MORTE É ASSUNTO DE CRIANÇA?
IntroduçãoO presente texto tem por objetivo apresentar uma experiência pedagógica sobre finitude humana, desenvolvida com crianças em uma escola no hospital no município de Niterói.A morte é um assunto pouco explorado no espaço escolar, porém, quando a escola é no hospital, este tema ganha sentido, devido à ocorrência de óbito em seu cotidiano.Entendemos que refletir sobre a morte é falar de vida e do viver. Nesta caminhada reflexiva, é possível criar espaços de diálogo que desmistifiquem a morte, buscando compreendê-la como parte natural da vida.As crianças sabem da morte, conhecem esta realidade, pois a morte tem o simbolismo do fim, da perda. Desde muito pequena, a criança aprende a reconhecer os ritos do “luto”: a perda de um brinquedo, a perda da escola, de um amigo que vai morar longe ou ainda a perda da convivência diária com um dos pais devido à separação conjugal.Quando o professor silencia diante da morte, não está protegendo a criança e sim, deixando-a, sozinha, em suas dúvidas, ansiedades, temores e fantasias.Relato da PráticaUma experiência significativa vivida no hospital Getúlio Vargas Filho que objetivou trabalhar o tema morte foi o desenvolvimento do “Projeto Germinação” que nos deu a oportunidade de trabalhar conceitos como conservação da vida, ciclos da natureza, respeito mútuo e vínculos sócioafetivos, entre outros.Este trabalho consiste no plantio, na observação e no registro do desenvolvimento do feijão. Para introduzir o tema, iniciamos o projeto contando a história “Se um dia eu for embora” de autoria Anna Göbel, que aborda a finitude dos seres vivos, o que possibilitou um debate com os alunos sobre suas opiniões e experiências relacionadas à morte.A partir deste diálogo, todos nós relatamos nossas vivências sobre perder. A perda de um ente querido, de um animal de estimação, de um brinquedo entre outros. Durante o debate problematizamos com o grupo o ciclo da vida em que os seres vivos nascem, crescem, reproduzem ou não, e morrem.Para confirmar este ciclo, propomos que cada aluno plantasse feijões em algodão, ficando acordado ainda, que eles teriam que: cuidar, observar e registrar cada etapa da germinação até a sua possível finitude.ConclusãoNeste processo, os alunos puderam perceber que cada feijão se desenvolveu de um modo particular. Uns nasceram e logo morreram, outros duraram um pouco mais de tempo e outros continuaram crescendo, sendo então necessário transplantá-los para a terra.Com o desenvolvimento do projeto germinação foi possível compartilhar nossos temores, fantasias, expectativas e esperanças sobre a morte, tornando- a parte de uma conversa estimulante e necessária, em que morrer é tão parte da vida como nascer.