações em possibilidades de movimento, recorrendo à memória e ao repertório pessoal em busca de soluções, de respostas e de interações. No ensino da dança em contexto escolar, todavia, nem sempre ocorre o engajamento espontâneo e fluido esperado em jogos de improviso, visto que, em geral, o público não tem intimidade com a prática da dança, repertório e técnicas às quais pode recorrer, além da situação de vulnerabilidade na exposição de si em movimento.
Para além da condução de um improviso por meio de tarefas, a inspiração para uma outra alternativa de procedimento de condução de jogos cênicos, nesta etapa da pesquisa, vem da década de 70. Nos Estados Unidos, em 1974, foi inventado o Role Playing Game, mais conhecido pela sigla RPG, que pode ser traduzido por “Jogo de Interpretação de Papéis” ou “Jogo de Interpretação de Personagens”. Esse estilo de jogo foi criado a partir de jogos de guerra e da literatura de John Ronald Reuel Tolkien (1892 - 1973), que ficou conhecido, especialmente, pelas obras Senhor do Anéis e O Hobbit.
O Role Playing Game é basicamente um jogo de criar e contar histórias. Segundo Gustavo César Marcondes, autor de O Livro das Lendas: aventuras didáticas (2004), esses jogos desenvolvem a expressão oral e corporal, já que, além de ter de falar continuamente suas ações, há a interpretação das personagens. O professor também vê o RPG como um incentivador da criatividade e da imaginação, visto que os jogadores e as jogadoras são autores e autoras de trechos ou de histórias inteiras. Dentro do contexto educacional, privilegia as ações em grupo, já que para vencer é preciso pensar em soluções coletivas e ainda pode abordar conteúdos disciplinares e interdisciplinares.
As histórias criadas e interpretadas no Role Playing Game são chamadas de aventuras. O narrador, chamado de mestre, conduz a partida descrevendo o ambiente, interpretando os personagens, amigos ou inimigos, que os jogadores encontrarão pelo caminho, organizando as ações e determinando os resultados das escolhas dos demais jogadores, quando não são usados dados. Antes de iniciar a aventura, cada jogador cria seu personagem com base em quesitos tais como aparência física, perícias, talentos, falhas, poderes e efeitos colaterais, equipamentos, dentre outros atributos. Além disso, o jogo começa com cada participante apresentando resumidamente a história de vida de seu personagem. Quem é, de onde veio, quais objetivos têm, o modo como vê o mundo, o que ama, o que teme, entre outras características.
Em suma, o RPG é um jogo de criação, no qual as ações do coletivo são privilegiadas para alcançar o objetivo final da aventura. Também é um jogo que permite improvisos, pois os participantes podem tomar decisões inesperadas e, por isso, também requer atenção.
Como o Role Playing Game é uma inspiração, nem todos os passos e itens dessa estrutura se fazem necessários em um “jogo de dança” ou em um “jogo de composição coreográfica”. Na adaptação para o jogo utilizei como base narrativa o texto literário infanto-juvenil de minha autoria intitulado Cora decide dançar..., o qual aborda a composição coreográfica recriando a realidade e tratando do assunto pelo viés da ficção. Essa criação literária apresenta a protagonista, Cora, que chega ao Mundo da Palavra Dançada e encontra os demais personagens são histórico-ficcionais (inspiradas em coreógrafos(as) com contribuições artísticas já reconhecidas na História da Dança e em seus procedimentos para composição coreográfica, personagens reais-ficcionais (pessoas contemporâneas a mim com quem pude fazer aula, dançar, conversar e criar) e personagens mágicos (com caráter fantástico e misterioso, que influenciam e auxiliam a protagonista em sua trajetória).
Este trabalho está atrelado à pesquisa que desenvolvo no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRGS, em nível de mestrado na Linha de Processos de Criação Cênica, a pesquisa tem como objetivo promover a articulação entre as práticas de dança e os procedimentos coreográficos desenvolvidos pelos artistas já mencionados com o texto literário referido, bem como a minha prática docente como professora de arte na rede pública estadual do Estado do RS.
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