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Este trabalho refere-se às implicações políticas no corpo e no contexto social dos processos de difusão de materiais gerados por criadores da área da Dança, para ambientes digitais, no que venho nomeando por “Comunidades Intencionais”. Este conceito trata-se de uma acepção desenvolvida durante o doutorado, concluído na Universidade de São Paulo em 2019, que identifica táticas provindas do subalterno para driblar forças hegemônicas atuantes em ferramentas comunicacionais presentes nas atuais redes sociais digitais.
A rede utilizada como suporte para esta investigação foi o Instagram e, a experiência de dois artistas naquela rede. Esses artistas realizaram projetos durante o período de distanciamento social, provocado pela atual pandemia do novo Coronavírus. A saber, Thiago Santana e Diogo Granato, ambos artistas da Dança.
As atividades desenvolvidas durante o período de investigação estruturaram o conceito de “Comunidades Intencionais”, inter-relacionando-o por meio das experiências investigadas as áreas da Dança em transversalidade com as novas tecnologias digitais, em especial as que contém aprendizagem de máquina (Learning Machine), à área da Educação.
Em específico, foram observados os processos de adaptação das trocas realizadas por artistas e pesquisadores, em ambientes digitais, neste momento em que a presença está sendo mediada por este tipo de tecnologia. Em se tratando do Instagram, a experiência mediada perpassa pela configuração da representação imagética. Tanto no caso das experiências observadas na página de Diogo Granato – que desenvolveu o projeto “Experimentos” em plena pandemia provocada pelo novo Coronavírus – quanto nas lives promovidas pelo pesquisador Thiago Santana, as imagens técnicas, ou seja, aquelas produzidas por máquinas semióticas (MACHADO, 1995) e sua forma de representação pictórica/imagética, são mediadas pela plataforma. As tecnologias de integração em redes sociais digitais que se utilizam do formato plataforma, dependem da interação do que Machado (2007) chama de interator, ou seja, o sujeito por trás da tela que constrói a narrativa junto ao programador e aos próprios algoritmos da programação.
Temos aqui então a convergência de dois agentes instauradores de situações narrativas: de um lado, o interator, esse sujeito de carne e osso (malgrado ele possa estar também representado na tela por um clone seu, o avatar), mas já “aparelhado”, como dizia Couchot, e, de outro, algo assim como um sujeito-aparelho, ou mais exatamente ainda um sujeito-robô, de funcionamento inteiramente automático, encarnação definitiva da ideia couchotiana do sujeito-SE. (MACHADO, 2007, p. 144)
A observação sobre as possibilidades de interação da plataforma, no que se refere à disposição dos materiais naquele ambiente, foi ressaltada pelo pesquisador Thiago Santana (2021), em entrevista, ao relatar que:
Quando eu propus fazer esta live foi no sentido de convidar estas pessoas para entenderem um pouquinho do que é a Dança, né [...] Mas, no início [a live] não tinha como ficar salva. Só ficava salva por 24 horas e depois sumia. Depois que começou a ficar salva no IGTV, isso foi depois que o Instagram foi atualizando.
Neste relato, apresenta-se a dicotomia entre tecnologia e o interator. A primeira live, a que se refere o pesquisador, foi uma iniciativa conjunta com outro pesquisador da área, Leonardo Santos. Os dois intencionavam fazer uma exposição pública das questões sobre gênero e Dança e escolheram o Instagram como sede da iniciativa. Porém, este material, que poderia ser utilizado como espaço de construção de conhecimento específico para a área, por uma limitação da plataforma, não está disponível à análise de viralização. Traça-se aí um aspecto muito importante da experiência, pois ao ser feita em um momento não repetível ou reprodutível por meio da imagem técnica (a gravação), ela torna-se um advento, tal qual uma apresentação de Dança em seu momento presentificado.
Sobre os “Experimentos” é importante ressaltar que, diferente de materiais de videodança, uma dança disposta em ambientes de redes sociais digitais ganha outra dimensão no âmbito do simbólico e na sua mediação com quem a acessa. Em 1 de abril de 2020, após o primeiro mês da “fase vermelha” – que define a fase mais restritiva de funcionamento de bens em serviços no estado de São Paulo, usada como medida de quarentena contra o novo Coronavírus e sua expansão – Diogo Granato posta o vídeo Kitchen Dance, uma realização autoral sua do ano de 2010, com a seguinte legenda, em seu Instagram: “Kitchen Dance. Esse vídeo tem 10 anos, e é uma dança na cozinha, parece que serve bem para o momento #danca #dance #instadance #quarentena”.
Foram vinte e cinco comentários acerca desta postagem e, em específico, muitas concordando que o objeto de criação disposto estava condizente com o momento político-social vivido. Ainda não é possível analisar as reverberações futuras destas ações, no que se refere ao estado da arte da Dança, uma vez que não é dado um futuro exato ou um pós pandemia. Entenda-se aqui a palavra pós como um depois, como se pudéssemos, hoje, em 2021, mensurar quando haverá um fim para tal situação sanitária e de saúde, bem como suas consequências na Arte e Cultura brasileiras. Porém, em se tratando de poética, estética e ensino, ambas as ações nos apontam pistas para uma investigação sobre os processos de adaptabilidade da área da Dança, diante das limitações que fogem ao controle social.
Jaqueline Vasconcellos
UFBA
[email protected]
Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da ECA (USP - 2019). Trabalha como coordenadora de projetos no Instituto Arte na Escola. Trabou como gestora cultural na Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Hoje coordena o projeto "Ofó Nkonson", uma empresa de consultoria, cujo produto principal são lives educativas no YouTube.
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