Entre o aqui e o agora: Danças (em) (na) pandemia

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Comitê Temático - Apresentação Oral
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Resumo

Este artigo propõe narrar as novas experiências vivenciadas em tempos de pandemia, que atravessam as criações de três trabalhos artísticos: Dispositivo Bomba: Desenhando cartografias em corpos feministas, Baile do Menino Deus e Resto: no tempo, no silêncio e na escuta. O conceito estético das três obras artísticas não possui relações de semelhança, entretanto foram trabalhos que no ano de 2020 e 2021 tiveram que se adaptar e reinventar aos novos modos relacionais e estéticos de uma sociedade em tempos de pandemia.
Proponho um jogo de perguntas para essas reinvenções artísticas que sirvam como forma de construir uma cartografia conceitual e criar uma conexão/elo entre os trabalhos. As perguntas são: Como me manter viva nesses sistemas capitalistas em tempos pandêmicos? Como instaurar micros devires revolucionários na criação de programas performativos dentro da minha casa? Como criar narrativas de afeto que não escapem dos olhos de quem assiste em uma tela? Que danças sobrevivem a uma crise sanitária? Como criar relações – estar junte – dançar junte através dos dispositivos com telas? Quais são as relações que serão estabelecidas entre o convívio social? Quando poderemos tocar e sentir o outro estando livres das angústias pós-pandemias? Por quanto tempo nossos corpos irão conseguir sobreviver diante do isolamento social?
O jogo de perguntas sugerido foi desenvolvido a partir da metodologia “Jogo das perguntas: O modo operativo “and” e o viver juntos sem ideias”, dos pesquisadores Fernanda Eugênio e João Fiadeiro (2013). A metodologia constitui-se a partir de um jogo em espiral, de improvisação em tempo real e de modos relacionais.
A consistência e as regras desse jogo são a partir das experiências que nos acontecem e do que é vivenciado e partilhado no tempo presente. As regras não são baseadas somente em coerências. Talvez, não haja nem espaço para habitar a coerência neste jogo das perguntas. Não há também pretensão em responder de modo afirmativo as questões colocadas no jogo, e sim respondê-las com outras novas perguntas. O que move o jogo são os fluxos ininterruptos de inquietações e desejos. Um método e um modo que permite experimentar o ato criativo individual. Este laboratório metodológico me permite adentrar tanto no tempo do presente, como me atentar as questões que surgem para as novas criações de danças em tempos de pandemia.
Nessa perspectiva proponho relacionar com o conceito de experiências de Jorge Larrosa (2017) no qual o autor sugere que as experiências acontecem nos momentos de interrupção nos quais paramos, de fato, para observar e escutar. Experiência como um lugar de travessia, deslocamento, que envolve movimento. A experiência como um lugar de aprendizagem que nos permite transformar quem somos e ser mobilizado com aquilo que nos atravessa. A experiência também como um território de sensibilidade, abertura, escuta e atenção. Experiência como uma possibilidade de friccionar o espaço, o outro, minha corporeidade, como abrir as percepções dos sentindo.
No que diz respeito aos trabalhos artísticos que serão os motes para a construção deste artigo, o primeiro trabalho Dispositivo Bomba: Desenhando cartografias em corpos feministas é uma vídeo-arte que foi produzido como resultado para o Edital TESSITURAS – Apoio à Extensão na Pós-Graduação, realizado pela Proext junto à Universidade Federal da Bahia (UFBA), no qual configura-se em uma obra de três minutos, onde cada minuto corresponde por três diferentes ações que foram desenvolvidas e criadas, a partir de um contexto anterior à pandemia que envolvia rua, aglomeração, relação e contato com o outro.
Já o segundo trabalho Baile do Menino Deus é uma apresentação online realizada em 2020. Podemos nomear de festa ao ar livre, que existe há mais de 30 anos, em Recife – PE, especificamente sendo festejada no Marco Zero – PE, e criada pelo artista Ronaldo Correia de Brito. O Baile do Menino Deus é uma apresentação que acontece como festejo natalino e é testemunhado por uma multidão de pessoas, porém no ano de 2020, foi reinventada e pensada como filme que atravessou as telas e quebrou inúmeras fronteiras.
E, por último, o terceiro trabalho Resto: no tempo, no silêncio e na escuta, teve concepção e direção da artista-pesquisadora-docente Daniela Guimarães, foi um trabalho desenvolvido para ocupar a programação da Bienal do Ceará de Par em Par, no ano de 2021. A obra foi criada através da plataforma do Zoom, onde havia dezessete performers e mais de 30 câmeras - situados em suas respectivas casas - criando, improvisando e coabitando em tempo real. (GUIMARÃES, 2012; 2017). Um modo de relacional e criativo de estar junto, mas ao mesmo tempo separado por telas e fronteiras.
Com o contexto da pandemia os trabalhos mencionados acima tiveram que pensar em uma pesquisa-criação através da produção audiovisual, que implica entender como perpassam as relações de criação (na) e (para) a tela, implicando na imersão do corpo que performa em novas dimensões de espaço e tempo, fazendo surgir novas sensibilidades, poéticas e estéticas para os programas performativos os quais debruço em minha pesquisa de Mestrado Acadêmico no Programa de Pós-graduação em Dança (UFBA). A produção e criação desses trabalhos artísticos realizados na atual conjuntura possibilita não somente a construção de um novo olhar estético e sensível sobre eles, como tornam possível o compartilhamento dessas criações em diferentes e novos territórios ainda não alcançados.

Nessa perspectiva Ailton Krenak (2020) discute em seu livro O amanhã não está à venda, sobre a pandemia e todas as questões e mudanças que estão circunscritas nesse novo modo de existir, e afirma que não podemos adiar o futuro, ele é aqui e agora, e não fiquemos à espera de uma normalidade. Então, refletir a dança nesses novos modos é pensar também sobre outros agenciamentos, curadorias, gestões.

Instituições
  • 1 Universidade Federal da Bahia
Eixo Temático
  • Corpo e Política: implicações em modos de aglutinação e criação em dança
Palavras-chave
Experiências
Dança
Jogo de perguntas
Pandemia