DANÇA SISTÊMICA: COMPLEXIFICANDO AS RELAÇÕES ENTRE DANÇA E ESCOLA

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Comitê Temático - Apresentação Oral
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Resumo

Esta comunicação apresenta resultados parciais da pesquisa em andamento, cujo objetivo é refletir sobre o ensino da dança na escola pública, tendo como base o campo de estudos da complexidade, em especial, as discussões estabelecidas pelo epistemólogo Edgar Morin (2015). Parto dessas reflexões para desenvolver princípios para o que eu denomino de “dança sistêmica”, uma perspectiva que integra a complexidade ao ensino da dança na escola.
Com a experiência em sala de aula, nas redes de ensino de Salvador, retorno à escola com o desafio perscrutador da complexidade. Esta escolha teórico-metodológica possibilita compreender o fenômeno inter-relacional da escola, aluno, professor e, também, tecer-junto ações para a elaboração de uma nova proposta de ensino da dança na escola. O que venho desenvolvendo como “dança sistêmica” é fruto dos estudos da complexidade, na medida em que se fez necessário redimensionar conceitos, modos relacionais e hábitos para a compreensão da dança-escola como um sistema complexo, ou seja, como um conjunto de elementos, ações ou indivíduos inter-relacionados (VIEIRA, 2006, p. 41).
A identificação e a percepção da indissociabilidade dos elementos - corpo, sala de aula, professores, alunos, funcionários, família - que compõem o sistema dança-escola – se apresentaram na pesquisa como fundamentais para a compreensão de como o ensino de dança acontece.
A investigação e a proposição são desenvolvidas tendo como referência o conceito de complexidade advindo dos estudos de Edgar Morin (2002; 2015); Pedro Demo (2002); Maria José Esteves (2018); Jorge de Albuquerque Viera (2006). Também me utilizo do conceito de memes de Richard Dawkins (2002). A articulação entre a minha trajetória, o campo de estudos da complexidade e o conceito de memes, é a base para esta abordagem investigativa.
O campo da complexidade funcionará na pesquisa como norteador teórico e metodológico na medida em que ele auxilia nos procedimentos de identificação e leitura dos elementos implicados no problema em estudo. Ainda para a produção das análises, articulo a minha trajetória, trazendo informações e reflexões sobre projetos realizados em escolas públicas; entrevistas com outros agentes envolvidos no complexo dança-ensino, tais como professores, alunos e outros funcionários da escola; e, por fim, será elaborado um projeto de aplicação da dança-sistêmica em uma escola pública, cuja experiência fará parte das análises. Assim, procuro construir um percurso que vai desde a escolha de uma abordagem diferenciada para a compreensão de um sistema; passa pela análise dos elementos em interação identificados no complexo e chega à elaboração de princípios que possam contribuir para a melhoria do ensino de dança na escola pública.
A dança na escola, pensada de modo sistêmico, propõe o reconhecimento e a conexão entre o ensino da dança e o contexto. De acordo com Morin (2002), este reconhecimento exige que a causalidade unilinear e unidirecional seja substituída por uma causalidade circular e multireferencial, em que a rigidez da lógica que separa os saberes, possa ser compreendida por uma dialógica, capaz de conceber noções simultaneamente complementares e antagônicas, ou seja, a dança entendida não só “dentro da disciplina”, mas integrada ao sistema-escola.
A compreensão do sistema complexo dança-escola é um desafio devido à permanência de práticas, hábitos, estruturas que não colaboram para a experiência da complexidade, seja na perspectiva do olhar de fora, do analista, seja na do olhar de dentro, do professor, aluno, escola, ensino. Por exemplo, a partir da Lei de Diretrizes e Bases (1996), foi instituído o ensino obrigatório de Arte em território nacional, e na sequência, em 1997, a dança foi devidamente reconhecida como área integrada. No entanto, mitos e desinformações relacionadas à dança permanecem sendo replicados, como expressa Marques (2003, p. 16), com as perguntas: “mas o que é afinal a dança na escola? Área de conhecimento? Recurso educacional? Exercício físico? Terapia? Catarse?”. O campo da dança ainda resvala sobre o entendimento de serventia: serve para desanuviar as tensões do dia-a-dia, promover calendário festivo, para a construção de repertório (conjunto de passos, “coreografia”) - entendimentos que dificultam a percepção da complexidade constitutiva do sistema.
De acordo com Vasconcellos (2018), para proceder a contextualização do objeto, é preciso ampliar o foco, perceber os sistemas amplos e interligados entre si. Assim, é preciso se perguntar: a disciplina dança se faz presente no currículo, mas a escola está preparada para tratar a dança como um sistema complexo? Por que a complexidade do campo ainda não é tratada de modo legítimo na escola?
Esta configuração, modo organizativo, que permanece estabilizado nesse sistema, parece se replicar, viralizar como um meme (DAWKINS, 2007) e, de acordo com Rengel (2007, p. 13), eles podem ser como um vírus danoso que infecta as mentes de nossos alunos, mesmo dos adultos. A autora (2007, p. 1), adverte que “não se trata de um mero anexar de palavras, mas sim de uma necessidade de instaurar uma forma de pensamentoação... outros modos de dizer corpo e ambiente, a partir de outros entendimentos, conceitos e hipótese”.
Portanto, esta pesquisa objetiva compreender como as partes de um sistema complexo se relacionam com o todo; como esse todo se articula; como cada parte é também um todo em relação a outras subpartes e como estão intrinsecamente conectadas.
A hipótese que desenvolvo é a de que encontrar caminhos para a compreensão das relações complexas entre dança-escola é fundamental para a emergência de outras perspectivas e ações para que a da dança possa, de fato, ser integrada ao ensino na escola. Os princípios da dança-sistêmica seriam um exercício de juntar, conectar o que a escola separa, modificando conceitos e hábitos que não corroboram para a especificidade e a complexidade que o sistema dança-escola apresenta.

Instituições
  • 1 Universidade Federal da Bahia
Eixo Temático
  • Dança em Múltiplos Contextos Educacionais: práticas sensíveis de movimento
Palavras-chave
Dança
Escola
Complexidade
pensamento sistêmico
DANÇA SISTÊMICA