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Resumo: Este estudo apresenta um recorte da pesquisa de mestrado: “Um olhar decolonial para o processo de criação em dança na Escola Municipal de Artes de Aparecida de Goiânia”. O surgimento de um novo ambiente para as aulas de dança (virtual) expõe contradições que, de um lado, deflagra uma educação pautada na universalização de saberes, que sempre excluiu, nunca foi neutra, atende as necessidades capitalistas e reafirma as desigualdades, tal qual se observa neste momento de pandemia, e de outro nos move enquanto educadores, artistas a refletir e propor formas de encontros e (re)existências nas aulas de dança.
Palavras-chave: DANÇA – PANDEMIA - CORPO – DECOLONIALIDADE.
1. Introdução
A pandemia tem escancarado as desigualdades e hegemonias presentes nas relações corporais, bem como as experiências corporais geopolíticas que determinam nossa condição de ser no mundo. Compreender que o corpo é construído historicamente nas relações de poder presentes nos diversos contextos sociais, culturais e educacionais em que está inserido, contextualizados de forma geopolítica, revela-nos que a corporeidade do sujeito nasce dos atravessamentos, vivências e experiências corporais, as quais podem oprimir ou libertar.
Pensar a construção de conhecimentos inscritos no corpo que dança, bem como sua corporeidade em tempos de isolamento social, instiga-nos a refletir sobre o lugar desse corpo em uma sala de aula virtual, o lugar das afetações, encontros e experiências outras que essa nova realidade tem proporcionado e ainda as circunstâncias objetivas e subjetivas que constituem as subjetividades desses corpos. Nesse contexto, torna-se urgente reconhecer que estamos imersos também em uma construção coletiva de relações colonizadas por forças de ser, fazer e de poder que orientam a construção do racismo, sexismo, de corpos xenofóbicos, consumistas e preconceituosos. A partir desse reconhecimento, é urgente pensar insurgentes e contínuas maneiras, caminhos e ações para reinventar e descolonizar nossas formas de ser e estar no mundo, nosso sentir, fazer, educar, conviver, sobreviver e resistir, lutando para que nossos estudantes sejam capazes de compreender e questionar sobre a pandemia.
2. Desenvolvimento
Nas inquietações de corpos que dançam a partir de diferentes realidades socioculturais, o corpo-vivido nas experiências sensíveis é incorporado, atravessado e entrelaçado a saberes individuais e coletivos que ecoam medos, dores e perdas que refletem a COVID-19. Santos (2019) propõe que o conhecimento é construído e manifestado nos corpos viventes, dançantes, coletivos e sociais. Aqui nos apoiaremos metodologicamente em uma perspectiva decolonial para pensar processos de criação em dança pautados em saberes outros, ou seja, conhecimentos não hegemônicos para se aprender e ensinar a dança, de modo que nos façamos presentes ainda que distantes.
Pautamo-nos também nos processos reflexivos de descolonização do inconsciente propostos por Rolnik (2019), que nos provoca a pensar sobre processos de “um inconsciente colonial – capitalístico” enquanto modelo de identificação subjetiva, alimentados por processos de opressão colonial, e então nos convoca a pensar caminhos de ensinar-aprender dança enquanto micropolíticas, a fim de sugerir contínuas formas de descolonilização do inconsciente, entre as quais citamos as que nos interessa, como:
Desanestesiar as vulnerabilidades às forças; Desobstruir cada vez mais o acesso à tensa experiência do estranho-familiar; Não atropelar o tempo próprio da imaginação criadora; Não abrir mão do desejo em sua ética de afirmação da vida; Não negociar o inegociável. (ROLNIK, 2019, pp.195-196)
A pandemia desenha lugares/momentos de sujeitos e corporeidades construídas por olhares aprisionados a uma tela. Questionar os estados de colonialidade impregnados como um vírus no corpo que dança isolado em casa é também questionar as relações que determinam os modos de ensinar, aprender e existir na dança e no mundo em isolamento. Do mesmo modo o que pode ou não ser negociável nessa luta contra o vírus, contra a desigualdade, contra ações genocidas. Portanto, é urgente não negociar o inegociável ou seja, “tudo aquilo que obstaculiza a formação da vida, em sua essência de potência de criação”. (ROLNIK, 2019, p. 197)
3. Considerações iniciais
O isolamento nos propõe questionar quais condições e para quais corpos a educação tem se destinado, já que as classes sociais marginalizadas têm pouco ou nenhum acesso às atividades remotas. Santos (2020, p. 15) revela que, “qualquer quarentena é sempre discriminatória, mais difícil para uns grupos sociais do que para outros e impossível para um vasto grupo”. Logo, nossas primeiras aproximações com o campo revelaram que os sujeitos fazem parte de comunidades periféricas de Aparecida de Goiânia e frequentam escolas públicas, isso expõe ainda, inicialmente, o pouco ou nenhum acesso desses sujeitos às vivências e experiências com a dança em nossa comunidade.
Os primeiros relatos dos estudantes evidenciam uma relação vertical de aprendizagem pautada nos pensamentos de uma pedagogia tradicional, de movimentos codificados, no qual predomina a supremacia de determinados modos de fazer, ensinar e aprender dança. Diante disso, Baldi (2017-2018) revela que a “colonialidade em dança” pode acontecer de diferentes maneiras, pelo ensino de uma dança pensada de maneira universal, seja na forma de transmissão de seus conhecimentos e ainda na maneira como a individualização é reforçada ao privilegiar determinados conhecimentos, técnicas ou estilos de dança, o que, consequentemente, acarreta a invisibilidade de danças outras e a invisibilidade de outras formas de ser e existir no mundo.
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