Ideias para agitar o mundo em nós

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Comitê Temático - Apresentação Oral
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Resumo

Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que os dias “assombrosos” de hoje, como diz Pelbart (2019, p. 9), fazem refletir sobre os modos de existências em relação aos seus contextos de atuação. Por modo de existência, compreendo toda e qualquer maneira do corpo que expõe na carne os afetos que lhe compõem. Aqui, convido a pensar a carne como essa materialidade que expõe questões no ato de dançar. O título deste trabalho, é uma referência ao livro do escritor, Ailton Krenak (2019) “ideias para adiar o fim do mundo”. O autor, propõe pensar no modo como o humano pratica o afastamento, o distanciamento com um mundo que deveria estar imbricado, mas ao contrário disso, seguimos rumo à destruição como uma prática de vida, influenciada, obviamente, pelo capitalismo desenfreado, em que tudo deve ser mercadoria. Por mundo é necessário que compreendamos uma multiplicidade, tal como é o corpo. Não existe um mundo, assim como não existe apensas um corpo. Diante do exposto e levando em consideração o título deste artigo (Ideias para agitar o mundo em nós) é preciso dizer que muitas práticas, a meu ver, agitam o mundo posto e o transformam. Para tanto, este trabalho propõe pensar a possibilidade de agitar um mundo que é posto no próprio corpo, por meio de práticas artísticas em dança. Pensar o agito, não se fecha em uma individualidade, pois faz ressoar o movimento como expansão, porque não é um ato isolado. Se agitar pode ser sacudir algo, o movimento cria uma série de outros movimentos encadeados, em rede. Dito isso, faz-se importante pensar no agito, mais concretamente, relacionando-o a movimentos de insurgência em agrupamentos estratégicos. É o caso do Agitprop , sigla que junta as palavras, agitação e propaganda, para dar conta dos movimentos insurgentes do início do século XX na Rússia em resposta ao nazismo instaurado. A agitação neste contexto específico, acontecia na aglutinação de pessoas para resistir e denunciar. O movimento se dava no encadeamento tático, e faziam mover um mundo a partir de ideias de enfrentamento. Os grupos que se organizavam eram de grupos artísticos, jornalísticos, literários. O agito no corpo pode fazer mover as ideias encrustadas na carne? Como seria possível movimentar o mundo em nós, ao dançar? Fazer movimentar o mundo em nós, pode ser a possibilidade de agitar uma ideia no corpo, uma problematização, um desejo. Neste sentido, pensar o agito, não se fecha em uma individualidade, pois faz ressoar o movimento que propõe. A intenção não é separar o corpo do mundo, cada corpo é um mundo de ideias, de desejos, de uma singularidade própria, mas a de fazer pensar em agitar o próprio mundo em coletividade. Para pensar o agito nos dias de hoje é imprescindível atentar às ações que promovem uma espécie de afirmação da vida de corpos que estão em situação de “abjeção”, que segundo Butler (2020, p. 18) perpassa pela sujeição de corpos em seu modo de existência singular. A abjeção de corpos pode ser pensada a partir dos impedimentos, pois são corpos que, de uma certa maneira, são impedidos de deixarem seu modo de expressão seguirem o fluxo de sua singularidade. Quais corpos são estes? corpos reduzidos ao entendimento de corpo estigmatizado e homogeneizado no mundo social. O impedimento tem relação com um processo de assujeitamento. Será que os corpos estão absolutamente imersos e impedidos de se expressarem aos seus modos, já que nada escapa às lógicas de poder? Quanto a última questão, acima, pensemos no agito como possibilidade de fazer movimentar o que está posto aos corpos e a partir dessa possibilidade nos deparamos com uma realidade de corpos que lutam. Há uma espécie de força vital que surge como efeito de uma desgraça imposta goela abaixo; uma força que emerge da vulnerabilidade, da abjeção imposta, do estado de precariedade de um corpo esgotado, mas faz da sua condição, sua potência de criação. Isso tudo dançando. Pelbart (2019, p. 16) afirma que os movimentos insurgentes, de corpos que reivindicam o direito à vida, promoveram e promovem ações impossíveis de serem desfeitas, reparadas. O autor refere-se a uma espécie de movimento de placas tectônicas para exemplificar o desmantelamento de hierarquias tradicionais entre corpos, gênero, saberes, modos de existências, entre outras, às quais são incrustadas nas relações. A meu ver são movimentos catatônicos que estão em constante agito, fazendo com que placas enraizadas se mobilizem. A agitação de movimentos como forma de resistência ao mundo que prima pelo impedimento de corpos em suas singularidades, acontece hoje nos fazeres das práticas artísticas e que primam pela reflexão crítica de um corpo que é político por existir no mundo. Agitar o mundo em nós perpassa pela ideia de ativar, no desenho relacional, “as forças coletivas emergentes” (MANNING, 2019, p. 266). É preciso, portanto, ativar tais forças no desenho das relações estabelecidas de um tempo endurecido, para pensar o agito do futuro em nós, ou seja, agitar possibilidades de modos de vida outros. O agito como possibilidade de evocar um futuro que ainda não se instaurou. Futuro imbricado no passado. Um corpo que dança ao convocar o agito como possibilidade de problematizar um mundo posto, nos tempos da importantização de corpos em detrimento de outros, aponta para uma coletividade na intenção de se lançar em um futuro possível, por que enuncia na carne outras existências, fugindo dos assombros que excluem. Referências BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do" sexo". São Paulo: N-1 edições, 2020.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MANNING, Erin. Artimanhas: Coletividades emergentes e processos de individuação. Tradução: FOGLIANO, André; MAGALHÃES, José. 2018. (Tradução/Artigo).
PELBART, Peter Pál. Ensaios do assombro. 1. ed. São Paulo: n-1 edições, 2019.

Instituições
  • 1 Universidade Federal da Bahia
Eixo Temático
  • Corpo e Política: implicações em modos de aglutinação e criação em dança
Palavras-chave
Dança
corpo
Agito
afeto