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Introdução: Buscamos compreender a produção do cuidado para uma criança desnutrida grave em uma Unidade de Saúde da Família-USF. Verificamos a dificuldade por parte dos profissionais de articular a produção da saúde com a autonomia do usuário em condições onde falta recursos básicos para uma vida digna e que se relacionam com habitus considerados inadequados de forma hegemônica na sociedade (Souza, 2009). As relações de cuidado são consubstanciadas pelo jogo de força de saber/poder, pendendo muitas vezes para exclusão dos saberes e estratégias do usuário, suas necessidades são objetivadas em prescrições protocolares biomédicas, impossíveis de serem acessadas no contexto de vida do mesmo. A reflexão crítica desta relação produziu uma dobra visando perceber e apoiar a potência criativa da família, na direção da autonomia da mesma. Metodologia: Trata-se de um estudo de caso, utilizando a cartográfia conforme Deleuze e Guattari (1995). Mapeamos as avaliações, atitudes e ações propostas ou construídas pela equipe de saúde para um lactente que desnutriu gravemente (até o grau III), filho de Aíra, mãe de sete filhos, cuja renda depende do programa de provimento de renda Bolsa Família (Cronemberger & Teixeira, 2015). A análise se baseou na compreensão do ato de cuidar como uma relação social, permeada pelo jogo de poder e saber entre os profissionais e usuários (Foucault, 1979), buscando compreender sua potência para a produção da autonomia. Desenvolvimento: A criança estava sendo acompanhada de forma adequada conforme os protocolos de cuidado do lactente, não obstante, ela desnutriu gravemente. Mesmo assim, a avaliação permaneceu focada no campo biomédico e se sugere internar a criança. Sugestão que não se sustentou tecnicamente. Ainda no mesmo campo explicativo, sugeriram um déficit cognitivo na mãe, baseado no fato dela não ter a cultura matemática de saber medir quantidades em mililitros. A captura por avaliar e agir sobre o problema levando em consideração apenas o biológico foi frequente mesmo entre os profissionais não médicos. Saindo deste campo, as avaliações se basearam nos referenciais morais hegemônicos: Aíra deixa de ser uma mãe com déficit cognitivo para ser negligente. As descrições para comprovar sua incapacidade de cuidar foram: a falta de higiene; o fato dela beber; nomeada como preguiçosa e egoísta, ressaltando-se que não realiza os cuidados básicos para manter a saúde de seus filhos. Até sua crença religiosa é reduzida ao conceito de seita. As interpretações sobre a realidade da família foram mostradas como fatos, a partir dos quais se propõe a intervenção do conselho tutelar. Aíra não estava incluída como protagonista do cuidado de sua criança, exceto para reproduzir as prescrições da equipe. A lógica disciplinar (Foucault, 1979) biomédica deixa oculta que estas prescrições é produzida e reproduz formas de cuidar de si adequadas a uma classe, depende de condições materiais de existência e de uma rede de apoio social. Problematizar esta situação no sentido que de que a família tem uma sabedoria e um modo de olhar a vida que devem ser apoiadas e que podem nos ensinar a cuidar dela trouxe soluções interessantes ao cuidado: buscou-se compreender quais heranças simbólicas, morais e valorativas Aíra incorporou ao longo da vida (Souza, 2004); reavaliou-se as prescrições realizadas, baseando-se na sua condição social, emocional e econômica; procurou-se apoiar suas práticas e estratégias referentes a sua rede social e que possibilitaram criar seus seis filhos. Conclusão: O esforço do profissional em reconhecer o usuário como capaz e autonomo onde é difícil a construção da relação de cuidado, pode ser facilitado com espaços de reflexão e aprendizado. Verificamos que vincular-se a alguém que não é reconhecido como digno, não é algo simples. A autonomia, entendida como processo relacional de interdependência se correlaciona com reconhecimento social Honnet (2009), e com a compreensão de qual cidadania estamos produzindo. Esta inclui o reconhecimento dos sujeitos como dignos de valor, proposição que deve ser radicalizada quando necessitamos produzir cuidado para pessoas que vivem em condições materiais, culturais e sociais completamente diversas da nossa. Nesta direção, o saber e o contexto da família passou a constituir as bases da avaliação e das proposições do cuidado, possibilitando mudanças nas propostas de atuação e na maneira de interagir com a família. Aira assumiu lugar de protagonista do cuidado de sua filha e a equipe o seu papel de apoiar autonomia e garantir seu direito de cidadania de ser cuidada com a vida que sabe e pode levar. Referencias bibliográficas: CRONEMBERGER, Izabel Herika Gomes Matias; TEIXEIRA, Solange Maria. O sistema de proteção social brasileiro, política de assistência social e a atenção à família. Pensando fam., Porto Alegre , v.
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