AUTORREGULAÇÃO DA APRENDIZAGEM DE UNIVERSITÁRIOS NO ENSINO REMOTO

Vol 1, 2022 - 147750
Apresentação Oral
Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo

Este trabalho faz parte de uma pesquisa que teve por objetivo conhecer os hábitos de estudo e a autorregulação da aprendizagem em universitários durante o período de distanciamento social, ocasionado pela pandemia de Covid-19. 11 universitários participaram de uma das três rodas de conversa, usando a plataforma Google Meet, nos dias 5, 6 e 8 de abril de 2021. Foram 8 estudantes do sexo feminino e 3 do sexo masculino, 10 de universidades de Minas Gerais e um de uma universidade federal do interior de São Paulo. A primeira roda teve 3 participantes, a segunda e a terceira, 4, mediadas por uma professora universitária e uma estudante de iniciação científica.
O ensino remoto exige dos estudantes uma maior autorregulação da aprendizagem, pois é sua responsabilidade organizar o espaço de estudos, o horário e minimizar as distrações e intercorrências que acontecem por estarem no ambiente doméstico ou em outro, com acesso à internet e realizando atividades acadêmicas. Além dessas dificuldades, é preciso considerar que muitas famílias tiveram grandes perdas afetivas e financeiras durante a pandemia. Uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz indicou que, em 2020, 230.452 pessoas morreram por Covid-19 no Brasil (LEVY, 2021), isso sem mencionar as que adoeceram, foram internadas e tiveram sequelas da doença. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua indicavam, em 2020, um desemprego recorde, chegando a 13,5% de média nacional, a maior desde 2012, sendo um dos efeitos da pandemia de Covid-19 sobre o mercado de trabalho (PNAD Contínua, 2021). Todos os participantes da pesquisa tinham menos de 30 anos e dedicavam seu tempo prioritariamente aos estudos, o que pode ser um compromisso com suas famílias de alcançarem uma condição de vida melhor, futuramente. É possível ainda que os universitários trabalhadores, justamente, por terem menor tempo disponível, não tivessem sido alcançados pela pesquisa realizada.
O que torna um sujeito estudante não é o fato de estar matriculado na instituição de ensino, nem mesmo de frequentar uma sala de aula, mas o hábito de estudar. Partimos do princípio de que todo hábito é construído social e culturalmente e precisa ser aprendido. Bastos e Keller (1997) definem o hábito como uma qualidade estável e permanente, boa ou má, que torna a ação mais fácil, quase automática. Hábitos de estudo são, portanto, aquelas ações sistemáticas (e não temporárias) diretamente voltadas à aprendizagem de um determinado conteúdo, como ler, escrever, fazer exercícios, assistir aulas, participar de discussões, entre outras. Tornar os estudos um hábito é fundamental para que os alunos consigam autorregular seu aprendizado e identificar as estratégias de aprendizagem que são ou não eficazes para si, a fim de promover uma planificação de suas aprendizagens, conseguindo, dessa maneira, verificar os resultados obtidos (FRISON, 2016).
A auto-regulação da aprendizagem diz respeito ao “processo pelo qual os indivíduos ativam, orientam, monitoram e se responsabilizam pela sua própria aprendizagem.” (BORUCHOVITCH; GOMES, 2019, p.9). Com o desenvolvimento de hábitos de estudo, os alunos conseguem regular o seu processo de aprendizagem identificando dificuldades e traçando estratégias para superá-las. O aluno sabe o que, como e quando fazer, planejando e controlando melhor seu aprendizado, a fim de alcançar um objetivo final (JOLY et al., 2012).
Utilizamos a análise temática reflexiva (BRAUN; CLARKE, 2006) para analisar os dados das rodas de conversa que foram reunidas como um único banco de dados. A abordagem foi indutiva ou baseada nos dados, o que significa que se buscou, nos dados, as temáticas que mais se destacaram. Sendo assim, chegamos a 3 grandes temas: 1. Aprendizagem no contexto do ensino remoto; 2. Hábitos e estratégias de estudo e 3. Para que servem os estudos? Sendo o primeiro subdividido em cinco subtemas: 1. A falta de colegas, amigos e da interação social, 2. A sala de aula no contexto doméstico, 3. Disciplina, foco, planejamento e organização do tempo, 4. As disciplinas da universidade no contexto remoto e 5. Consequências do ensino remoto para a formação.
A falta de contato social, interação com os colegas e amigos foi muito enfatizada, como se pode ver na afirmação de Saulo: “Você vai passando cada vez mais em isolamento, em isolamento, quando você assusta, você vai tendo todas as suas relações através de computador”. Sara também disse: “... não consegui fazer nenhum laço, nenhum amigo novo nessas outras disciplinas que eu fiz, e isso querendo ou não é uma característica que pesa né?”. Para Júlia: “Nós somos seres sociáveis né, faz falta a gente encontrar com as pessoas, conversar com elas ao vivo, poder abraçar, poder sentir a pessoa, né?”
Sobre a sala de aula no contexto doméstico, os estudantes se queixaram das distrações e relataram um esforço contínuo para manter o foco, realizar as atividades apesar dos barulhos e interrupções: “O local onde eu estudava era o local onde eu dormia, então, era o local onde eu também assistia minha série, por exemplo, que é meu espaço de lazer, eu ficava bem confusa às vezes, porque eu tinha que ficar estudando, eu tinha que sentar na minha mesa pra estudar mas eu olhava pro meu lado e tinha minha cama [...] tive muita dificuldade para estudar durante a pandemia.” (Júlia)
Os estudantes também falaram da dificuldade em manter a disciplina, o foco, planejar e organizar o tempo, havendo perda de ânimo e motivação. Sara disse que: “[...] preferiria mil vezes estar com o livro físico em uma biblioteca do que lendo um pdf na tela [...] isso sem contar as distrações também... mesmo que eu esteja estudando sempre surgem outros tópicos, é, sempre vou abrindo outras abas no navegador. Agora mesmo acho que tá com umas trinta abertas, sobre os mais variados assuntos, assim, desde assuntos de lazer até tópicos de estudos” e para Alice: “acompanhar as aulas online pra mim tem sido péssimo, tenebroso”, mas houve estudantes que percebeu benefícios em estudar de maneira remota como escolher seus horários, dormir até mais tarde e não ter que se deslocar.
Sobre as disciplinas da universidade, os participantes disseram que a aprendizagem no contexto remoto dependia muito dos professores, do conteúdo e das avaliações, havendo, em alguns casos, maiores perdas que outros. De maneira geral, os estudantes afirmaram que tendem a aprender mais nas aulas síncronas porque sentem que estão “todos no mesmo barco”, havendo, mesmo à distância, alguma interação com colegas e professores. Perguntamos se eles consideravam que teriam algum prejuízo na sua formação ou não. Embora uma estudante afirmasse que percebia mais qualidade no seu aprendizado no ensino remoto, de maneira geral, os estudantes relataram que não se sentiam tão preparados quanto se estivessem tendo aulas presenciais. Porém, alguns estudantes ressaltaram que a tecnologia possibilitou que eles continuassem estudando e aprendendo, e que era uma das poucas coisas que puderam manter.
De maneira geral, os estudantes disseram tentar manter o hábito de acordar no mesmo horário, criar rotinas, usar agenda, mesmo reconhecendo que nem sempre cumpriam o planejado. Um participante disse que, por ser jovem, era o único da família autorizado a sair de casa durante a pandemia e tinha que interromper suas atividades para resolver questões fora de casa. A maior parte dos participantes afirmou não ter aprendido estratégias de aprendizagem na escola, mas que as desenvolveram por experiência própria ou com colegas.
É preciso reconhecer que este grupo de estudantes investigado se prontificou para participar de uma roda de conversa sobre os seus hábitos de estudo na pandemia, não sendo representativo dos estudantes das instituições ou cursos em que estão matriculados. Ainda assim, são jovens universitários expressando os desafios vivenciados ao lidar com a aprendizagem no contexto remoto e num cenário de adoecimento, morte, insegurança e perdas. Estando ou não no ensino remoto, os estudantes hoje utilizam tecnologias que os colocam, simultaneamente, em contextos muito diferentes, intensificando a distração e a realização de múltiplas atividades, sendo urgente auxiliá-los a criar hábitos de estudo, autorregular seus processos de aprendizagem, o que pode diminuir a ansiedade, a cobrança por uma capacidade de foco e concentração que é, frequentemente, irreal ou inadequada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BASTOS, C. L.; KELLER, V. Aprendendo a aprender: Uma introdução à metodologia científica. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
BRAUN, V.; CLARKE, V. Using thematic analysis in psychology. Qualitative Research in Psychology, 3(2), 77-101, 2006.
FRISON, L. M B. Autorregulação da aprendizagem: abordagens e desafios para as práticas de ensino em contextos educativos. Revista de educação. Campinas, pp. 1-17, jan./abr., 2016.
BORUCHOVITCH, E.; GOMES, M. A. M. (orgs.) Aprendizagem autorregulada: como promovê-la no contexto educativo? Petrópolis: Vozes, 2019.
LEVY, Bel. Estudo analisa registro de óbitos por Covid-19 em 2020. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/noticia/estudo-analisa-registro-de-obitos-por-.... Acesso em 28 abril 2022.
PNAD Contínua. Com pandemia, 20 estados têm taxa média de desemprego recorde em 2020. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-n.... Acesso em 28 abril 2022.
JOLY, M. C. R. A.; DIAS, A. S.; ALMEIDA, L. S.; FRANCO, A. Autorregulação na universidade. II Seminário Internacional “Contributos da Psicologia em Contextos Educativos”. Braga: Universidade do Minho, 2012. pp. 1020 - 1028.

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Instituições
  • 1 Universidade Federal de Viçosa
Eixo Temático
  • 4. Questões sociocognitivas
Palavras-chave
Autorregulação
Hábitos de Estudo
Pandemia