MOSAICOS IMAGÉTICOS EM DANÇA: COMPOSIÇÕES DO PROCESSO ENTRE OLHARES E VENTOS

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Comitê Temático - Apresentação Oral
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Resumo

O estudo em foco é centrado no mergulho de conhecer e reconhecer as tramas que se tecem na experiência de criação artística do processo-produto “Entre Olhares e Ventos” da Gaya Dança Contemporânea. Tem como base reflexões em torno da construção de um mosaico textual escrito e imagético, a partir dos registros realizados no decorrer de encontros presenciais na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e de encontros remotos, desde junho de 2020, quando o grupo retomou suas atividades, após uma suspensão instaurada pelo estado da pandemia causado pela Covid-19. Aqui, o intérprete revela, para além da materialização da sua dança, a sua função de fotógrafo, iluminador, cenógrafo, dentre múltiplas funções para se estabelecer em cena.
Nessa configuração, questionamentos nos foram postos: Como compor sem a experimentação de possíveis partituras gestadas nos laboratórios que reuniam um coletivo no mesmo espaço-tempo? Como seguir com uma pesquisa diretamente implicada e retroalimentada no/e pelo processo criativo investigado?
Diante do novo panorama, estamos reinventando o exercício escrito da pesquisa, concomitante com um novo modo de escrever as partituras dançadas emergentes neste cenário virtual, que perfura nossas moradias, habitadas por uma multiplicidade de imagens visuais e sonoras da mídia (BAITELLO JÙNIOR, 2012, APUD FERNANDES, 2018). Estamos próximos por localizações geográficas que são encurtadas nas telas, mas distantes das possibilidades de sentir os corpos nas suas inteirezas sensoriais (cheiros e interações sutis que põem em contato o outro que me toca e se deixa por mim tocar).
Como pesquisadoras, não investigamos um objeto passível de controle e manipulação, mas os corpos que somos e os corpos que vivem internamente esses trajetos criativos, o que nos impõe desafios, ao considerar que a presente pesquisa apresenta uma natureza descritiva e se dá no entrelace entre “atividade prática e reflexão acadêmica, [...] entre “cena e escrita, movimento e palavras” (FERNANDES, 2018, p. 120).
O processo da dança nesse contexto de distanciamento físico ganha maior potencialidade imagética, o que eleva a produção e produtos em videodança. Nessa perspectiva, pensamos em um corpo distanciado do outro, o que pode caracterizar uma aproximação de si próprio, da casa e de familiares. Mas é, sobretudo, um corpo virtual e tem nas suas obras artísticas um charme de cinema.
A imagem virtual ganha outro aspecto, para além do registro, mas parte fundamental da obra, desde a concepção até os chamados externos, para um público que poderia ser inacessível em outras ocasiões. Certamente, estamos diante de uma dança que ultrapassa fronteiras, que cabe e pode estar em todos os lugares. Há, entretanto, frente ao mundo, e a dança, uma peste que corresponde à velocidade do homem globalizado.
Assim como a informação, e a falsa informação, o contágio entrou na mesma corrida desenfreada. De acordo com Garfinkel (1967) apud Platero e Gomes (2020), essa rapidez é o reflexo de uma realidade socialmente construída, dessa forma as ações promovidas pelo Estado se tornam prestações de contas na sociedade. Então, em meio ao caos, mais de dois milhões de mortes pelo avanço de um vírus global, Von Hunty (2020) nos interroga se haverá espaço para a arte. Como sensibilizar os corpos virtuais e tomados por uma onda de insegurança? Ou pela falsa segurança. O que sobrará de humano na humanidade para servir de dança?
Não está tudo ok, não está legal. O corpo é influenciável, e a dança tem um papel indispensável de aguçar percepções, fazer pulsar e movimentar a energia vital. E o corpo que sou e é, habita um espaço, mas esse lugar externo não existe por si só. O homem cria, fundamenta e dá sentido ao espaço. E essa relação corpo-espaço é evidenciada no papel do movimento e nas ações performativas.
A Dança permanece como proposta e provocação ao pensamento. (XAVIER, 2011). Mesmo on-line é capaz de sustentar seu olhar sobre o caos contemporâneo e transformar modos de ser e estar. Entre Olhares e Ventos perpassa esse caminho transformativo do corpo que é, que está, que se pensa e sensibiliza. A partir dos estímulos criativos, por meio da exploração do som como potência e poesia dançante, ações são geradas, como os estudos do balançar, a partir do sentido sonoro que o vento e a sua manifestação reverberam nos corpos. Imagens socialmente construídas que permeiam o imaginário-criativo dos intérpretes e criadores, são impulsos para mosaicos imagéticos que se inscrevem nos corpos (BITTENCOURT, 2012) e desenham cenas que se revelam através de varais de roupas, de sinuosidades do samba de roda e de bonecos do carnaval de Olinda-PE.
Apesar das provocações incitadas por um processo criativo limitado pela não presencialidade física dos corpos, apostamos na resistência da arte que se refaz e se rearranja no intuito de afetar e nos fazer afetados. Seguimos em um campo ora predominantemente virtual, no qual se instituem afinidades compartilhadas pelas “telas”, que neste momento nos permitem ver, experimentar e conformar a nossa arte.

Referências

BITTENCOURT, Adriana. Imagens como acontecimentos: dispositivos do corpo, dispositivos da dança / Adriana Bittencourt Machado. - Salvador: EDUFBA, 2012.
FERNANDES, Ciane. Dança Cristal: da Arte do Movimento à Abordagem Somático-Performativa. Salvador, EDUFBA, 2018.
PLATERO, K. GOMES, F. Números estatísticos e realidades: Uma proposta de reflexão sobre a pandemia de Covid-19 no Brasil. Dilemas; 2020. p. 1–11.
VON HUNTY, Rita. Haverá Arte Depois do Coronavírus? (2020). (16m51s) Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=kUP1Qv8w4V4> Acesso em: 29 mar. 2021.
XAVIER, Jussara Janning. O que é a dança contemporânea? O Teatro Transcende, Blumenau, v. 16, p. 35-48, 2011.

Instituições
  • 1 Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Eixo Temático
  • Dança em Múltiplos Contextos Educacionais: práticas sensíveis de movimento
Palavras-chave
Criação
videodança
MOSAICOS IMAGÉTICOS