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RESUMO
Introdução: A sífilis congênita (SC) é uma infecção bacteriana transmitida verticalmente pelo Treponema pallidum e representa um dos maiores desafios da saúde materno-infantil no Brasil. Quando não diagnosticada e tratada precocemente, pode resultar em prematuridade, malformações, comprometimento neurológico e óbito neonatal. Trata-se de condição inteiramente prevenível, cuja persistência é indicador sensível das desigualdades estruturais do sistema de saúde, especialmente quanto ao acesso, à qualidade do pré-natal e à equidade racial e territorial. Os dados epidemiológicos evidenciam a gravidade do problema: entre 2010 e 2023, foram notificados mais de 644 mil casos de sífilis na gestação no Brasil, dos quais cerca de 43% culminaram em SC. A região Norte concentra alguns dos índices mais alarmantes do país, com destaque para o estado do Pará, que responde por expressiva parcela das notificações regionais, realidade diretamente associada a barreiras geográficas, desigualdades no acesso aos serviços de saúde e iniquidades raciais historicamente consolidadas nesse território. Dentro desse cenário, um aspecto pouco investigado é a interface entre SC e o aleitamento materno (AM). As diretrizes clínicas reconhecem o AM como seguro na SC, salvo na presença de lesões ativas na mama. No entanto, evidências nacionais apontam que essa informação raramente é transmitida de forma clara durante o pré-natal, gerando desinformação, insegurança e desmame precoce desnecessário. Esse conjunto de falhas revela lacunas estruturais na formação e na prática comunicativa dos profissionais de saúde, impactando desproporcionalmente mulheres negras, indígenas e periféricas, tornando o tema diretamente relacionado à equidade e inclusão na formação em saúde. Objetivos: Analisar as evidências científicas disponíveis sobre o conhecimento de mães de bebês com sífilis congênita acerca do aleitamento materno e sobre as orientações dos profissionais de saúde relacionadas ao tema, identificando lacunas na literatura com ênfase no contexto amazônico, e discutindo suas implicações para a formação em saúde na perspectiva da equidade. Metodologia:Trata-se de uma Revisão Integrativa da Literatura, conduzida conforme as diretrizes do EQUATOR Network. A questão norteadora foi elaborada segundo a estratégia PICo (População, Interesse, Contexto): quais são as evidências científicas sobre o conhecimento materno e as orientações profissionais acerca do aleitamento materno na sífilis congênita, com ênfase no contexto amazônico? A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS/BVS), com os descritores controlados Sífilis Congênita, Aleitamento Materno e Conhecimento, Atitudes e Prática em Saúde (DeCS/MeSH), combinados por operadores booleanos AND e OR. Incluíram-se artigos publicados entre 2019 e 2025, em português e inglês, com texto completo disponível gratuitamente, que abordassem conhecimento materno, orientações profissionais ou epidemiologia da SC em interface com o AM. Excluíram-se anais, dissertações, teses e editoriais. Após leitura criteriosa de títulos, resumos e textos completos, foram selecionados 10 artigos. Por tratar-se de revisão de literatura sem envolvimento direto de seres humanos, dispensa-se aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Resultados e Discussão: Os estudos foram organizados em três categorias. Na primeira, referente à epidemiologia da SC na Amazônia, os achados revelam uma realidade crítica e marcada por iniquidades. Pesquisas conduzidas no Pará demonstram tendência de crescimento das taxas de SC em nove das treze regiões administrativas do estado entre 2007 e 2020, com estabilização em patamares elevados ao final da série.1 Estudos ecológicos mostram que as hospitalizações por SC em menores de um ano estão fortemente associadas às desigualdades no acesso territorial aos serviços de saúde.2 A análise dos casos confirma a concentração da doença em recém-nascidos pardos e filhos de mães jovens que realizaram pré-natal sem receber orientações ou tratamento adequados, evidenciando que o problema não é meramente técnico, mas estruturalmente racializado e territorialmente desigual. Na segunda categoria, voltada às recomendações sobre AM e SC, as diretrizes internacionais são consensuais: o AM é seguro na ausência de lesões ativas na mama, e sua contraindicação indiscriminada representa risco desnecessário ao vínculo mãe-filho e à saúde neonatal.3 Contudo, a literatura aponta que essa informação raramente chega de forma clara às mães, o que frequentemente resulta em desmame precoce motivado por medo e desinformação. Nenhum dos estudos dessa categoria foi produzido no contexto amazônico, revelando uma lacuna científica relevante: as recomendações disponíveis provêm de realidades socioepidemiológicas distintas, e sua aplicabilidade local permanece desconhecida. A terceira categoria, e a mais diretamente relacionada à formação em saúde, reuniu os achados mais impactantes. Um estudo com puérperas diagnosticadas com sífilis gestacional revelou que 62,5% não receberam informações sobre a finalidade do teste sorológico realizado no pré-natal, e 35,5% não tiveram oportunidade de esclarecer dúvidas com o profissional de saúde.4 Revisão integrativa sobre a atuação do enfermeiro na prevenção da SC identificou lacunas significativas na abordagem educativa, tanto no que diz respeito à capacidade comunicativa dos profissionais quanto à ausência de protocolos que contemplem aspectos como amamentação, reinfecção e cuidados com o recém-nascido exposto.5 Os achados apontam que o problema não reside apenas no que as mães não sabem, mas naquilo que os profissionais não ensinam, e que a formação em saúde ainda não prepara adequadamente os trabalhadores para uma educação empática, culturalmente competente e antirracista. Chama atenção a ausência quase total de estudos que articulem AM, conhecimento materno e orientações profissionais especificamente no contexto amazônico. Essa lacuna é, ela própria, um achado: a Amazônia, com sua diversidade étnica e racial, suas barreiras geográficas e sua histórica invisibilidade nas políticas de saúde, permanece sub-representada na literatura científica sobre o tema. Pesquisar e qualificar a formação de profissionais nesse território é um ato de equidade. Conclusões: A revisão demonstrou que, apesar das diretrizes claras sobre a segurança do AM na SC, persistem lacunas graves no conhecimento materno e nas orientações dos profissionais de saúde, lacunas que não são neutras, mas racializadas e territorialmente distribuídas. A desinformação materna é, em grande medida, produto de falhas na formação e na prática educativa dos profissionais que conduzem o pré-natal. O contexto amazônico, marcado por alta carga epidemiológica e iniquidades estruturais, permanece criticamente invisibilizado na produção científica sobre o tema. Os achados reforçam a urgência de curricularizar, nos cursos da área da saúde, abordagens antirracistas e culturalmente sensíveis para a educação em saúde no ciclo gravídico-puerperal, com atenção especial às populações historicamente marginalizadas da Amazônia. Evidenciam, ainda, a necessidade de pesquisas primárias situadas nessa realidade, capazes de subsidiar políticas públicas que respondam às necessidades reais dessas populações.
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