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A formação corporal no Balé Afro Raízes
Márcia Virgínia Bezerra de Araújo - UFPE
Jacicleide Conceição da Silva - UFPE
Dança e diáspora negra: poéticas, política, modos de saber e epistemes outras
Introdução
Esta pesquisa discute a prática da dança afro como um método de formação corporal. Em se tratando das análises do corpo em movimento, compreendemos que a dança considerada afro-brasileira constitui-se de técnicas que possuem seu lugar de potência formativa de corpos pensantes, na medida em que suas práticas apresentam uma lógica própria de organização e sistematização.
Hipótese
Muitas pesquisas sobre a dança afro-brasileira referem-se às dimensões étnicas, culturais, identitárias, artísticas, ritualísticas e, ainda, pedagógicas. No entanto, pouco se tem pesquisado sobre a prática da dança afro em termos de formação e fortalecimento do corpo, da fisicalidade e da integração corpo-mente. Diante disso, a hipótese central é a de que as danças afro-brasileiras podem ser consideradas integrativas e formativas. Considerando os lugares de transmissão e escolarização da dança afro, existem elementos nítidos de preparação e formação corporal na prática artística.
Referencial Teórico
Destacamos aqui estudos relevantes em torno desta temática, que envolvem a dança afro-brasileira baiana, a dança afro-brasileira contemporânea, as danças de matrizes africanas, ou a dança afro como meio de profissionalização e formação: ARAÚJO (1999), CONRADO (1996), FERRAZ (2012), LIGIÉRO (2011), OLIVEIRA (2015). Epistemologicamente o termo formação significa instruir, educar, entre outros contextos que estão ligados à formação do indivíduo, ao longo da qual também são consolidados aspectos da sistematização do conhecimento.
Refletindo sobre o corpo em termos de formação, o senso comum transparece que as danças consideradas acadêmicas, que tiveram métodos sistematizados, como as danças clássica e a moderna na Europa e Estados Unidos, são as que formam e preparam os corpos de maneira técnica, e que apresentam uma lógica de organização corporal mais eficiente. No entanto, considerando que embora haja uma sofisticação de movimentos nas danças acadêmicas, algumas destas se apropriaram de movimentos das culturas tradicionais dos povos para a consolidação de seus métodos.
Na dança afro-brasileira não existe dicotomia entre técnica e criação no ato de dançar, bem como não há dualidade entre a vida cotidiana e a dança. Considerando que as danças tradicionais dos povos têm em suas bases a ligação com as leis da natureza, em especial, as leis universais do movimento humano e sua relação com a terra, podemos observar que o processo de ensino-aprendizagem agrega a junção entre técnica e criação, de maneira que a sistematização fica menos explícita que nas referidas danças acadêmicas. No caso da dança afro, o repertório de movimentos contém em si uma totalidade corporal, além de atuar como fator de inclusão do indivíduo na sociedade.
Considerando as diferenças existentes entre as danças afro-brasileiras, pode-se destacar que um dos pontos em comum seja a maneira como se dá a organização técnica de movimentos. Existe uma lógica organizadora das movimentações corporais, a saber, a mobilidade e ao mesmo tempo a estabilidade da coluna vertebral, com ênfase na lombar, realizando a flexão, extensão e rotação do tronco. Tomando como referência a escolarização que acontece no Grupo Balé Afro Raízes, convém ressaltar a constante busca por aprofundamento nas matrizes formadoras do povo brasileiro, bem como a crescente contribuição na emancipação e reconhecimento dessas técnicas corporais, também consideradas como cultura e arte.
Metodologia
Com o objetivo de compreender o processo de formação corporal, a partir da técnica e criação da dança afro-brasileira, trazendo aspectos que constituem a formação estabelecida no “Balé Afro Raízes”, situado na comunidade de Peixinhos, em Olinda, o trabalho de campo se desenvolveu através de observação participativa, entrevistas e registros por fotos e vídeos do grupo. Foi feita uma análise do discurso dos entrevistados, juntamente com a observação e realização da prática.
Resultados
O Balé Afro Raízes apresenta uma formação integral, com um repertório de movimentos codificados e criativos, considerado pelos integrantes como uma vertente de embasamento prático e teórico da dança Afro-Primitiva-Tribal e dança dos Orixás. A prática se mostra fluida e acessível, mesmo para quem não é negro ou afrodescendente, permitindo um entendimento consciente da prática, assim como o reconhecimento identitário e o sentimento de pertença à sociedade em que estão inseridos. Os dados referentes ao discurso dos entrevistados, juntamente com a análise dos princípios de movimentos presentes na prática da dança, demonstram que existe um processo formativo complexo, que envolve aspectos históricos, sociais e comunitários, contribuindo para o fortalecimento da corporalidade e corporeidade dos integrantes, o que permite a ampla criação e recriação contínua do estilo identitário da dança que se faz no “Balé Afro Raízes’.
Palavras- chave: DANÇA AFRO. FORMAÇÃO. TÉCNICA. CRIAÇÃO.
Referências
ARAÚJO, Márcia Virginia B. de. Meu corpo é um templo, minha oração é a dança. Dimensões Étnicas, Rituais e Míticas na Companhia de Dança ‘Balé Teatro Castro Alves’. Dissertação de mestrado. Recife, PPGA, 1999.
CONRADO, Amélia Vitória de Souza. Dança Étnica Afro-Baiana: uma educação de movimento. Salvador, 1996, 197p. Dissertação (Mestrado em Educação), Faculdade de Educação, UFBA.
FERRAZ, Fernando Marques Camargo. O fazer saber das danças afro: investigando matrizes negras em movimento. Dissertação de mestrado, UNESP: São Paulo, 2012.
LIGIÉRO, Zeca. Batucar-Cantar-Dançar, Desenho das performances africanas no Brasil. Universidade Federal do Rio de Janeiro/UNIRIO.JANCE RTN.1-V.21-Aletria.133 a 146. 2011.
OLIVEIRA, Nadir, Nóbrega. Tentando definir a estética negra em dança. Repertório, Salvador, n° 24.p, 128-136, 20
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