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1. Mapeando a improvisação no cenário da dança de Recife
Essa comunicação apresenta reflexão gerada a partir da pesquisa “A improvisação do movimento como caminho para composição cênica”, realizada Acervo RecorDança, com o incentivo do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura – Funcultura entre junho de 2016 e julho de 2017. A pesquisa resultou no documentário “Danças do Agora”, que recentemente foi publicado no canal do Acervo e impulsionou proposições de mestrado e doutorado das autoras. Entretanto nunca houve uma publicação escrita dos resultados da pesquisa. Este artigo tem como intuito publicizar alguns dados da pesquisa, tecendo reflexões atualizadas sobre os conteúdos gerados.
O desenvolvimento desse estudo teve como interesse discutir os processos criativos em dança, estudando especificamente a prática da ‘improvisação do movimento’ como um caminho para criação. Na dança, assim como em outras linguagens, existem diferentes metodologias e estratégias de criação, e a escolha por um caminho, em detrimento a outro, revela uma série de questões referentes à visão de mundo do artista criador. Dessa forma, refletir sobre as práticas pode revelar o corpo político presente no processo artístico.
No livro A Partilha do Sensível, Jaques Ranciére (2009) discute a relação entre estética e política. O autor defende que a estética está na base do campo político. Sendo assim, a arte, como espaço de partilha do sensível, atua diretamente na visibilidade de pensamentos e formas de estar no mundo. “As práticas artísticas são maneiras de fazer que intervêm na distribuição geral das maneiras de fazer e nas suas relações com maneiras de ser e formas de visibilidade” (Ranciére, 2009, p.17). O interesse da pesquisa foi entender como diferentes processos, caminhos e estratégias de criação em dança dão visibilidade a corpos e discursos de mundo específicos. O uso da improvisação na prática da criação em dança foi tomado como objeto do estudo, com intuito de entender quais os pensamentos e maneiras de ser estão envolvidos nesta prática, no cenário da dança do Recife.
Como metodologia para definição do recorte a ser estudado, foi realizado um mapeamento, através de questionário divulgado via internet, dos artistas pernambucanos que declararam utilizar a improvisação em suas práticas. O mapeamento foi feito por adesão, ou seja, a partir do desejo dos artistas de participarem da pesquisa. Recebemos respostas de 32 artistas, atuantes em Recife. A partir da análise das respostas dos seis entrevistados, desejamos discutir o entendimento de improvisação e sua relação com a visão de mundo dos artistas. O estudo do resultado da consulta levou à escolha de seis artistas/grupos que foram entrevistados para detalharem sua prática de improvisação, através de entrevistas semi-abertas.
2. Princípios de mover com o mundo
Ao longo da pesquisa foi possível identificar que os improvisadores entrevistados, apesar de terem nuances diferentes entre si, e universos de dança diversos (dança contemporânea, dança teatro, cavalo carinho, capoeira) comungam de um olhar para a vida que está fortemente atravessado por princípios presentes no improviso. Quatro pontos levantados pelos entrevistados foram identificados para reflexão: relação intrínseca entre arte e vida; a processualidade (MIDGELOW, 2013) como princípio na dança que fazem; a ideia de irreversibilidade, algo que não pode ser revisado, nem corrigido (BARDET, 2015); e o cultivo de um regime de atenção conjunta (CITTON, 2015) em suas práticas.
Neste momento destacamos o primeiro destes itens: fica evidente que os artistas entrevistados escolheram trabalhar com o improviso porque esta prática se aproxima de um pensamento de mundo que eles querem vivenciar. A relação estreita entre arte e vida é muito presente no discurso desses artistas que investigam e criam a partir do improviso do movimento.
O exercício de aceitar o movimento da vida, e da dança, em sua processualidade, em contínua transformação é um dos pontos recorrentes. Em geral expressa a compreensão de que a improvisação do movimento permite o encontro com o desconhecido, com algo que não foi experenciado anteriormente e que esse acontecimento transforma quem se move.
A improvisação aparece, então, como potência para a construção do conhecimento, que parte de uma consciência de quem experimenta, e de uma construção de autonomia. “Eu acho que trabalhar a improvisação, para mim, é poder refazer a minha história, com autonomia e com escolha. Assim, poder me reinventar.” (SANTANA, 2016). Nessa frase, a artista Gabriela Santana tanto fala dessa relação intrínseca entre arte e vida como pressuposto, como também evidencia o caráter processual de sua criação, um espaço de reinvenção contínuo.
Lidar com o risco, com imprevisibilidades, é mais importante do que um desejo de controlar ou predeterminar o que vai acontecer na dança. E essa é uma questão difícil de ser trabalhada, pois contém assumir o erro, com um entendimento de irreversibilidade. “Não retornar a uma ideia ou uma sensação para revisá-la, corrigi-la, selecioná-la, antes da sua apresentação; mas é bom, no entanto pensar aquilo que se faz, ou mesmo de preferência, pensar fazendo aquilo que se está em curso de fazer (BARDET, 2015, p. 163).
Referências:
BARDET, Marie. A filosofia da dança: um encontro entre dança e filosofia. Martins Fontes, São Paulo, 2015.
CITTON, Y. Pour une écologie de l’attention, Paris: Seuil, 2014.
MIDDGELOW, Vida. Dance and the Academy: improvisation, (dis)appearance and language. Canal Middlesex University, 2013. Acessado em: 07 fev 2021.
https://www.youtube.com/watch?v=ku2x8nBslUk&list=PLZK6jEnGMWFIIlw77Qj5PU...
RANCIÈRE, Jaques. A partilha do sensível: estética e política/ Jaques Rancière; tradução e Mônica Costa Netto – São Paulo: EXO experimental org; Editora 34, 2009 (2ª edição)
SANTANA, Gabriela, Gabriela Santana: depoimento oral [2016]. Entrevistadores: Liana Gesteira Costa e Taína Veríssimo. Recife: 2016.
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