Dança como forma de cuidado: cuidando de quem cuida

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Comitê Temático - Apresentação Oral
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Resumo

Este trabalho é fruto das minhas experiências profissionais como bacharel em dança, terapeuta ocupacional e mestranda do programa de pós graduação em Dança da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGDan-UFRJ) com a pesquisa ora intitulada Corpo-Habitado: Encontros entre Terapia Ocupacional e Dança. Trata-se de uma pesquisa-intervenção centrada na análise dos meus diários de campo onde registro minhas impressões e as falas dos participantes das oficinas de dança e rodas de conversa que fui ofertando ao longo dos dois anos de programa em vários espaços de cuidado. O objetivo é fazer a autocrítica das minhas intervenções e o quanto estou implicada no que oferto de forma a questionar se isso é importante para mim ou para comunidade que atendo. No recorte deste artigo trago a importância de tecer redes de cuidado para as famílias dos usuários atendidos em um serviço socioassistencial específico e como a oferta de oficinas de dança podem configurar-se em dispositivos potentes para construção dessa rede.

1. Dança como forma de cuidado
Atuo na assistência social desde 2015 em núcleos de atenção à saúde e desenvolvimento social atendendo pessoas com deficiência. Neste contexto, a dança sempre esteve presente na minha forma de prestar atendimento à estas famílias, através da criação de práticas corporais, improvisações, jogos, e a partir de uma exploração criativa do corpo em suas diversidades plurais.
Norteada pelas políticas públicas que regem o campo socioassistencial, a primeira coisa que precisei aprender é que meu atendimento não se centraliza no indivíduo presente na sala terapêutica. Trabalhar na assistência significa compreender o indivíduo em todo seu contexto ambiental, mapeando suas vulnerabilidades e tecendo redes de cuidado para que o mesmo alcance sua autonomia.
Como profissional de saúde, conhecedora dos princípios fundamentais que regem o SUS, necessitei debruçar-me sobre as dificuldades de ser um profissional de saúde e dança dentro do campo da assistência, questões estas que considero importantes. Isto significa dizer que quando se desconhece o campo da assistência social fragiliza-se as práticas de cuidado. “Tornou-se fundamental contextualizar as ações socioassistenciais para conhecer os limites do campo de atuação profissional voltada à redução de condições humanas de vulnerabilidade e risco”. (BRASIL, 2017)
Muitas vezes me questionei sobre a eficácia de minha intervenção terapêutica quando as condições de atendimento não propiciavam atuação direta na fisiopatologia da criança. Passei então a compreender os aspectos singulares do meu trabalho. Percebi que a história de vida daquela criança, seus vínculos familiares, seus direitos garantidos e sua realidade social eram também alvo do meu trabalho. Abrangia algo maior e não meramente a aplicação de um protocolo técnico operacional isolado de um terapeuta ocupacional.
Neste ínterim, ser artista-pesquisadora em dança fez toda a diferença, porque me permitiu articular interfaces entre Terapia Ocupacional e Dança como caminhos abertos para acolher de forma ampla e acessível a todos. Desta forma, passei a atuar na complexidade de um serviço assistencial, onde há forte demanda por uma atuação profissional proativa que exige ritmo, dinâmica, tempo, fluência e acima de tudo: criatividade.
A transdisciplinaridade vem me possibilitando ser e fazer uma prática integrada com foco na tecnologia dos encontros, objetivando a promoção de autonomia e a construção de desenvolvimento social humano.
Com base na Teoria de Princípios e Conexões Abertas em Dança de Helenita Sá Earp (2019), compreendemos que:
Como arte do e pelo movimento, o processo artístico na dança deve se ocupar do movimento com suas implicações cognitivas, afetivas, sociais e culturais, considerando o ser humano em sua totalidade(...) Todo este conjunto de ideias contribuem para o desenvolvimento da interação entre os indivíduos e suas inserções críticas na sociedade, de modo que sejam comprometidos com a transformação social de nosso país. (MEYER; EARP, 2019)

Neste contexto, postulamos à reabilitação do corpo e das suas dinâmicas numa vocação que penetra em suas mais íntimas fibras reverberando no ato dançante como diafania da consciência na criação artística que é também um processo em Salutogênese, porque a partir dela instauramos um caminho de entrega maior com uma dimensão do sentido, do porquê das coisas e sobretudo do porquê dançar.
Somos chamados a exercer a nossa mais íntima natureza humana, a de ser um ser de cuidado. (BOFF, 2007) Enquanto, terapeuta e artista, esta dimensão originária é que vem me permitindo exercer uma prática em dança como cuidado de si e do outro.
Pensando em viabilizar esta prática de cuidado pela dança, iniciei uma parceria com o IFRJ Campus Realengo e a Fundação Oswaldo Cruz a partir dos “Centros de Convivência Virtual: promoção de saúde e redes de afeto em tempos de pandemia” com uma proposta de oficina “Dança do Ventre em casa”. Trata-se de oficinas de dança do ventre ofertadas na modalidade remota em caráter semanal com duração de 60 minutos através do Google Meeting.
O objetivo é propor a dança do ventre como um recurso terapêutico ocupacional integrando o serviço de convivência e fortalecimento de vínculos do Instituto Severa Romana, local onde atuo como terapeuta ocupacional, a outros Centros de Convivência e Cultura (CECOs) do Estado do Rio de Janeiro promovendo parcerias no território e abrindo outros campos de intervenção aumentando o poder de alcance da Instituição no combate a Covid-19.
A metodologia está estruturada na oferta aulas de práticas com 60 minutos de duração uma vez por semana seguida de roda de conversa conduzida pelos alunos de forma que os participantes protagonizem esse movimento. O público-alvo é o público feminino das famílias do Instituto Severa Romana e dos outros Centros de Convivência que integrem Agenda ConViver. O período de realização será entre os meses de maio e junho de 2021.

Instituições
  • 1 Universidade Federal do Rio de Janeiro
  • 2 Departamento de Arte Corporal / Escola de Educação Física e Desportos / Universidade Federal do Rio de Janeiro
Eixo Temático
  • Dança em Múltiplos Contextos Educacionais: práticas sensíveis de movimento
Palavras-chave
Dança
Terapia Ocupacional
Assistência Social
Cuidado