Para citar este trabalho use um dos padrões abaixo:
"Numa das línguas banto do Congo, o mesmo verbo, tanga, designa os atos de escrever e de dançar, de cuja raiz deriva-se, ainda, o substantivo ntangu, umas das designações do tempo, [...] insinuando que a memória dos saberes, inscreve-se, sem ilusórias hierarquias, tanto na letra caligrafada no papel, quanto no corpo em performance." (MARTINS, 2002, p. 88)
"[...] os verbos escrever e dançar, que realçam variantes sentidos moventes, que nos remetem a outras fontes possíveis de inscrição, resguardo, transmissão e transcriação de conhecimento, práticas, procedimentos, ancorados no e pelo corpo [...]" (MARTINS, 2003, p. 64-65).
Esta palavra, tanga ou ntanga, é aqui diretamente ofertada para que nos aproximemos de imediato com os sentidos deste texto. Se o corpo afrocentrado é palavra, venho aqui propor uma breve reflexão sobre a bunda preta dançante como uma de suas escritas possíveis. Escrita esta pensada sob a percepção de seu conteúdo, aquilo que preenche de significado a escrita, que lhe dá uma razão de existir; e continente, neste caso, um continente móvel africano, que guarda, dá forma e transporta este conteúdo e que fundamenta sua multiplicação em territórios.
Em um país onde as maiores expressões comunitárias negras de dança, estas que tornam-se ícones nacionais (samba, axé music, funk) são materializadas pela bunda feminina preta dançante, considero falar diretamente sobre isso um recorte necessário, um apontamento insurgente, um tabu para ser revelado, falado, e, por que não, escrito em um trabalho acadêmico. Resolvi botar a bunda no papel.
Este escrito tem como objetivo, portanto, con_textu_alizar as “danças de quadril” enquanto corpo-oralidade ancestral negra. Considero, em definição por mim criada nos caminhos de minha pesquisa de Mestrado, danças de quadril as danças de matriz cultural africana onde há isolamento ou ênfase da movimentação da região pélvica, com clara acentuação do quadril em movimentos de báscula, deslocamentos laterais, chacoalhos e movimentos sinuosos e circulares (tal qual o “rebolado”), em diferentes níveis e intensidades. Estética de dança valorizada e praticada há séculos em comunidades africanas e afro-diaspóricas (GOTTSCHILD, 2003), são muitas as danças que têm sua narrativa pontuada pelas movimentações de quadril. Além dos exemplos brasileiros já citados, podemos citar aquelas de outras diáporas que também chegam até aqui, como o twerk americano e o dancehall jamaicano. Além de incontáveis danças africanas com as quais conversamos como ndombolo (Congo), kuduro (Angola) e sabar (Senegal).
A minha intenção com esta definição não é reduzir estas danças, estas manifestações culturais, e suas origens a um único aspecto, mas, sim, reconhecê-las como parte de um movimento cultural que se hibridiza entre suas diferentes vertentes e constantemente se reinventa, mantendo suas singularidades mas mantendo, também, domínios comuns.
Se as culturas negras são culturas da oralidade, se sustentaram-se e reinventaram-se nas diásporas a partir de suas histórias contadas, importante contarmos e lembrarmos sempre que algumas destas histórias vieram grafadas no ventre das corpas de nossas ancestrais ao cruzar o Atlântico. Não trouxemos livros, nem malas, nem objetos indispensáveis. Toda materialidade que nos acompanhou nesta longa viagem sem rumo certo foi o corpo como “local da memória, o corpo em performance, o corpo que é performance. Como tal esse corpo/corpus não apenas repete um hábito, mas também institui, interpreta e revisa o ato reencenado” (MARTINS, 2003, p. 16)
Viemos, literalmente, de tanga... E de tanga permanecemos imortalizando e remontando o quebra-cabaça de nossos quadris dançantes, em todos os sentidos que esta frase possa abarcar.
As corpo-oralidades negras que nos (re)constituíram na diáspora são, e sempre foram, culturas dinâmicas em movimento, seja este o movimento expresso pelo próprio corpo em danças (ou outros gestos), seja o movimento expresso pelas dinâmicas das transmissões que estes corpos são capazes de desenhar com outros corpos.
Atualizam-se, portanto, na forma, mas não deixam de ser fonte e fundamento. Dança negra é manifestação individual e coletiva de memórias em atravessamentos e (re)construções. A dança nas culturas negras é capaz de agregar e de congregar pela sua própria lógica de sentido e de existência. Logo, assim são as danças de quadril.
Tais danças, como toda gama de danças negras que conhecemos, através destes aspectos de corpo-oralidade, são meios de presentificar a nossa ancestralidade. Dançamos, então, muitas vezes sem saber, nos conectando com esses sentidos e os estendemos em comunidade, em comum unidades, em territórios extra-corporais.
Proponho-me a pensar, tendo minha própria prática como fio condutor convergindo com referenciais orais e teóricos, a representatividade das danças de quadril enquanto estética de matriz africana, em choque com valores epistemológicos eurocentrados que tendem a ressignificá-las pejorativamente, invizibilizando-as enquanto local de memória. Jogo luz, portanto, à mobilidade e liberdade da articulação do quadril enquanto fundamento quando falamos sobre corporeidade de matriz afro e o quanto este aspecto é marcante nas danças que produzimos; além de localizar alguns sentidos estéticos ancestrais das danças de quadril enquanto corpo-oralidades negras. Com isso, reforço a discussão e o desmonte do olhar estigmatizante ocidental sobre estas práticas.
Referencial Teórico
GOTTSCHILD, B. D. Butt. In: The black dancing body: a geography from coon to cool. New York: Palgrave Macmillan, 2003. p. 144-187.
MARTINS, L. Performances do tempo espiralar. In: RAVETTI, G.; ARBEX, M. Performance, exílio, fronteiras: errâncias territoriais e textuais. Belo Horizonte: LETRAS/UFMG, 2002. p. 69-91.
MARTINS, Leda Maria. Performances da oralitura: corpo, lugar da memória. Letras, Universidade Federal de Santa Maria, n. 26, jun. 2003.
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