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A partir de uma demanda de se qualificar termos de uso corrente no campo das danças negras o presente texto almeja fazer um mapeamento introdutório dos significados em torno do conceito de ancestralidade. Como professor de um Programa de Pós Graduação, orientando trabalhos inseridos na temática das danças da diáspora negra, percebo frequentemente o uso do termo ancestralidade como episteme guia das investigações. Se seu papel é basilar para o entendimento das dinâmicas culturais intergeracionais, frequentemente é apresentada a partir do senso comum de pesquisadores, aparecendo hora como sinônimo vago de tradição e de uma ideia do sagrado. Assim, nossa contribuição tem o intuito de qualificar a reflexão nesse campo e apresentar um panorama de estudos sobre o conceito de ancestralidade, suas similaridades e diferenças.
Nossa reflexão se inicia fazendo uma apreciação pelas contribuições de artistas pesquisadores de dança, como Inaicyra Falcão dos Santos, e sua obra Corpo e Ancestralidade: uma proposta pluricultural de dança-arte-educação, referência para os estudos em dança desde sua publicação, em 2002. O livro desmistifica conceitos relacionados à tradição cultural brasileira, mas retêm a apreensão do conceito de ancestralidade ao sentido mais trivial de uma investigação sobre a genealogia familiar. Embora seja necessário ressaltar que alguns desdobramentos educacionais vislumbrados pela proposição se expandam para a compreensão da história da comunidade e do grupo social em que se inserem os sujeitos retratados.
Desta forma, a pesquisa da artista evidencia-se por não negligenciar a própria experiência individual como critério de significação (COLLINS, 2019), propiciando um processo de reconhecimento e reconexão entre a história individual do artista em formação e a história e memória de seu grupo social e comunidade revisitados, presentificados e recriados pela proposição.
Após a reflexão sobre o impacto dessa obra de referência traçaremos um olhar panorâmico sobre as políticas em torno da apreciação da noção de ancestralidade, analisando como a mesma tem influenciado o campo artístico diaspórico brasileiro. Nesse sentido, serão relacionadas ponderações sobre as intermediações entre arte, religião e política negras a partir das contribuições de estudiosos sobre o tema. Esse estudo, obviamente, não supõe o esgotamento dos significados em torno da ancestralidade, pois também leva em consideração a multiplicidade de entendimentos que o termo congrega, bem como, as estratégias e vivências diversas que contribuem para seu entendimento.
É necessário ressaltar que os estudos sobre as liturgias afro-brasileiras, das quais a noção de ancestralidade é um princípio fundante, formulam-se historicamente através da articulação entre diferentes discursos e práticas, como: os saberes nativos dos sacerdotes e seus iniciados, a intervenção vigilante e reguladora do Estado (na figura das ações violentas e racistas de seu aparato repressivo, seja policial ou médico-sanitário) e a fala dos antropólogos, responsáveis pela disseminação de sistematizações sobre os cultos. Os estudos clássicos elaborados por Pierre Verger e Roger Bastide, ao desejarem construir uma classificação das religiões africanas no Brasil ajudaram a reproduzir uma lógica associativa entre a legitimação de um modelo de culto nagô (local de suas pesquisas) em detrimento às práticas de outras comunidades terreiro, consideradas impuras. Nesse sentido o trabalho de Lisa Earl Castilho (2010) e Stefania Capone (2018) evidenciam como a produção antropológica contribuiu para a reprodução de uma série de sensos comuns referentes a oposição binária entre magia e religião, liturgias puras e degeneradas, tradição e modernidade.
Essa distinção maniqueísta corrobora com a ressonância de conexões simplistas entre a ideia de tradição como algo fixo, modelo paradigmático que pode inclusive favorecer a reprodução de noções essencialistas sobre ancestralidade, alheias a percepção de sua presença na modernidade negra e nas experiências descentradas e hibridizadas da contemporaneidade.
O entendimento expandido sobre ancestralidade também navega por uma crítica a noção linear e ocidentalizada de tempo, em que as genealogias, constituídas por uma ordem sucessiva de parentesco sanguíneo, tornam-se guia e referência aos saberes anteriores. Aqui ressaltamos a importância de uma dimensão mais expansiva e cósmica forjada pela noção da temporalidade espiralada (MARTINS, 2020) na qual integram-se sincronicamente presente, passado e futuro. Essa compreensão baseia-se pelas cosmo-percepções africanas do mundo nas quais a dinâmica de nascimento, maturação e morte operam uma noção curvilínea e dinâmica de tempo, em que saberes são restituídos, recriados e revisados simultaneamente. É a partir dessa noção de tempo e de percepção da tradição como iteração (GILROY, 2007) que se institui um mecanismo permanente de reprocessamento em que se organiza a ancestralidade e suas poéticas e políticas na diáspora.
Defendemos que não se trata de reverenciar valores, saberes e práticas constituídos através de uma descendência contínua de filiações, mas atentar-se aos modos de articulação complexo e dinâmico, muitas vezes constituído por mais de uma referência, confluindo nela desconexões, interferências múltiplas, bem como, pensamentos de rastros e resíduos (GLISSANT, 2005), ressonâncias em rede de saberes e seus afetos. Esses elementos formulados por um regime geral de referenciação (OLIVEIRA, 2007), dependem de uma ética relacional, uma coletividade de alteridades a partir das quais organizam-se de maneira inclusiva experiências diversas.
Desejamos apresentar um panorama de autores e intelectuais negros sobre a noção de ancestralidade, suas implicações e metamorfoses contribuindo para compor através dele uma associação com princípios éticos, políticos e com a noção de encantamento (OLIVEIRA, 2007; SIMAS e RUFINO, 2020), local de reconhecimento e possibilidade da ancestralidade.
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