CORPO VELADO: OUTRAS VISUALIDADES E IMPLICAÇÕES PARA TEMPOS DE LUTO

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Comitê Temático - Apresentação Oral
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Resumo

Esse trabalho é desdobramento de uma pesquisa teórico-prática da linha de Performance e Performatividades da Dança do Programa de Pós-Graduação em Dança da UFRJ. A pesquisa que tem como objetivo experienciar questões étnico-raciais em um processo artístico atento a subjetividades e performatividades que desnaturalizam “práticas de evangelização cotidianas” e incidem sobre o elo entre branquitude e moral cristã. Crítica a uma “estrutura branca” hegemônica, essa investigação pretende colaborar com diálogos entre dança e outros campos do conhecimento, em uma experiência corporal que se busca decolonial, e evoca a performance como força mobilizadora do tecido social e do real. Como a dança poderia visibilizar, mediar e tensionar dimensões estruturais de uma sociedade pautada em privilégios raciais? Como desenvolver uma dança a partir da crítica ao discurso que se impõe moral e racializado sobre corpos e lugares?
Ao assumir e confrontar privilégios próprios, esse labor artístico intenta encarnar e compartilhar um processo performativo e de aprendizagem a partir do exercício da alteridade usando o acontecimento como potência de fricção a mobilizar diferentes sentidos, temporalidades, espaços, memórias, imaginários, visíveis e invisíveis. No contexto de emergência da reiteração do projeto colonial intensificada pela pandemia, investigar uma ação que não seja retórica, cínica ou metafórica, como nós, pessoas brancas, invisibilizados em nossa autoridade “natural” e “universal”, de forma mais ou menos evidente, acostumamos a agir e a pensar. A lógica da “verdade absoluta” nos seduz e assombra. No gesto de silenciar diante de um mundo cindido entre luz - sombra, bem - mau, morte – vida, brancos - não-brancos, natureza – cultura, mente - corpo usufruímos do Mundo Ordenado (SILVA, Denise Ferreira da, 2019), espelhando nós mesmos e as fantasias que foram contadas desde nossa infância.
O tempo que parece suspenso há mais de dois anos revela a necessidade de romper com o que Maria Aparecida Bento chama de “pactos narcísicos”. Enquanto ruas-casas do centro da cidade do Rio de Janeiro tornam-se rarefeitas por políticas de morte, esse processo artístico testemunha suas motivações, frustrações e desafios em vivenciar a dança de um corpo-casa no contexto institucional, jurídico e digital da pandemia, o qual não apenas escancara as abissais desigualdades sociais, como as intensifica na paisagem tomada pela caridade, benevolência e solidariedade. Os estereótipos e regimes de representação (HALL, 2016) impostos pela branquitude atuam sem trégua na estrutura racista que ganha fôlego a manter uma realidade desencarnada e metafísica a espera de um Salvador. Em usos desmedidos e acríticos da fé e das telas digitais, mesmo sem fato que valha, um triunfal ‘destino’ permanece como horizonte a manter a lógica de desumanização festiva e assombrosa.
Esse processo artístico confronta vultos de ação, imagem, memória e sonho na relação com um voil, revelando um corpo imerso em silêncios e fantasias brancas disseminadas por aparatos escópicos que reificam ‘A família’, mantendo intactos os lugares de poder, autoridade, (in)visibilidade e distanciamento. O que se vela? Qual a novidade que se revela? Nas ausências de encontro, memória e responsabilização, qual seria o valor da salvação? Como curar a vida diante da barbárie revelada? Como organizá-la em uma existência velada pela brancura? O que ocorre ao se enxergar no lugar daqueles “invisíveis” a produzir ruína? Como ultrapassar a retórica dos discursos?
Sem pretender uma performance ou dança final, a proposta se implica com as cotidianidades e relações de proximidade investigando a partir do Morro da Conceição, onde vive a autora, e de pistas sobre situações sincrônicas e assincrônicas entre mundos próprios e não-próprios. Por vestígios materiais de sua investigação no mestrado, seus afetos e inquietações, a ideia é forjar uma criação de poesia e de luto, de confronto e de cuidado, de reflexão e de fruição. Quais são os signos associados a um corpo velado e comumente pacificado por superfícies físicas e simbólicas? Se o corpo velado é partícipe de um ritual, como uma performance poderia criar outros sentidos e visualidades que rompam com os Roteiros do Descobrimento (TAYLOR)? Que outros gestos reforçam ou se insurgem contra o entendimento corporal adquirido no evento fundante de apreensão da escrita e do Cristianismo em nosso cotidiano?
Transformar o tema religião em um tabu e ser conivente com a não - racialização de questões urgentes no Brasil fundam o modo como agimos no mundo e produzimos mundos. No culto e na fixidez da brancura, da morte, da doença, do matrimônio, da santificação e da obrigação, os desafios de uma criação em processo esbarram na metafísica incorporada e consolidada na tríade colonial-racial-capital. A escuta da “figura fractal” da pesquisadora Denise Ferreira da Silva instiga um caminho de implicação e de entendimento desse elo bem ordenado e repleto de complexidade. Na tentativa de cartografar um movimento que crie outras sensibilidades escópicas a partir do ver-se (também) como parte da engrenagem racista brasileira, o trabalho envolve implicações, lacunas e ressignificações de memórias pessoais e sociais. Uma experiência que revisita o passado como referência e trampolim para outros futuros. Ao friccionar o que se vela e, por isso, se erotiza, encarnar um processo, situando lugares de fala nas especificidades de uma existência que usufrui do privilégio branco e se desloca na tentativa de produzir marcas menos nocivas, danças menos exclusivas, gestos mais férteis.

Instituições
  • 1 Universidade Federal do Rio de Janeiro
Eixo Temático
  • Corpo e Política: implicações em modos de aglutinação e criação em dança
Palavras-chave
Branquitude
performance
Religião
Visualidades