O Coco de Roda no Quilombo do Ipiranga como um processo de ensino-aprendizagem em dança e a prática de preservação cultural e epistemológica da comunidade.

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Comitê Temático - Apresentação Oral
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Resumo

O Coco de Roda no Quilombo do Ipiranga como um processo de ensino-aprendizagem em dança e a prática de preservação cultural e epistemológica da comunidade.

Nesta pesquisa de dissertação em andamento pretendo analisar malhas de relações que tecem as aprendizagens na manifestação do Coco de Roda no Quilombo do Ipiranga, com foco na sua expressão em dança e, possível afirmar, contribuem para a preservação das epistemologias da comunidade. Epistemologias que se criam e são compartilhadas na experiência social, fato que diz respeito a um caráter político-cultural do Coco de Roda. O Quilombo do Ipiranga é um quilombo remanescente localizado na Paraíba e situa-se no município do Conde.
Ao considerar a dança do Coco de Roda enquanto uma expressão cultural, ela é suprida de elementos étnicos, culturais, históricos, estéticos, políticos, ritualísticos e interculturais (LIGIÉRO, 2012). Esse caráter que constitui a manifestação cultural em seus multidirecionamentos revela e reelabora valores, símbolos e saberes de um povo, que são reconhecidos aqui enquanto epistemologias (SANTOS, 2010). A dança do Coco de Roda proporciona uma aprendizagem não restrita somente a passos, movimentos, gestos, caminhos de dança ou, ainda uma categorização destes saberes. Ela é uma manifestação cultural que acontece em conjunção entre dança-batuque-canto e relaciona-se com dinâmicas simultâneas de brincadeira-trabalho-ritual-festa. O corpo é “agenciador fronteiriço” (ANDRADE, 2012) dos elementos reunidos na oralidade, no batucar e no dançar. Enquanto se aprende à expressão em dança, o marcar dos pés, aprende-se também a marcação do bombo e as respostas do coro que sustentam as tiradas, junto à apreensão do contexto em um todo, que envolve memória e história em narrativas presentes recriadas.
Como uma prática histórica, segundo Mestra Lenira (in memoriam) e Mestra Ana, o Coco está presente há 200 anos na comunidade e se mantém enquanto uma tradição cultural remanescente de uma diáspora africana e indígena. O Coco de Roda no Quilombo do Ipiranga cria ambientes de memória em que repertórios corporais (orais, gestuais, habituais) são colocados “na roda”, seja em festa ou não e instruem e convidam a quem conhece e não conhece a história dessa cultura a segurarem o coco.
Busco investigar as inferências e relações entre o corpo que dança o Coco como sendo o mesmo corpo explorado do quilombola, pois, uma hipótese da pesquisa é a de que as marcas do processo exploratório estão em marcas corporais e territoriais. Há, também, o fato de que narrativas desses brincantes do Coco em ação se estruturara estritamente relacionadas às suas histórias de resistência e luta no processo de retomadas de terras. Ao propor abordar a dança do Coco de Roda do Quilombo do Ipiranga enquanto uma prática de aprendizagem, defendo que o saber popular cultural passado como um legado relaciona-se como uma forma de ensino-aprendizagem não formal e informal na comunidade. Vale ressaltar que esses modos de ensino-aprendizagem são fundamentais na formação da pessoa. Segundo Mestres e Mestra do Quilombo, o Coco funciona como uma aula, uma oficina, em que os saberes dos mais velhos são ensinados aos que se dispuserem a aprender, seja da comunidade ou não.
Em consonância com Silva (2014), o Coco de Roda é uma prática de educação popular, em que se compartilham e se criam saberes na experiência do próprio acontecer singular da dança. Segundo os mais velhos da comunidade, não se ensina o Coco de Roda, se aprende fazendo. Esta proposta de ensinar apresenta um hábito cognitivo, ou seja, uma maneira de compreender como se conhece um fenômeno, qualquer que seja ele. Evidencia que a aprendizagem se dá com a o exercício de percepção e reflexão dos movimentos que envolvem o acontecimento do Coco, seja dançar, tocar e cantar.
Para essa pesquisa referencio-me em passos traçados por Silva (2014), que traz o Coco de Roda numa perspectiva de ensino; no conceito de corponegociação desenvolvido por Peticia Moraes (2016) para pensar sobre as relações que vão sendo tecidas durante a festa; Andrade (2012) auxilia pensar a dança indissociada de seu caráter cultural. Leda Maria Martins (2002;2020) embasa a perspectiva de um tempo espiralar que tece e remonta histórias expressões dadas no e pelo corpo. Metodologicamente a pesquisa está nuclearmente estruturada visando uma antropologia comprometida (MARTIN, J.; MADROÑAL, A. 2016) e em uma lente de olhares de uma antropologia da dança de Giselle Guillon (2011).

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Giselle. Antropologia da Dança: um campo teórico e metodológico em consolidação, no Brasil. Texto apresentado na VI Reunião Científica da abrace. Porto Alegre, 2011.

ANDRADE, S. E-FEITOS DE OUTRA ÉTICA CULTURAL NA DANÇA. Labore: Laboratório de Estudos contemporâneos em Dança. POLÊM!CA: revista eletrônica v. 11, n. 4. UFRJ, 2012.

LIGIÉRO, Z. Corpo a corpo: estudo das performances brasileiras. Rio de Janeiro: Garamond, 2ed, 2011.

MARTÍN, J. C., & MADROÑAL, A. Antropologia comprometida, antropologias de Orientação Pública e descolonialidade. Desafios etnográficos e descolonização das metodologias, 2016.

MARTINS, Leda. Performances do tempo espiralar In: RAVETTI, Graciela; ARBEX, Márcia (org.). Performance, exílio, fronteiras: errâncias territoriais e textuais. Faculdade de Letras, UFMG, 2002.

MORAES, Peticia. A Festa do Coco das comunidades quilombolas paraibanas Ipiranga e Gurugi: acontecimentos e corponegociações. São Paulo, 2016.

SANTOS, B. Epistemologias do sul. São Paulo: Cortez, 2010.

SILVA, C. COCO DE RODA NOVO QUILOMBO: saberes da Cultura Popular e Práticas de Educação popular na comunidade quilombola de Ipiranga no Conde-PB. UFPB, 2017.

Instituições
  • 1 Universidade Federal da Bahia
Eixo Temático
  • Dança em Múltiplos Contextos Educacionais: práticas sensíveis de movimento
Palavras-chave
Dança
Coco de Roda
Quilombo Ipiranga
cultura popular
Ensino-aprendizagem