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Proponho nesta textualidade discutir a noção do olhar a partir de uma perspectiva social-histórica construída, bem como, uma possível reeducação do mesmo e como isso afeta os modos de pesquisa que se centram e partem das corporeidades dos/as/es pesquisador/as/es. Esta proposta materializa-se de modo reflexivo localizado, parcializado, corporificado e decolonial. E manifestasse contrariamente as posturas que se colocam como neutras, distanciadas e impessoais, herança de uma ciência clássica e hegemônica. Para realização desta textualidade, tomo por análise, práticas discursivas diversas, visibilizando crítica/problematização, o corpo e a escrita de si como alternativa de produção de conhecimento decolonial na Dança.
Sugiro um caminho de indagação: porque implica algo muito material, o “corpo” humano. A “corporalidade” é o nível decisivo das relações de poder. Porque o “corpo” implica a “pessoa”, se se libertar o conceito “corpo” das implicações mistificadoras do antigo “dualismo” eurocêntrico, especialmente judaico-cristã (alma-corpo, psique-corpo etc.). E isso é o que torna possível a “naturalização” de tais relações sociais. Na exploração, é o “corpo” que é usado e consumido no trabalho e, na maior parte do mundo, na pobreza, na fome, na má nutrição, na doença. É o “corpo” o implicado no castigo, na repressão, nas torturas e nos massacres durante as lutas contra os exploradores. (…) Nas relações de gênero, trata-se do “corpo”. Na “raça” a referência é ao “corpo”, a “cor” presume o “corpo” (QUIJANO, 2010, p. 126).
A partir do reconhecimento do olhar enquanto material, ou seus sinônimos (ponto de vista, ver, visão de mundo, leitura de mundo, posicionamento, visualidades), esta textualidade traz consigo uma discussão que é acionada pelos/as seguintes estudiosos/as: Donna Haraway (1995), estadunidense feminista e professora do Programa de História da Consciência da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, que questiona a condição corpórea do olhar que se desprende para o corpo marcado, demarcando uma perspectiva em que o olhar deve ser corporificado, situado/localizado e parcial, nesta perspectiva as práticas visuais podem e devem ser responsabilizadas; Nicholas Mirzoeff (2016), professor doutor de Mídia, Cultura e Comunicação, na Universidade de Nova York, nos Estados Unidos da América, posiciona-se que o direito a olhar, se recusa a permitir que a autoridade em sua diversidade de manifestações, inclusive de policiamento, suture a interpretação do sensível para fins de dominação; já, Peter Anton Zoettl (2013), PhD em Antropologia Visual, argumenta que não é qualquer um que pode dirigir o seu olhar ao outro, à luz do discurso público, certos fenômenos, certas pessoas, ou até certos grupos sociais; para o sociólogo peruano Anibal Quijano (1992; 2010) a colonialidade, coloca-se enquanto um dos elementos constitutivos do capitalismo, mantendo-se nas classificações racial/étnica e materializa-se em todas as dimensões, meios e planos, repercutindo assim nos modos de conhecer, produzir conhecimento, produzir perspectivas, sistemas de imagens, símbolos e significação; e sobre a noção de posicionamento (DAVIES; HARRE, 1990; SPINK, 2010).
Mediante esta discussão Jan Masschelein (2008), professor do Departamento de Ciências da Educação da Universidade de Leuven na Bélgica, postula que educar o olhar requer uma prática de pesquisa crítica que realize uma mudança em nós mesmos e no presente em que vivemos, com todas as suas questões/tensões. Este tipo de pesquisa requer práticas que permitam um convite a caminhar, a deslocamentos e a se mover. Bem como, a transformar a si e ao mundo.
Neste contexto, o martiniquense psiquiatra e filósofo Frantz Fanon, contribui com sua máxima “Ô meu corpo, faça sempre de mim um homem que questiona!” (FANON, 2008, p.191). E assim a opção decolonial em educar o olhar perpassa uma desobediência epistêmica (MIGNOLO, 2008), ou mesmo, problematizar/questionar e visualizar como os conceitos de conhecimento, erudição e ciência estão interligados ao poder, a normatividade e à autoridade racial (KILOMBA, 2019).
E neste contexto, educar o olhar pode ser feito ao se (re)escrever sobre si:
A crítica decolonial encontra sua âncora no corpo aberto… quando comunica as questões críticas que estão fundamentadas na experiência vivida do corpo aberto, temos a emergência de um outro discurso e de uma outra forma de pensar. Por essa razão... a escrita é um evento fundamental. A escrita é uma forma de reconstruir a si mesmo e um modo de combater os efeitos de separação ontológica... (MALDONADO-TORRES, 2020, p. 47).
O ato de relatar a si, depende da capacidade de transmitir uma série de eventos e recorre também a autoridade narrativa, o que possibilita assim assumirmos a responsabilidade por nossas ações, aos nos posicionar. Reconstruir minha narrativa é sempre um esforço a ser revisto, impossível de oferecer uma história definitiva e uma tensão entre questões morais e éticas (BUTLER, 2019). Desta forma, é certo que escrever, refletir, produzir, explorar a partir do próprio corpo e seus significados, podem ser apontados como um ato de narcisismo ou essencialismo, porém, pode ser uma estratégia aliada importante para pessoas pretes/as para desconstruir posições (KILOMBA, 2019), bem como, de produção do conhecimento decolonial. Neste sentido, o escrever sobre si aciona saberes que integram a dimensão terapêutica, vinculadas a cura, a imaginação, a saúde, bem como, vinculados aos sentidos de armas, força e ao poder bélico(LEAL, 2020). E a partir desta discussão a experiência da escrita articulada a dança (FERNANDES, 2013), pode mostrar-se a favor da diversidade, pluralidade, diferença e decolonialidade.
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