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MenstruAÇÃO:
Língua, sangue e feminismo racializado
MenstruAÇÃO: língua, sangue e feminismo racializado é um artigo coletivo feito por quarenta mãos. A ideia da escrita coletiva surgiu de uma atitude corporativista da turma da disciplina Dança, Corpo e Cultura, do PPGDan/UFRJ , ministrada pela Profa. Mariana Trotta, que também assina com sangue o artigo. CORPOrATIVISTA por entender que a produção acadêmica pode ser colaborativa. Escrevendo em luto, na pandemia, na exaustão, no genocídio, no trabalho intensificado das mulheres que assumem as diversas tarefas, pesquisadoras, dançarinas, bruxas, desobedientes rebelaram-se ante à exigência da produção neoliberal, ante à necessidade do isolamento acadêmico que o formato da dissertação de mestrado nos impõe, ante à comprovação de produtividade. Se essa menstruAÇÃO parecer inadequada, acreditamos, de antemão, que é o modelo que está engessado e não mais nos representa.
Importante situar que todas somos mulheres cis, com úteros que menstruam, buscando ampliar a polissemia da palavra mulher e da palavra sangue. Interessa-nos, também, a força vibrante da cor vermelha e seus símbolos sociais, como um posicionamento político em direção à história que queremos construir.
A manipulação de gênero – como uma das faces de um conjunto de pensamentos e práticas do poder patriarcal, que opera uma subjugação das mulheres pelos homens - sempre foi utilizada como recurso para a produção capitalista. Ainda hoje, as mulheres sentem reverberar a naturalização da exploração dos corpos femininos.
Abrimos um diálogo descontínuo entre nós, somado às nossas memórias e diferenças, com as autoras bell hooks, Clarissa Pinkola Estés, Conceição Evaristo, Grada Kilomba, Judith Butler, Lélia González, Lia Vainer, Liv Sovik, Silvia Federici, Lucila Scavone, Susan Sontag, entre outras vozes femininas, com as quais gritamos em uníssono nas ruas. A influência dos feminismos passa a ter papel fundamental para o protagonismo social e identitário. Os discursos feministas desmascaram a real posição das mulheres na sociedade, no intuito de retirar o poder patriarcal e as amarras que prendem as mulheres à submissão e subordinação, evidenciando sua voz e resgatando sua autonomia de poder sobre seu próprio corpo e suas relações.
bell hooks (2018) e Lélia González (2020) nos levam a pensar sobre a relação de povos colonizados com a língua colonizadora. As reflexões colocadas nos lembram que língua é corpo e, portanto, nos constitui. Falamos na língua do opressor, mas de forma diferente, com a nossa língua, a que dispensa o patriarcado e a colonização. A língua feminista busca não oprimir, mas, sim, exprimir.
Durante a escrita deste texto o Brasil consolida-se como o epicentro da pandemia do novo Coronavírus. Perdemos mais de 300 mil vidas, em pouco mais de um ano. Ao mesmo tempo, a justiça brasileira aprova a comemoração da ditadura militar no dia 31 de março como um marco da democracia do país. Mesma semana em que a morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes completa três anos de impunidade.
As imagens e informações de sofrimento da guerra analisadas por Susan Sontag (2003) e o cenário de morte no Brasil contemporâneo não geram nenhuma empatia coletiva em prol de uma insurgência civil no Brasil. Não somos espectadores da calamidade do outro, somos espectadores da nossa própria decapitação pública; assumimos certa “teleintimidade com a morte e a destruição” (SONTAG, 2003, p.22) como parte de uma fantasiosa condição irremediável e acidental brasileira.
Sendo assim, por que o sangue menstrual deve ser retido e escondido enquanto o sangue do genocídio nos é teleíntimo? Considerando a palavra contracoreografia a partir da proposta de força de levante, como proposto por Lidia Larangeiras (2020), nos perguntamos: existem contracoreografias possíveis?
E ainda: o que surge do diálogo entre corpos de mulheres que possuem experiências de vida, de raça e de religião radicalmente distintas? Como desalienar um corpo ao investigar os discursos que manipulam suas experiências em luta? Compreender o que oprime um corpo é suficiente para libertá-lo das sujeições? Na tentativa de responder a tantas perguntas, percebemos que também é importante racializar as palavras, a fim de desnaturalizar o status social do corpo branco como autoridade desencarnada, universal e natural (SOVIK, 2009).
Não só na idade média, mas atualmente as bruxas são as mulheres. Mulheres que exercem sua sexualidade, que conhecem seus corpos, que reivindicam seus direitos e lutam por liberdade. O patriarcado teme a potência da sabedoria das mulheres, e o quão eficaz ela é no despertar coletivo.
REFERÊNCIAS:
GONZÁLEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. In: RIOS, Flávia; LIMA, Márcia (orgs.) Por um feminismo afro latino americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro:Zahar, 2020.
HOOKS, bell. Linguagem: ensinar novas paisagens/novas linguagens. In: Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 16 (3), p. 857 – 864, dezembro de 2008. Tradução: Carlianne Paiva Gonçalves, Joana Plaza Pinto e Paula de Almeida Silva.
LARANGEIRA, Lidia. Contracoreografias: friccionar dança, escrita e feminilidade. In: BASTOS, Helena; ROCHA, Lucas, SANTOS, Bárbara; TOURINHO, Lígia (orgs). Carnes vivas - Dança, corpo e política. Coleção "Quais danças estão por-vir? Trânsitos, poéticas e políticas do corpo". Salvador: ANDA, 2020. p. 560 - 573.
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