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Quando se pensa em Sapateado, quais imagens, histórias, personagens, que primeiro nos chegam? Antecipo algumas respostas comumente ditas: Hollywood, grandes musicais ditos ‘clássicos’, o barulho das chapinhas de metal, os sapatos, roupas elegantes, homens e mulheres brancos, Fred Astaire, Shirley Temple, “cantando na chuva”, Claudia Raia ...?
O presente trabalho pretende movimentar essas perspectivas. Conectar o que restou do apagamento dos corpos. Buscar a riqueza com que as tradições do Tap Dance são transmitidas pelos mais velhos que sapatearam uma vida toda. É uma dança oriunda dos corpos negros. Esses Estadunidenses. Resultado de culturas postas em diásporas. Individualidades escravizadas tornadas sistematicamente invisíveis ao longo de séculos. Da observação do corpo do outro. Da troca, do encontro, do diálogo musical-corporal. Dançar para celebrar a vida. Como sobrevivência nos campos de algodão, nas Jams sessions de todos os tempos, nas escolas de dança do Brasil e do mundo, esse corpo preto deve ser reconhecido e reverenciado. Na figura do solista, do Hoofer , do presente trabalho, o Tap improvisa, reverencia os que antes vieram e fricciona a dança e a comunidade do porvir.
A partir dos estudos de Stearns (1994), Hill (2010) e Seibert (2016) podemos construir um panorama da história do Tap Dance. Temos uma linha aberta desde sua ’origem’ enquanto dançar vernacular – do caldeirão de danças como o Ring Shout, Jig, Cake Walk; a perda dos tambores imposta pelo “Negro Act” de 1740; o crescimento e a mercantilização da indústria do entretenimento e o uso de Blackface (show de ministrel, Vaudeville); a era de ouro do cinema, guerras mundiais e o que está sendo produzido atualmente. Na medida em que conhecemos alguns caminhos do Tap Dance e outros personagens para além do que chegou massivamente por meio do áudio visual, podemos levantar questões de como se desenvolveu o Sapateado no Brasil e enriquecer as possibilidades de imagens e movimentos.
No Brasil, o ‘Tap Dance’ ganha a tradução de Sapateado e seu desenvolvimento recente traz consigo, velhas questões raciais ainda mais latentes e questões econômicas. Trabalhando com os poucos documentos escritos, em português, como os livros de Machado e Salles (2003), Martin (2011) e Mattar (2021) e trabalhos acadêmicos com a temática direta ou indiretamente sobre Tap Dance/Sapateado. Temos a preliminar conclusão de que existem pouquíssimos trabalhos com recorte racial. A ausência da palavra negro/a, ou mesmo uma alusão a origem negra do Tap. Contextualizações históricas rasas sobre a história do Tap, alguns acontecimentos marcantes, que se repetem em diferentes textos, demonstram um desinteresse de pesquisa em gerações de sapateadores. Repetidos nomes incontornáveis, mas no geral, uma história do sapateado que não é extensa, tampouco referenciada.
Do encontro fortuito e frutífero com pesquisadores que se utilizam do método etnográfico e auto etnográfico como Fortin (2009) e Duarte (2004), tenho a possibilidade de ouvir, de tornar presente e transformar os acontecimentos. Evidenciar o elo que une minha prática e individualidade com o estudo de pessoas, de uma comunidade, de uma cultura. A etnografia me permite propor uma união entre a minha prática artística e o desejo de aprofundar, resgatar e ir de encontro a uma outra história do sapateado. Posso construir uma visão crítica das diferenças sociais e culturais e seus desdobramentos. Perceber os meios de manutenção das hierarquias econômicas, estéticas e políticas que incidem sobre os corpos. Nas palavras de Fortin:
Destacando uma pesquisa que não tem por objetivo a representação dos fatos, mas principalmente a evocação e a comunicação de uma nova consciência da experiência, eles definem o caráter de resistência e de empowerment que pode oferecer uma narratividade se afirmando sobre a base da experiência sensível e singular. (FORTIN, 2009, p.83)
Trago, na tentativa de narrar históriade que se conectam com a linha frágil da história do tap, o vídeo-dança “All You Gotta Do is Ask” de Leonardo Sandoval subsidiado pelo programa ‘Works & Process do museu Guggenheim, co apresentado pelo CUNY Dance Initiative, Jacob's Pillow, e Kaatsbaan. Em cena 4 sapateadores pretos, isolados em suas residências no eixo EUA/BR, durante a pandemia. Uma peça de quase 5 minutos em que os corpos, a sonoridade, a edição do vídeo, nos insere rapidamente em ações, gestos, expressões, cotidianamente vividas por pessoas pretas. Os corpos falam e não somente sobre racismo, apagamento, ausência. Muitos elementos rítmicos e visuais se somam em camadas de vida, dança e história.
Bibliografia:
FORTIN, Sylvie. Contribuições possíveis da etnografia e da auto-etnografia para a pesquisa na prática artística. Revista Cena, n. 7, 2009.
DUARTE, R. Entrevistas em pesquisas qualitativas. Educar, Curitiba, n. 24, p. 213-2f25, 2004.
STEARNS, Marshall Winslow. Jazz Dance, The Story of American Vernacular Dance. Nova York: Da Capo Press, 1994.
SEIBERT, Brian. What the eyes hears: A History of Tap Dancing. New York: Farrar, Strauss and Giroux, 2016.
HILL, Constance Valis. Tap Dancing America: A Cultural History. New York: Oxford University Press, 2010
MACHADO, Amalia & SALLES, Flavio, Tap, a Arte do Sapateado, Rio de Janeiro, 2003.
MARTIN, Cíntia. TOQUES, Vivendo, Aprendendo e Ensinando o Sapateado, edição própria, 2011.
SILVA, Ana Carolina Nunes. O Sapateado No Processo De Desenvolvimento Psicomotor Infantil. Rio de Janeiro, 2014.
MATTOS, Rafaeli. Ah Vai Andas?! Um Sistema Criativo A Partir Do(S) Sapateado(S)’. UFRJ: Rio de Janeiro, 2013.
MATTOS, Rafaeli. Sapateado para Terceira Idade: um desafio possível. Revista Longeviver, 2019.
ORTHOF, Olivia Aprigliano. Como se move a atenção do sapateador?:(dança em distração). 2018.
COSTA, Flavia. O corpo ritmado: A história do Sapateado Negro. Rio de Janeiro, 2011.
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