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Apresenta-se aqui um fragmento de pesquisa que tem como elemento condutor e inspiração a figura icónica – Rainha Nzinga. Mulher que liderou os reinos de Ndongo e Matamba e que resistiu, no século XVII, com estratégias de luta e política, a invasão portuguesa em terras da África central. Ela é símbolo para a busca de uma compreensão de intercorporeidade, um corpo que está em mim, que se relaciona com o outro e o mundo, e, nesta inter-relação, reverbera Axés (energias). Jinga está presente em diversas expressões tradicionais da cultura brasileira como as Congadas, Congos, Moçambiques e Capoeira. Sendo assim, mostra-se uma provocadora fundante em simbolização de luta, resistência e poder dos povos negros e que vem a colaborar com os fazeres do corpo na cena contemporânea. Os Axés de luta, de estratégias guerreiras, de sabedoria, de emancipação que evolve esta personagem faz refletir o potencial existente e suas possibilidades de promover uma consciência histórica e uma reflexão sobre temas relevantes no atual momento como racismo, gênero, preconceito e diversidade estético-artística. Neste sentido, é de grande evidência que expressões de culturas de raízes africanas promovem o contato com uma diversidade estética e sensitiva que nos permite provocações e inspirações para composições de produções cênicas na contemporaneidade, em especial ao pensar-se no corpo que dança.
Esta comunicação mostra aspectos de pesquisa em caráter pós-doutoral sobre a rainha Nzinga (Jinga) a partir de sua relação com a dança e o axé que envolve a corporeidade desta personagem em suas passagens históricas. A partir de referências da literatura como Linda Heywood e José Eduardo Agualusa, traça-se paralelos com as rainhas jingas presentes nas tradições populares tais os congos e Moçambiques, apontando para uma reflexão de como o Axé, presente na figura da rainha Nzinga, projeta-se nos corpos de rainhas Jingas em estado de performance na contemporaneidade. Com isso, deseja-se apontar para como artistas da cena podem constituir em seus processos de criações, descobertas de Axés advindas das expressividades das tradições populares afro-brasileiras como possibilidades de corporeidades a devir na cena dançante.
Ver-se no Brasil que expressividades como; Congos (ou congadas), Moçambiques que reproduzem coroação dos reis do Congo e a Capoeira dança/luta, contém ou fazem alusão a personagem rainha Jinga. Nesta perspectiva, a presença desta figura nas tradições populares aponta para um simbólico respeito e admiração para com essa mulher. Nestes folguedos, a rainha Nzinga (Jinga) revela-se guerreira, líder imponente, mulher que emana força e características de revolução apontando para uma consciência do ser negro em nosso contexto histórico, pois, os fazeres de Nzinga “suscitam e iluminam questões mais amplas tais como a escravidão, o papel da igreja, sua herança social, política e econômica, e a influência passada e presente de Nzinga nos descendentes de escravos africanos no Brasil.” (GLASGOW, 2013, p. 10).
Sendo assim, deseja-se para o corpo do dançante o Axé dessa mulher que é matriz de um feminino à frente de sua época e temida por seus adversários e que carrega uma ancestralidade que, constantemente, é vivenciada por outras mulheres que revivem a energia nela perpetuada na memória popular. Acredita-se, como hipótese, que é possível traçar paralelos entre o Axé de Nzinga e os brincantes nas cenas dos folguedos aqui mencionados. Esse dançar do corpo manifestado em corpos de Jingas proporciona descobertas para a composição de uma corporeidade que contempla estéticas inclusivas para a arte cênica contemporânea.
Na literatura pesquisada, observou-se a constante presença da dança na história da rainha Nzinga evidenciando uma relação primordial desta expressão corpórea nos fazeres de diversos povos africanos e que, em sua diáspora para as Américas, mostra-se como herança desses homens e mulheres que contribuíram para nosso processo de construção de culturas. Assim, os autores José Eduardo Agualusa e Linda M. Heywood são fundamentais para o entendimento de passagens históricas em que a dança envolve a rainha Nzinga, oferecendo a compreensão da presença de diversos modos de sentir e passar Axés em uso do corpo em movimento.
O Axé, considerado como energia fundamental do ser e de suas relações com o mundo é a energia que guia esta proposta de pesquisa, com pretensão de conduzir o artista da cena em seus processos de criação. São as relações de força contidas no movimento e nas revelações de saberes da negritude que são expostas no corpo. Portanto, o Axé que compõe o corpo em movimento na cena, significa saberes para o artista da cena e para o público com que se relaciona. Deseja-se promover um Axé para o artista/aluno cênico que vem de outras referências de ritualidades cênicas e não das estruturas formais de um teatro/dança eurocêntrico amplamente divulgado em nossas instituições de formação de Artistas.
O diálogo será com o corpo que se percebe e/ou se descobre envolvido no universo da ludicidade que se propõe a conectar-se com o mundo técnico/expressivo do popular, que apreende seus saberes na prática do fenômeno estético/artístico, pensando que “O corpo é nosso meio geral de ter um mundo.” (MERLEAU-PONTY,1999, p.203). Neste sentido, o corpo significa o seu meio, o seu ambiente. O corpo está em diálogo com o mundo sendo fenômeno, bem como percebendo os fenômenos expostos no mundo. Nesse diálogo, as coisas podem e são ressignificadas em formas de comunicação, de linguagem, de aprendizagens.
Referências Bibliográficas
AGUALUSA. José Eduardo. A rainha Ginga – E de como os africanos inventaram o mundo. Lisboa: Quetza, 2014.
GLASGOW. Roy. Nzinga. São Paulo: Perspectiva, 2013
LINDA, Heywood M. Jinga de Angola – a rainha guerreira da África. São Paulo: Todavia, 2019.
MERLEAU-PONTY , Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Perspectiva. 1999.
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