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Contextualização O município de Santa Quitéria, no semiárido cearense, integra uma região marcada por vulnerabilidades socioeconômicas e sanitárias, como insegurança hídrica e alimentar, que afetam entre 9% e 24% da população. Esse território abriga a maior reserva brasileira de urânio. Desde sua descoberta, na década de 1970, empreendimentos buscam viabilizar sua exploração através do Projeto Santa Quitéria (PSQ). Esse projeto foi sucessivamente adiado devido ao potencial de contaminação ambiental, à escassez de água e à resistência de comunidades rurais, indígenas e quilombolas próximas à jazida. Nos últimos anos, o debate sobre energia nuclear ganhou novo impulso a partir da crescente demanda energética e pela busca de redução de emissões de carbono. Nesse cenário, o PSQ voltou a ser considerado viável, gerando preocupações quanto aos possíveis impactos socioambientais e à saúde da população. Entre os principais riscos destaca-se a possível exposição ao urânio por meio da água destinada ao consumo humano. Assim, a Vigilância em Saúde Ambiental assume papel estratégico no monitoramento da qualidade da água e na produção de informações voltadas à proteção da saúde coletiva. Descrição da Experiência A experiência consistiu no fortalecimento das ações de vigilância da qualidade da água no município de Santa Quitéria, com foco no monitoramento de parâmetros físicos, químicos e radiológicos e na avaliação de riscos à saúde. Foram revisados os planos de amostragem e ampliados os pontos de coleta em sistemas públicos de abastecimento e em soluções alternativas coletivas e individuais. Os pontos priorizados incluíram comunidades rurais, assentamentos e localidades com maior vulnerabilidade associada à insegurança hídrica. Também houve qualificação das equipes locais para coleta de amostras, registro das informações e interpretação de resultados laboratoriais. Paralelamente, foram fortalecidas a articulação com a gestão municipal e a comunicação com as comunidades potencialmente impactadas, buscando ampliar a transparência das informações e integração das ações. Objetivo e período de Realização A iniciativa teve como objetivo fortalecer o monitoramento da qualidade da água e qualificar a avaliação do risco potencial de exposição ao urânio por meio da água destinada ao consumo humano. As ações foram desenvolvidas entre 2019 e 2025, em articulação entre instâncias estaduais e municipais do Sistema Único de Saúde. Resultados Houve ampliação significativa da cobertura de monitoramento da água para consumo humano, com inclusão sistemática de parâmetros relacionados ao urânio e outros indicadores de potabilidade. A priorização de territórios vulneráveis permitiu identificar situações de água imprópria para consumo em algumas comunidades. A identificação dessas inconformidades possibilitou a adoção de medidas de proteção, como orientação direta às famílias, comunicação de risco em linguagem acessível e articulação com a gestão municipal para providências corretivas e garantia de acesso à água segura. Assim, o monitoramento passou a constituir instrumento concreto de prevenção de agravos e redução da exposição a riscos ambientais. A experiência também contribuiu para fortalecer a confiança da população nas ações do Sistema Único de Saúde, além de qualificar o debate público sobre saúde, ambiente e mineração no território. Aprendizado e Análise Crítica A experiência evidenciou que a vigilância da qualidade da água ,em contextos de conflito socioambiental e insegurança hídrica estrutural, ultrapassa a dimensão estritamente técnica e exige abordagem territorial, intersetorial e participativa. O monitoramento contínuo mostrou-se instrumento relevante de equidade ao priorizar populações mais expostas e dar visibilidade a riscos muitas vezes naturalizados no cotidiano. Persistem, entretanto, desafios relacionados à articulação entre setores como saúde, meio ambiente, recursos hídricos e mineração. O fortalecimento do diálogo institucional, do compartilhamento de informações e da cooperação entre órgãos públicos é essencial para respostas mais integradas e preventivas. Nesse contexto, a vigilância da qualidade da água representa um compromisso com a proteção da saúde, a dignidade e o direito das comunidades de viver com segurança e acesso à água de qualidade.
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