Corpos translúcidos como condutores de uma dança da luz

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Comitê Temático - Apresentação Oral
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Resumo

1. Inspiração
O projeto de pesquisa da Universidade Federal do Pará ‘Dança Moderna Americana: Histórias, produções artísticas e análises coreográficas’ trabalha desde 2017, com coordenação da Prof. Dra. Eleonora Ferreira Leal e colaboração da Prof. Msc. Gabrielly Sta. Brígida (Autora), contando com a participação de discentes dos cursos técnicos e de licenciaturas da UFPA.
Loie Fuller foi foco de investigações no referido projeto nos anos de 2018 e 2019, tendo como resultado o espetáculo ‘Aisthesis: corpos translúcidos’, com estreia ocorrida em 1º de novembro de 2019 no Teatro Universitário Cláudio Barradas . Este espetáculo apresenta-se como objeto da pesquisa que tem por objetivo analisar seu processo de construção através de um estudo de caso intrínseco com o método da observação participante, fazendo-se a autora tanto de agente produtora do espetáculo quanto de investigadora dos acontecimentos.
Propomos como hipótese a possibilidade de construir um espetáculo inspirado na estética moderna de Fuller que viesse apresentar maneiras diferenciadas do fazer e do assistir a dança, centrado não na observação de movimentos virtuosos, mas nas impressões que o jogo destes movimentos com o figurino, cenário e música geram em cada espectador, como uma cena expandida.
A partir do estudo sobre Fuller que, como aponta MONTEIRO, “criou o que ficou conhecida como a dança moderna, precursora de uma cena expandida, que aliou dança, teatro, music-hall a experimentações cinéticas por meio de pesquisas laboratoriais com a iluminação.” (2016, p.137), o grupo começou a compreender sua estética e motivações. Em sua auto-biografia, temos uma janela para sua concepção de dança quando lemos “O que é a dança? O movimento. O que é o movimento? A expressão de uma sensação. E o que é a sensação? O resultado que produz sobre o corpo humano uma impressão ou ideia que percebe o espírito” (FULLER, 2016, p.64).
Torna-se relevante ressaltar o acompanhamento da prof. Msc. Natasha K. Leite , que esteve presente em todo o processo de estudo, ministrando oficinas de manipulação dos refletores e de iluminação cênica para dançarinos; trazendo a colaboração do Laboratório Cenolux e Coletivo Alumiá .
A metodologia da pesquisa baseou-se no percurso desta montagem, desde os estudos teóricos iniciais na busca do entendimento dos comos e porquês da dança da Luz, perpassando pelas impressões deixadas na autora das dinâmicas do processo criativo em diálogo com os intérpretes-criadores. Temos como objetivos específicos descrever as etapas de produção do espetáculo; dialogar com autores que versam sobre a cena expandida de Loie, Construção cênica e processo criativo; e a analisar os ecos da performance.

2. Processo Criativo

A pesquisa coreográfica para o espetáculo Aisthesis iniciou com a busca pela aproximação da estética pura de Loie. Segundo RAMOS (2013) a aparência do ator em cena pode ser entendida como um signo icônco, que pode assemelhar-se mais ou menos a seu objeto, buscamos gerar a maior proximidade do efeito visual da estética de Loie, com inspiração nos elementos utilizados por ela mas adptando à nossa realidade.
A partir daí, realizamos outros jogos entre luz e movimento buscando estéticas contemporâneas nos apropriamos de aparelhos mais modernos de incidência da luz, como a luz negra, pontos de leds e de laser; realizando estudos com elementos cênicos e figurinos de materiais e cores diversas, aliando com o gesto dançado em gêneros diferentes para criar escritas de luz.
Foi gerado um espetáculo de percepção, compreendendo “percepção como um processo altamente dinâmico e não como um mero registro mecânico de algum estímulo” (OSTROWER, 2013, p.57). A partir da interação com o público, os corpos translúcidos ganharam significado em seus movimentos sinestésicos.
A cena tornou-se um quebra-cabeça, pois em cada uma das três apresentações abertas ao público tínhamos ordens coreográficas e, por vezes, até trilhas sonoras diferentes decididas nos ensaios gerais de acordo com as vivências compartilhadas até aquele ponto, sempre costuradas pelo violoncelo de Gabriela De Cavalcante , acrescentando o jogo entre música e luz à textura do espetáculo.

3. Desdobramentos

Ao final das apresentações extendemos ao público presente um ‘bate papo’ para coletar suas percepções, e observamos análises diferentes de espectadores presentes na mesma performance, alguns compreenderam um cenário narrativo acerca da opressão tecnológica sobre a humanidade e outros receberam impressões de imagens como vagalume, fogo ou borboletas em cenas determinadas.
Após a escuta dos ressignificados imagéticos construídos na percepção dos espectadores, compreendemos o espetáculo Aisthesis como um processo em constante auto-reconstrução, uma obra atemporal que se torna diferente para cada indivíduo. Confirmamos então a hipótese, uma vez que, através do processo criativo baseado na linguagem moderna de dança chegamos à construção de uma performance que rompe barreiras de percepção e rótulos de linguagem, corroborando com MAUCLAIR, na obra de MONTEIRO:

Defendendo a ideia de uma arte universal, a autora afirma que não assistiu nem a um espetáculo, nem a um canto, nem a uma dança, mas a uma arte sem nome. Para ela, Fuller arrasta os espectadores dos conflitos da vida cotidiana e os leva a “aux contr’és purificadores do sonho” (2016, p.140)

Um questionamento que nos instigou foi: seria este um espetáculo de dança ou um espetáculo de luz? O fato do corpo em movimento não ser o destaque da cena e sim elemento manipulador da luz que dá vida às coreografias, descaracteriza a cena como dança? Compreendemos, então, a montagem do espetáculo como fonte de pesquisa relevante para perceber uma cena expandida da performance que gera múltimas possibilidades para o intérprete sem limitá-lo a uma estética pré-determinada do que é dança e de como ela deve ser apresentada.

Instituições
  • 1 Universidade Federal do Pará
Eixo Temático
  • Dança em Múltiplos Contextos Educacionais: práticas sensíveis de movimento
Palavras-chave
LOIE FULLER
Espetáculo
CENA EXPANDIDA
iluminação cênica
Dança Moderna