Comentários gerais sobre o resumo apresentado
Publicação: Poder, epistemicídio e aquilombamento: como a articulação desses conceitos foi utilizada pelo NCN da Unicamp na construção da sua agenda política nos anos de 2019, 2020 e 2021.
Olá Guilherme,
Te parabenizo pela relevância social do trabalho e aproveito para deixar algumas impressões/dúvidas para que você possa reagir.
1) Em primeiro lugar, eu sugeriria uma readequação do título. Numa primeira leitura, temos a impressão de que se trata de um trabalho enfocado no NCN como objeto empírico, sendo que ao longo da leitura do texto, somos surpreendidos com a emergência de outros dois grupos como espaços privilegiados de trabalho de campo. Além disso, ficamos com a espectativa de que os conceitos de poder, epistemicídio e aquilombamento serão mapeados e discutidos. O conceito de epistemicídio é um pouco mais explorado no texto, o de aquilombamento muito pouco e o de poder desapareceu do texto.
Ainda, considerando as entidades etnografadas, senti falta de uma maior caracterização das mesmas, delineando suas diferenças em termos de repertórios de ação e mesmo de estrutura organizacional e vinculação institucional. No caso do NCN, um coletivo de estudantes negros. No caso do Bitita, ao que parece, um Núcleo de Estudos que aglutina a um só tempo docentes e discentes da universidade. E no caso do CADER uma instância institucional. Se tratam de grupos com envergaduras de atuação política bastante específicos, embora eu saiba que existe uma circulação produtiva de pessoas e ideias entre esses grupos. Acredito que esses fatores precisam ser mencionados e discutidos, em especial para os leitores que não conhecem a "cena" da mobilização negra na UNICAMP.
2) Tive a impressão de que seu texto apresenta uma certa sobreposição do conceito teórico assumido por você com relação ao "epistemicídio" em face da categoria êmica epistemicídio e aquilombamento (que teoricamente também não foi explorada no seu texto). Isso é um problema. Não ficou evidente até que ponto a categoria de epistemicídio "mobilizada", "problematizada" pelas entidades do movimento coaduna, amplia, revisa, a definição teórica de Sueli Carneiro. Nesse sentido, valeria a pena trazer para o seu texto narrativas do campo.
3) Outra questão em torno de um conceito teórico: a utilização da noção de "decolonial" no seu argumento. Você afirma que a agenda do NCN se pautou em "conceitos decoloniais como epistemicídio e aquilombamento". Ficou a dúvida: o NCN, enquanto grupo, se autodenomina "decolonial"? Sueli Carneiro, cuja elaboração sobre o conceito de epistemicídio é tomada como base por você, se considera decolonial? Decolonial, descolonial, pós-colonial são enquadramentos teóricos em constante disputa, cabe apontar, primeiro, o que você entende por decolonial, quais autores mobiliza e também se se trata de um enquadramento seu ou um enquadramento que emerge do seu campo empírico.
4) Ainda que você tome o NCN como o centro da história da mobilização negra mais recente na universidade, é importante tomar cuidado com algumas relações de causa e efeito. Não me parece consistente, por exemplo, assumir que a prática política do NCN em torno da ideia de epistemicídio e aquilombamento é um resultado simples "da implementação de cotas raciais na universidade e da maior presença de sujeitos negros na Unicamp". Sim, o enegrecimento e popularização da UNICAMP tem um efeito na dinâmica e amplitude das mobilizações, do enegrecimento dos curriculos, e etc. Mas observando trabalhos que estudam iniciativas do movimento negro na mais antigas na UNICAMP ou mesmo observam a atuação do NCN desde seus primórdios, antes das cotas, é possivel verificar que a mobilização dos conceitos de epistemicídio e aquilombamento é mais uma CONTINUIDADE, do que uma NOVIDADE.
Nesse sentido, indicaria como uma referência que pode ser útil a leitura da minha dissertação de mestrado, onde discuto as mobilizações do NCN de sua fundação até o ano de 2020 e também de um grupo mais antigo e muito parecido com a proposta do BITITA, O NEN, Núcleo de Estudos Negros (ao que se sabe, o primeiro coletivo de estudantes negros que temos noticia na UNICAMP). O trabalho da Angélica Inada, sobre o processo de luta pelas cotas também é interessante, na medida em que mapeia um pouco as origens do NCN e delineia as temáticas dos primeiros QTCA (sendo a edição de 2014, por exemplo, enfocada na questão do epistemicídio e intitulada: III QUEM TEM COR AGE: Intelectualidade Negra - Conhecimento, racismo e epistemicídio).
MESQUITA, T.V.L. É preciso mudar os lugares da mesa: um estudo das carreiras militantes de acadêmicos negros na Universidade Estadual de Campinas. Dissertação (Mestrado em Educação), Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2021.
INADA, A. K. Quando a Unicamp falou sobre cotas: trajetória de militância do Núcleo de Consciência Negra e da Frente Pró-cotas da UNICAMP. Dissertação (Mestrado em Educação), Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2018.
5) Finalizando, outro ponto que chamou a atenção nas conclusões foi o uso dos verbos no futuro do presente indicativo... "a CADER servirá", "será o Núcleo de Estudos Carolina de Jesus". A escrita me confundiu como leitora, pois deu a impressão de que você estava fazendo prescrições sobre o futuro da mobilização negra na universidade, quando eu entendo que seu objetivo como pesquisador é refletir sobre o campo presente e indicar potencialidades, reforçar hipóteses, nunca certezas. Nesse sentido, sugeriria uma revisão e padronização dos tempos verbais ao longo do texto.
Aguardo seu retorno ao diálogo,
Tayná
Publicação
Publicação: Poder, epistemicídio e aquilombamento: como a articulação desses conceitos foi utilizada pelo NCN da Unicamp na construção da sua agenda política nos anos de 2019, 2020 e 2021.
Olá, começo com um elogio ao tema escolhido, sobretudo pela pertinência ao tamanho de uma iniciação científica. AEstou convencido que a escolha por aprofundar a análise sobre como as categorias de epistemicídio e aquilombamento aparecem em campo, durante os três anos, são adequadas. inda que a pesquisa tenha sofrido modificações pelo contexto da pandemia, é notável que se trata de um tema que pode acompanhar o autor em sua agenda futura.
Além do mais, o texto está muito bem redigido e a bibliografia não é decorativa, pelo contrário, o autor debate as ideias mesmo num paper tão curto.
Eu gostaria de saber como o autor compreende o impacto das ações afirmações na universidade, não apenas do ponto de vista quantitativo (mais pessoas negras na instituição), mas das mudanças no perfil dos estudantes negros ingressam. Além da pesquisa bibliográfica, procurou-se os dados e o perfil sócio-econômico? Como os repertórios pré-entrada na universidade dos sujeitos que fazem parte das recentes configurações do NCN modificaram a atuação do grupo? A mesma pergunta também cabe a como a Unicamp se relaciona com os estudantes negros e suas iniciativas, uma vez que vemos transformações profundas desde a aprovação das cotas.
Parabéns!
Publicação: Poder, epistemicídio e aquilombamento: como a articulação desses conceitos foi utilizada pelo NCN da Unicamp na construção da sua agenda política nos anos de 2019, 2020 e 2021.
Parabéns pela pesquisa, tema de extrema importância! Abraços, Mônica.
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