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Há uma coreografia para diversos sentidos, presenças e círculos aparente na própria coreografia. Nela, dançam corpo, palavra, história, dança e teatro, conduzindo o ver ao seu amplo sentido e questionamento. Há, em coreografia, o choreo e a choreia: a dança, o coro, o círculo; configuração cujo início remonta a rituais originários que até hoje são reiterados e reapresentam questões humanas, de arte, de pensamento e do ser. Surgem desta circularidade as figuras do artista, do coro, do palco e da plateia, em interdependência e inter-referência, enquanto se constitui o espetaculum como dar-se a ver, espelhar-se e espectar-se. Falamos, então, acerca de um diálogo da dança com o teatro – e com pensadores da arte como Cauquelin (2005), Jardim (2005) e Heidegger (2002) – para explorarmos o encontro, suas interfaces e dimensões, e pensar o produzir artístico-poético humano.
Dançar é um dar-se a ver de corpo e como corpo em acontecimento, isto é, aparecer sendo mais corpo quanto mais em dança, e sendo mais dançante quanto mais próprio de si, apropriado. Por isso dança (arte) não representa nem pode ser representada: não significa ou esconde algo outro que não si mesma, não faz referência nem idealiza nada além ou aquém do fenômeno que é. O representar do teatro e o dançar da dança não são expressão de algo ou alguém outro, mas sim o acontecimento-aparecimento da arte, do poético, da possibilidade do ser. Desta forma e dimensão, dança não é nunca expressão ou representação de (algo ou alguém), mas é teoria. No domínio do theatron – termo grego que diz lugar para ver – dançar é a theoría originária, isto é, aquela em que pensar é uma prática, ação, corpo. Conforme Cauquelin (2005) teoria (desde theoría) guarda o sentido de reunião, procissão, prática em direção a, culminação de ação em grupo ou fazer conjunto, e aí temos: coro. Para a autora, prática teorizada e doxa teorizante compõem teoria especulativa e ritual, esta que especula, que descobre e põe em vista pela realização. Ela ainda diz do poder que a teoria tem ou não de construir seu objeto enquanto condição de ser posta em determinada forma, apresentada, espacializada. Sendo assim, ela aponta que teoria – deste sentido coro realizador – é indispensável para a vida das obras, para que nela/dela a arte se desenvolva e se consuma (CAUQUELIN, 2005). O pensar poético, nas interfaces da dança com as artes, permite pensar não só o originário de toda teoria, mas, a um só tempo, pensar como teoria (pensar poético) o originário de obra de arte.
Contudo, seriam estas relações e referências entre dança e teatro e o culminar do espetáculo – um pensamento do ver? Ou ainda, são pensamento do fazer em coro, de uma circularidade ou rede como o que permite que dança aconteça? O delineado histórico da formação circular na ritualística dionisíaca acaba por derivar no teatro como acontecimento da tragédia, da comédia, da arte, da vida, do poético, do sagrado. Um grupo de artistas que mais do que mostrar algo, fazem re-aparecer o mito, o rito. Ou seja, teorizam, re-presentam, movem, re-nascem neste fazer, no exercício poético – que tem como espaço o palco e o espetáculo. Acontecer em coro não diz de uma espécie de contrato social, mas disto que é possibilitado apenas pela rede, pela circularidade. O fazem circulados por um coro, para o humano, para seus pares, seus iguais, seus reflexos.
O coro (re)aparece como cantar/encantar do corpo e da memória, e o teatro (como fenômeno e como espaço palco-coro-artistas) permite participar do ver o corpo sendo coro, dança, obra, arte. O teatro, vale reforçar, passa a ser entendido não só como lugar geográfico, mas como fundação do próprio sentido originário de teoria, isto é, como uma prática (do dançar, do representar, do cantar) e da vigência do pensar poético. No abraço dança-teatro, o que se vê é a aptidão humana disto que Jardim (2005) chama pro-duzir: trazer ao mundo, criar, dar corpo ou realização. É, na realidade a mais privilegiada ação humana; não no sentido de especialidade, mas sim no sentido do que nos faz humanos, nos provê humanidade. Trazer ao mundo, libertar, pro-duzir é um exercício tão diário quanto raro, tão comum quanto epifânico ou exclusivo ao artista. Na verdade, é muito menos do artista do que do humano, que acaba por fazer-se canal para, lugar de eclosão, da arte, aquele que serve ao acontecer e, fazendo, torna-se feitura, feitor e coisa feita.
O que se dá a ver na dança, no teatro, em geral, nas artes uma vez ditas performáticas – cênicas, do corpo – é pro-dução. Porém, quais não seriam as “do corpo”? Quais não produzem o “cênico” como encontro-instauração espaço-temporal? Quais não são sua própria performance na unidade, arte-obra-artista? Isto que se mostra e se retrai, se desvela e vela, que reúne sendo fruto de reunião como ser-com e ser-no-mundo, isto, da arte como unidade, é o acontecer de pro-dução (ou ainda: do obrar).
Para que pro-dução aconteça, é condição coro e encanto. Pensando melhor, é condição ser humano ou, numa redundância estratégica, é condição condição humana. Esta nos diz da lembrança (retomada) do sentido do ser, da experiência (e dor, ferida) da finitude e da imediatez do ser-com e ser-no-mundo (HEIDEGGER, 2002). Isto é, somos humanos porque referência entre ser e sendo, porque nascemos para a morte e porque sempre e imediatamente estamos jogados no mundo. Pro-duzir é o que nos restitui condição humana e nos conduz a experienciar e conhecer a realidade em sua dimensão ontológica e poética. Dançar e representar são, aí, caminhos para que o humano seja mais humano, mais memória e mais história enquanto realização do real e acontecer do e no tempo.
CAUQUELIN, Anne. Teorias da arte. São Paulo, São Paulo: Martins, 2005.
JARDIM, Antonio. Música: vigência do pensar poético. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 7Letras, 2005.
HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2002.
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