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Visto que o conceito de "sistemas de classificação'', e a variação usada por Bourdieu, como estrutura mental, formas simbólicas, nomos, faz referência à Cassirer e Durkheim, pretende-se lidar com seu aspecto de forma mais minuciosa. Porém, essa pesquisa tem o intuito de compreender o "pensamento de Estado". Em Sobre o Estado, Bourdieu procura compreender a gênese histórica do Estado enquanto monopólio da violência física e simbólica legítima. O estudo do Estado não pode desconsiderar o estudo dos agentes que fizeram o Estado, ou seja, quem eram e quais seus interesses. De acordo com Bourdieu, os agentes que fizeram o Estado se fizeram como agentes do Estado para poder dominar e impor seus interesses particulares como se fossem universais. Para compreender como isso se deu, Bourdieu encontra nas instituições a homologia entre as estruturas mentais de Estado e as estruturas sociais. As instituições aparecem, portanto, como domesticadores dos corpos e também como reprodutoras da dominação. Pretende-se compreender a gênese do Estado, as lutas pela definição do Estado e os agentes que lutaram para impor essas definições, mas, principalmente, pretende-se compreender como o Estado funciona como um produtor de princípios de classificação, isto é, como produtor da realidade social.
Apoio/Financiamento da Pesquisa: SAE/UNICAMP
Otávio Vasconcelos Vieira
Olá, Leonardo! Tudo bem com você?
Gostaria, antes de tudo, de te parabenizar pelo seu trabalho. Ficou uma pesquisa super interessante e bem feita. Minha questão é somente sobre algo que ficou um pouco confuso para mim. Como você entende a relação entre 'relações sociais' e 'relações de dominação' em Bourdieu? Pergunto isso porque em alguns momentos do seu texto você parece tomar as duas coisas como equivalentes, mas, em outros, elas parecem ser coisas distintas, ainda que fortemente relacionadas. Você poderia, por favor, desenvolver um pouco mais sobre como você entende isso. Muito obrigado, e parabenizo novamente pelo excelente trabalho!
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LEONARDO NASCIMENTO PANÇA
Olá, Otávio! Muito obrigado! Agradeço muito pela questão! Penso que todas as relações sociais são relações de força em Bourdieu, mas as relações sociais não são relações de força stricto sensu, pois não possuem a mesma determinação a depender da dimensão teórica à qual Bourdieu se refere. Por “dimensão”, entendo aqui o foco teórico dado por Bourdieu em determinado aspecto das suas ferramentas conceituais. Acontece que Bourdieu tem por princípio uma teoria sintética (entendido enquanto “praxiologia”) entre escolas conceituais aproximadas, mas conflitantes. O exemplo claro disso é a junção entre Durkheim, Marx e Weber. Daí ele falar em “dimensão subjetiva” em um momento e “dimensão objetiva'' em outro. Quando se trata da dimensão objetiva, das relações de dominação engendradas nos “campos sociais” - entendido aqui enquanto um espaço simbólico no qual agentes sociais lutam para conservar ou subverter as hierarquias de poder através da luta por capital cultural ou econômico (entre outros). Neste sentido, entendemos que há uma fragmentação e autonomização dos conflitos sociais em campos e que aqueles não se restringem aos conflitos de classe determinados por Marx. Por isso, não podemos falar que as relações de força são de igual para igual entre agentes que ocupam posições sociais em campos diametralmente opostos (campo cultural versus campo econômico), mas, isso sim, que é na luta dentro do campo que os agentes se posicionam dentro e fora do campo. Alguns autores contra os quais Bourdieu dialoga tendem a colocar a “dimensão simbólica” em primeiro plano: Saussure e o próprio Cassirer tendem a determinar as formas simbólicas fora das relações de força entre os agentes, não tencionando o conflito mesmo nas relações de comunicação mais banais. Daí que podemos falar em formas simbólicas como ferramentas de comunicação e conhecimento, mas não passamos à determinação das relações sociais enquanto modalidades que as coagem. Para ultrapassar a ideia do mito em Cassirer como modalidade simbólica capaz de estruturar relações funcionais por símbolos entre sujeito e objeto, Bourdieu passa às relações sociais. Exemplo: no artigo A casa kabyle, Bourdieu apresenta não só o sistema mítico-simbólico da relação entre todo o universo da casa com seus habitantes, mas também como a própria relação de força entre o feminino e o masculino penetra, por assim dizer, nesse sistema mítico-simbólico. As classificações sociais aí engendradas apresentam pares míticos opostos em que o fundamento último é a divisão de trabalho entre os sexos. Penso que por isso Bourdieu utiliza os dois termos: para determinar tanto dimensões diferentes captadas pela teoria social assim como para se contrapor às teorias contra as quais ele mantém diálogo.
Otávio Vasconcelos Vieira
Muito obrigado pelos esclarecimentos, Leonardo. Fico extremamente feliz com sua pesquisa e torço muito para que ela continue em um mestrado. Forte abraço!
LEONARDO NASCIMENTO PANÇA
Muito obrigado mesmo! Abraços!