Olá Guilherme,
Te parabenizo pela relevância social do trabalho e aproveito para deixar algumas impressões/dúvidas para que você possa reagir.
1) Em primeiro lugar, eu sugeriria uma readequação do título. Numa primeira leitura, temos a impressão de que se trata de um trabalho enfocado no NCN como objeto empírico, sendo que ao longo da leitura do texto, somos surpreendidos com a emergência de outros dois grupos como espaços privilegiados de trabalho de campo. Além disso, ficamos com a espectativa de que os conceitos de poder, epistemicídio e aquilombamento serão mapeados e discutidos. O conceito de epistemicídio é um pouco mais explorado no texto, o de aquilombamento muito pouco e o de poder desapareceu do texto.
Ainda, considerando as entidades etnografadas, senti falta de uma maior caracterização das mesmas, delineando suas diferenças em termos de repertórios de ação e mesmo de estrutura organizacional e vinculação institucional. No caso do NCN, um coletivo de estudantes negros. No caso do Bitita, ao que parece, um Núcleo de Estudos que aglutina a um só tempo docentes e discentes da universidade. E no caso do CADER uma instância institucional. Se tratam de grupos com envergaduras de atuação política bastante específicos, embora eu saiba que existe uma circulação produtiva de pessoas e ideias entre esses grupos. Acredito que esses fatores precisam ser mencionados e discutidos, em especial para os leitores que não conhecem a "cena" da mobilização negra na UNICAMP.
2) Tive a impressão de que seu texto apresenta uma certa sobreposição do conceito teórico assumido por você com relação ao "epistemicídio" em face da categoria êmica epistemicídio e aquilombamento (que teoricamente também não foi explorada no seu texto). Isso é um problema. Não ficou evidente até que ponto a categoria de epistemicídio "mobilizada", "problematizada" pelas entidades do movimento coaduna, amplia, revisa, a definição teórica de Sueli Carneiro. Nesse sentido, valeria a pena trazer para o seu texto narrativas do campo.
3) Outra questão em torno de um conceito teórico: a utilização da noção de "decolonial" no seu argumento. Você afirma que a agenda do NCN se pautou em "conceitos decoloniais como epistemicídio e aquilombamento". Ficou a dúvida: o NCN, enquanto grupo, se autodenomina "decolonial"? Sueli Carneiro, cuja elaboração sobre o conceito de epistemicídio é tomada como base por você, se considera decolonial? Decolonial, descolonial, pós-colonial são enquadramentos teóricos em constante disputa, cabe apontar, primeiro, o que você entende por decolonial, quais autores mobiliza e também se se trata de um enquadramento seu ou um enquadramento que emerge do seu campo empírico.
4) Ainda que você tome o NCN como o centro da história da mobilização negra mais recente na universidade, é importante tomar cuidado com algumas relações de causa e efeito. Não me parece consistente, por exemplo, assumir que a prática política do NCN em torno da ideia de epistemicídio e aquilombamento é um resultado simples "da implementação de cotas raciais na universidade e da maior presença de sujeitos negros na Unicamp". Sim, o enegrecimento e popularização da UNICAMP tem um efeito na dinâmica e amplitude das mobilizações, do enegrecimento dos curriculos, e etc. Mas observando trabalhos que estudam iniciativas do movimento negro na mais antigas na UNICAMP ou mesmo observam a atuação do NCN desde seus primórdios, antes das cotas, é possivel verificar que a mobilização dos conceitos de epistemicídio e aquilombamento é mais uma CONTINUIDADE, do que uma NOVIDADE.
Nesse sentido, indicaria como uma referência que pode ser útil a leitura da minha dissertação de mestrado, onde discuto as mobilizações do NCN de sua fundação até o ano de 2020 e também de um grupo mais antigo e muito parecido com a proposta do BITITA, O NEN, Núcleo de Estudos Negros (ao que se sabe, o primeiro coletivo de estudantes negros que temos noticia na UNICAMP). O trabalho da Angélica Inada, sobre o processo de luta pelas cotas também é interessante, na medida em que mapeia um pouco as origens do NCN e delineia as temáticas dos primeiros QTCA (sendo a edição de 2014, por exemplo, enfocada na questão do epistemicídio e intitulada: III QUEM TEM COR AGE: Intelectualidade Negra - Conhecimento, racismo e epistemicídio).
MESQUITA, T.V.L. É preciso mudar os lugares da mesa: um estudo das carreiras militantes de acadêmicos negros na Universidade Estadual de Campinas. Dissertação (Mestrado em Educação), Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2021.
INADA, A. K. Quando a Unicamp falou sobre cotas: trajetória de militância do Núcleo de Consciência Negra e da Frente Pró-cotas da UNICAMP. Dissertação (Mestrado em Educação), Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2018.
5) Finalizando, outro ponto que chamou a atenção nas conclusões foi o uso dos verbos no futuro do presente indicativo... "a CADER servirá", "será o Núcleo de Estudos Carolina de Jesus". A escrita me confundiu como leitora, pois deu a impressão de que você estava fazendo prescrições sobre o futuro da mobilização negra na universidade, quando eu entendo que seu objetivo como pesquisador é refletir sobre o campo presente e indicar potencialidades, reforçar hipóteses, nunca certezas. Nesse sentido, sugeriria uma revisão e padronização dos tempos verbais ao longo do texto.
Aguardo seu retorno ao diálogo,
Tayná