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Ao longo da minha prática, enquanto improvisadora, me questionei sobre os modos de compor e criar na composição improvisada em dança, tentando compreender sobre as estratégias de preparação e composição para se criar na cena improvisada. Esse questionamento me levou à pesquisa de mestrado realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas na Universidade Federal de Uberlândia, no qual desenvolvi uma pesquisa sobre dramaturgia da improvisação. Uma das principais questões que eu tinha enquanto improvisadora era: o que seria uma composição? Como escolher o que vai ou não para a cena? Existe uma dramaturgia improvisada? Quem cria a dramaturgia na composição em tempo real?
Como conclusão desse estudo, compreendi que a dramaturgia criada na cena tinha menos a ver com estruturas de sentidos e significados pertencentes à uma linguagem representacional e mais próxima da própria ação enquanto emergência de experiências. Diante dessa questão, pensei que o termo dramaturgia da improvisação poderia ser uma forma de afirmar e legitimar uma dramaturgia criada na cena, que é processual e inscrita com toda a materialidade que se dá em um determinado tempo-espaço e no “aqui e agora”. Assim, compreendo que a dramaturgia da improvisação se dá por uma trama de acontecimentos que emerge do imbricamento do corpo na cena e da materialidade de um contexto específico. Isso significa dizer que essa dramaturgia sempre será processual, não dada a priori, construída em cocriação e co-implicada com os elementos da cena, envolvendo improvisador(a), público, material cênico, espaço arquitetônico e assim por diante.
Esse entendimento teve grande influência por meio dos estudos da performatividade e do fazer-dizer baseado no texto O fazer-dizer do corpo: dança e performatividade de Jussara Setenta (2008) e do livro Estética de lo performativo de Erika Fischer-Lichte (2011). Por meio desses dois conceitos, desenvolvidos principalmente para analisar a cena contemporânea nas artes, que se torna possível falar da improvisação como um modo que inaugura um próprio dizer, que não é dado pela palavra, mas sim pela própria ação. Isso significa, que é por um fazer-dizer dado no “aqui e agora” que as relações compositivas se dão.
Jussara Setenta aponta que “a organização da dança em um corpo pode ser tratada como sendo uma espécie de fala de corpo” (SETENTA, 2008, p. 17). Contudo, essa fala, não perpassa pela elaboração de signos e transmissão de significados como em um discurso falado, mas sim, inventa um modo próprio de dizer, sendo que “se distingue exatamente por não ser uma fala sobre algo fora da fala, mas por inventar o modo de dizer, ou seja, inventar a própria fala de acordo com aquilo que está sendo colocado. Essa modalidade de fala será aqui denominada de fazer-dizer” (SETENTA, 2008, p. 17).
Erika Fischer-Lichte (2011) aponta a estética do performativo como um modo alternativo de abarcar a percepção de obras contemporâneas que fogem à categoria da representação, como os Happenings, as Performances Art, os trabalhos influenciados por esse giro performático, que incluem trabalhos em dança contemporânea e de composição em tempo real, produzidas principalmente após os anos 1950.
Nesse sentido, se torna foco desse texto entender as implicações estéticas e compositivas ao atrelar improvisação e performatividade. Assim, surge como questões analisar: o aspecto da presença de um(a) improvisador(a); os modos de preparação para a criação na cena; a participação do espectador como um coautor/improvisador(a) do trabalho; e as formas de escolhas compositivas que se dão no movimento, na fala, no cenário, na luz, e entre outros, que enunciam uma dramaturgia efêmera e não dada a priori.
Além disso, foi possível desenvolver algumas reflexões sobre a composição improvisada nos seguintes aspectos: a improvisação como um fazer-dizer, sendo que o processo de enunciação implica o entendimento de que percepção e ação não se diferenciam, estabelecendo uma dimensão performativa do ato de improvisar e a performatividade que se dá em ação artística, na relação entre corporeidades e não somente pelo corpo que propõe a criação.
Essa dimensão do coletivo, de uma experiência comum, que se dá pela composição em dança se torna uma dimensão performativa. Essa premissa de que fazer é conhecer, proposta pela teoria da enação, e de que o fazer também é um dizer, proposto pela estética do performativo (FISCHER-LICHTE, 2011) será um ponto de interconexão para afirmar que a composição improvisada em dança se dá por um encontro de corporeidades e realidades que se interagem na construção de uma experiência artística comum, não representacional.
Nesse sentido, é por meio da performatividade que aponto que a improvisação expõe aquilo que é próprio e singular do sujeito que dança, criando formas diferentes elaborando um próprio dizer, que é sempre um fazer. E, nessa perspectiva a composição improvisada em dança se preocupa com o “como” e não com o “o quê” ou o “para quê” e, assim, a improvisação aponta um fazer-dizer na contemporaneidade, provocando e instigando o que é fixo e estático, se colocando na modificação de um “sempre” presente em que o corpo que improvisa afirma as próprias ideias do corpo no corpo.
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